Enquanto o camisa 10 divide opiniões dentro de campo, o sobrenome Neymar acaba de marcar um gol de placa fora dele. E não foi no futebol.
A família do atleta lançou a Le Prince, uma marca de vinhos que já nasceu batendo recorde: 300 mil garrafas vendidas de forma antecipada, antes mesmo de os rótulos chegarem às prateleiras e às plataformas de e-commerce. É um número que muita vinícola tradicional leva anos para alcançar. A Le Prince fez isso na largada.
O movimento diz menos sobre vinho e mais sobre uma lição que atletas de elite demoram para aprender: a carreira dentro das quatro linhas tem prazo de validade, mas a marca construída ao longo dela pode faturar por décadas. Neymar parece ter entendido o recado.

Do apelido no Santos ao rótulo na taça
O nome não é aleatório. “Le Prince” é uma referência direta ao apelido “Príncipe da Vila”, que Neymar carregou nos tempos de base e de profissional do Santos, na Vila Belmiro. O clube que revelou o craque virou, agora, conceito de marketing de uma marca de bebidas.
A iniciativa é conduzida em parceria com a holding JLX, responsável pela estratégia de expansão no mercado brasileiro, e conta com o envolvimento direto de Neymar da Silva Santos, o pai do jogador, historicamente o principal gestor dos negócios da família. A operação fora dos gramados sempre foi tocada em casa, e o vinho segue a mesma lógica.
Mais do que emprestar o sobrenome a um rótulo, a família apostou em credibilidade técnica. A curadoria da Le Prince ficou nas mãos de Dirceu Vianna Júnior, o primeiro brasileiro a conquistar o título de Master of Wine, a certificação mais prestigiada e difícil do mundo do vinho. Menos de 500 pessoas no planeta detêm o título. Colocar um nome desses na seleção dos rótulos é o tipo de detalhe que separa um licenciamento de celebridade de um projeto de negócio levado a sério.
Quatro linhas, sete rótulos, de R$ 59 a R$ 50 mil
O portfólio de estreia tem sete rótulos, distribuídos em quatro linhas que vão do vinho de entrada ao item de colecionador. A leitura de mercado é clara: entrar em todas as faixas de bolso ao mesmo tempo.
A linha Red é a porta de entrada, com vinhos chilenos da vinícola Terraustral e preço sugerido a partir de R$ 59,90, incluindo um Sauvignon Blanc do Valle de Leyda. A linha Black sobe o nível com dois espanhóis: um tinto em parceria com a tradicional Bodegas Faustino, da região de Rioja, e um branco Albariño da Paco & Lola, de Rías Baixas, com preços entre R$ 149 e R$ 199,90.
A linha Green mira o consumidor mais exigente, com rótulos europeus de alta exclusividade, entre eles um francês de Châteauneuf-du-Pape, no Vale do Rhône, e um espanhol da Abadia Retuerta, na faixa de R$ 250 a R$ 350. No topo, a linha Blue é uma coleção ultra exclusiva para membros e colecionadores, desenvolvida em parceria com uma boutique winery da região de Bordeaux, com garrafas numeradas e associadas a momentos da carreira de Neymar. Nessa faixa, o preço pode chegar a R$ 50 mil por garrafa.
Os vinhos vêm de três países de tradição no setor: Espanha, França e Chile. A marca já começou a aparecer no varejo físico, com presença nas lojas Angeloni, em Santa Catarina, e em plataformas como a Divvino.

A aposta em um mercado subaproveitado
Por trás da jogada existe uma leitura de mercado. O consumo per capita de vinho no Brasil gira em torno de 2,5 litros por ano, um número modesto quando comparado aos cerca de 20 litros por habitante do Chile, um dos maiores produtores da América do Sul. Ou seja: há muito espaço para crescer.
A estratégia da Le Prince passa por reduzir a formalidade em torno da bebida e ampliar o alcance para além do segmento premium, alcançando diferentes perfis de consumidor. A linha de R$ 59,90 e a garrafa de R$ 50 mil convivem de propósito. Uma constrói volume, a outra constrói desejo. É a mesma lógica de um clube que vende ingresso de arquibancada e camarote no mesmo estádio.
Os números projetados são agressivos. A marca estima faturar R$ 25 milhões com 1 milhão de unidades na fase inicial e chegar a R$ 100 milhões com mais de 4 milhões de garrafas no primeiro ano de operação. A meta para o fim de 2026 é ambiciosa: 10 milhões de rótulos vendidos. As 300 mil garrafas negociadas antes do lançamento funcionam como um teste de demanda, e o resultado sugere que o apetite existe.
O império que se constrói fora das quatro linhas
A Le Prince não é um caso isolado. Ela se soma a um portfólio que a família Neymar vem montando ao longo dos anos, que inclui imóveis de luxo, participações em diferentes setores e até a gestão de marca ligada a Pelé. O vinho é a peça mais recente de uma estratégia de diversificação que transforma capital de imagem em capital de negócio.
É aqui que a história deixa de ser sobre celebridade e passa a ser sobre método. Neymar construiu, ao longo de mais de quinze anos de carreira, um dos ativos mais valiosos do esporte brasileiro: um nome reconhecido em escala global. A pergunta que separa o atleta que se aposenta rico do atleta que se aposenta quebrado é o que se faz com esse ativo enquanto ele ainda vale muito.
O que isso ensina sobre alta performance
A lição da Le Prince atravessa o vinho e chega direto no vestiário. O corpo do atleta tem um pico, e esse pico não dura para sempre. Joelho, tornozelo, velocidade e explosão têm calendário. A marca pessoal, não. Ela pode continuar rendendo muito tempo depois do último jogo, desde que seja tratada como um ativo a ser construído, e não como um bônus que aparece sozinho.
O que os grandes nomes do esporte ensinam não é a sorte de nascer talentoso. É a disciplina de olhar para além da próxima temporada. Enquanto muitos atletas gastam o auge sem estruturar nada, os que constroem legado começam cedo, cercam-se de gente que entende do assunto (um Master of Wine, uma holding, um sócio de confiança) e tratam a própria imagem como uma empresa.
Para o atleta amador ou profissional que lê isso, o princípio é o mesmo, na escala que for. Performance de verdade não é só o que acontece no dia da prova. É a soma das decisões tomadas fora dela: como você treina, como você se recupera, como você planeja o depois. O jogo dentro de campo termina. O jogo da vida, não.
Neymar pode dividir opiniões com a bola nos pés. Mas, ao vender 300 mil garrafas antes de abrir as portas, ele deu uma aula sobre uma habilidade que todo atleta deveria treinar tanto quanto o físico: transformar reputação em patrimônio.
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