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WSL põe o próprio nome à venda e mira o dinheiro de fora do surfe

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Equipe Atleta Pro
Surfista deixa a água em Saquarema cercado por painéis de patrocinadores da WSL e do Vivo Rio Pro

Em 9 de julho de 2026, a World Surf League fez algo que nenhuma liga faz quando está confortável: contratou uma agência para vender o próprio nome. A The.Team, agência internacional que até março deste ano se chamava Wasserman, foi nomeada agência global exclusiva de vendas de direitos da liga. A missão declarada é encontrar um patrocinador master, o tipo de parceiro que compra o direito de ter a marca colada no nome da competição.

Não é o anúncio de um patrocínio. É o anúncio de que a WSL decidiu ir atrás de um. E a distância entre essas duas coisas conta bem em que momento o surfe profissional está.

A liga contratou quem vende nome de estádio

A The.Team não é uma agência de surfe. É a mesma casa contratada recentemente para achar um novo parceiro de naming rights do Camping World Stadium, em Orlando. O braço de rights sales dela trabalha vendendo o nome de arenas e propriedades esportivas para marcas grandes, e agora a WSL entrou nessa prateleira.

A leitura é direta. A liga não está procurando mais uma marca de roupa de praia para pendurar num banner de bateria. Está procurando alguém disposto a comprar a competição inteira, e foi buscar isso no mercado de fora do surfe.

“A World Surf League é inegavelmente o auge de um esporte que tem relevância cultural no mundo inteiro”, disse Chris Foy, Managing Director e EVP de vendas de direitos da The.Team na América do Norte.

Nem valores nem prazo foram divulgados.

Os números que a WSL está usando como argumento

Toda negociação de patrocínio é uma discussão sobre audiência. A WSL chegou nessa com três dados na mão, todos de 2025:

  • 80 milhões de espectadores globais somando TV linear e streaming, alta de 39% em relação ao ano anterior.
  • 1,5 bilhão de impressões de conteúdo, alta de 46% sobre 2024.
  • Uma temporada que termina no Pipe Masters, no Havaí, o evento mais reconhecível do calendário.

Some a isso um detalhe simbólico que a própria liga fez questão de colocar no anúncio. “Ao entrarmos no nosso 50º ano, estamos animados em colaborar com a THE·TEAM para destravar novas oportunidades comerciais”, disse Nicole Metzger, diretora de receita da WSL. O circuito nasceu em 1976. Meio século depois, é a primeira vez que ele coloca o próprio nome na mesa.

Crescimento de 39% em audiência é o tipo de número que muda o preço de uma cota. Não é um pedido de socorro, é uma janela.

O dinheiro novo não vem mais das marcas de surf

Aqui está o padrão que amarra tudo, e ele já vinha aparecendo antes desse anúncio.

Italo Ferreira perdeu a Billabong em 2023 e fechou com a Nike em janeiro de 2025, o que marcou o retorno da marca ao surfe depois de ter vendido a Hurley em 2019. Italo virou o único atleta do circuito com o logo da Nike no bico da prancha.

Yago Dora segura prancha com o logo da Vissla, marca que assumiu o patrocínio principal do campeão mundial em 2026
Yago Dora encerrou 14 anos de Volcom e assinou com a Vissla para 2026.

Yago Dora encerrou 14 anos de Volcom depois de conquistar o título mundial em setembro de 2025, e assinou com a Vissla para 2026. Mas o dado relevante não é a troca de uma marca de surf por outra. É o que ele montou em volta: Ford, On, SYM, Ademicon, C6 Bank e The Natural One. Banco, montadora, marca de corrida, empresa de consórcio, suco. Nenhuma delas vende prancha.

Gabriel Medina encerrou 17 anos de Rip Curl, parceria que começou quando ele tinha 15 anos e atravessou três títulos mundiais (2014, 2018 e 2021), 18 vitórias em etapas do CT e o bronze de Paris 2024. Até o começo de 2026, nenhuma marca principal havia sido anunciada no lugar.

Três dos maiores nomes do surfe brasileiro, três rupturas com a indústria que historicamente bancou o esporte. Não é coincidência de calendário. É a indústria de surf perdendo a capacidade de pagar o que os atletas passaram a valer.

No Brasil, o teste já está rodando

Se alguém duvida de que existe dinheiro de fora querendo entrar, basta olhar Saquarema.

O Vivo Rio Pro saiu de 12 patrocinadores em 2023 para 15 em 2024, 16 em 2025 e 25 em 2026. Terceiro recorde consecutivo. Entre os novos estão a GWM, o Guaraná Antarctica e a Aquacoco. A montadora chinesa levou a coisa mais longe: vai dar um carro para a maior somatória de notas da final entre homens e mulheres, algo inédito em etapa brasileira. O campeão da etapa levou uma premiação de cerca de R$ 750 mil, a maior da história do evento.

Na América do Norte, o movimento tem o mesmo formato. A Lexus é parceira automotiva da WSL e dá nome a três etapas do Championship Tour, incluindo o US Open of Surfing, que acontece entre 25 de julho e 2 de agosto.

O Brasil, nesse desenho, deixou de ser só o país que ganha as ondas. Virou o laboratório comercial onde a liga prova que o modelo funciona.

Por que 2028 é o relógio dessa negociação

Surfista brasileiro dentro do tubo durante bateria, com a bandeira do Brasil na lycra de competição
O surfe é esporte fixo do calendário olímpico e será disputado em Los Angeles 2028.

O anúncio menciona Los Angeles 2028 de forma explícita, e não por acaso.

Depois de Tóquio 2020 e Paris 2024, o surfe entrou no calendário olímpico como esporte fixo. Em 2028, ele será disputado em casa, no fuso e no mercado americano, com o público que compra e as marcas que patrocinam olhando ao vivo. É a maior vitrine que o esporte vai ter nesta década.

Uma marca que assina agora chega em 2028 já instalada. Uma que assina em 2027 paga o preço da fila. É essa a corrida que a WSL está tentando provocar ao colocar a The.Team no jogo dois anos antes.

O que isso ensina sobre alta performance

Tem uma lição prática nisso, e ela não é sobre a liga. É sobre o atleta.

Durante décadas, o surfista profissional teve uma única porta de entrada: agradar a indústria de surf. A prancha, a roupa, a marca, tudo vinha do mesmo ecossistema. O resultado era um teto baixo e uma dependência perigosa, porque quando aquela indústria encolhia, o atleta encolhia junto. Foi exatamente o que aconteceu com Italo em 2023 e com Medina no começo deste ano.

O que Yago Dora fez é o contraponto. Ele não substituiu um patrocinador por outro, ele construiu um portfólio. Seis marcas, de cinco setores diferentes, nenhuma delas capaz de derrubar sua renda sozinha se sair. Isso não é sorte de campeão mundial, é arquitetura. E é replicável em escala menor por qualquer atleta que entenda o princípio, porque patrocínio não se ganha, se conquista.

O princípio é este: o valor de um atleta não é definido pelo esporte que ele pratica, e sim pela audiência que ele carrega. Um banco não patrocinou Yago Dora porque gosta de surfe. Patrocinou porque quer falar com quem assiste Yago Dora. No instante em que o atleta entende que vende atenção, e não modalidade, o mercado dele deixa de ser a indústria do próprio esporte e passa a ser a economia inteira.

A WSL demorou 50 anos para chegar nessa conclusão sobre si mesma. O atleta que chegar antes larga na frente.

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