O ranking mundial do florete feminino tem cerca de 600 nomes. Só a Itália tem 40 mil praticantes, e os Estados Unidos, mais 50 mil. Bia Bulcão, a melhor floretista das Américas, é a 44ª dessa lista. Perguntada sobre o que separa uma atleta boa de uma atleta de pódio, ela respondeu com uma palavra.
“Detalhe. É quem foca nos detalhes”, disse, em entrevista ao No Topo Podcast, com Diogo Moraes e Nicholas Pasqualetto. “Todo mundo tá treinando. Todo mundo tá treinando o máximo que pode. Já não é mais isso que tá indo. É quem tá mais conectado no presente, quem tá melhor recuperado, quem tá mais forte mentalmente, quem tá mais confiante.”
Aos 32 anos e com 23 de esgrima nas costas, Bia vive o momento mais maduro da carreira. Foi olímpica no Rio 2016, é a primeira brasileira a subir num pódio de florete individual em Jogos Pan-Americanos (bronze em Lima 2019) e voltou ao top 50 do ranking da Federação Internacional de Esgrima depois de vencer o Torneio Satélite do Rio de Janeiro, em outubro de 2025. Hoje, pelo desenho atual do ranking, ela é a atleta mais bem colocada das Américas fora de Estados Unidos e Canadá. Traduzindo: se a classificação olímpica fechasse agora, a vaga para Los Angeles 2028 seria dela.
O episódio, gravado enquanto ela treinava na Europa, é menos sobre medalhas e mais sobre o que sustenta uma carreira de duas décadas em um esporte que quase ninguém no Brasil vê pela televisão.

A conta que quase ninguém faz: 600 atletas para uma vaga
Bia detalhou o tamanho do funil. “O ranking mundial deve ter 600 pessoas mais ou menos na minha categoria. Mas na Itália você tem 40 mil esgrimistas, nos Estados Unidos você tem mais 50 mil. Então é os melhores de cada região que vão lá, são 600. Daqueles 600 participam 200 do campeonato.”
É a diferença entre estar no esporte e estar no topo dele. E, nesse ponto da pirâmide, volume de treino virou pré-requisito, não vantagem.
Para ilustrar o que passou a decidir, ela citou uma reportagem que tinha lido no dia anterior sobre a rotina de recuperação da jogadora de vôlei Gabi: cama tecnológica, botas de compressão, óculos de bloqueio de luz azul. “É por isso que ela é a melhor do mundo. Se você não tá focando nesses detalhes, você não vai chegar lá.”
Roma, dois meses, zero passeios
O detalhe mais concreto dessa lógica apareceu quando ela descreveu a própria rotina na Europa. Bia está há dois meses treinando na Itália, a poucos quilômetros do Coliseu, e não foi ao centro de Roma uma única vez.
“Tô aqui a dois meses, eu não fui pro centro de Roma nenhuma vez”, contou. “Tô focada no que eu tenho que fazer e tá ótimo assim para mim. Eu tô feliz fazendo isso.”
O trecho virou o retrato mais honesto do episódio, justamente porque desmonta a fantasia que as redes sociais criam em torno do atleta que treina no exterior.
“As pessoas falam: ah, eu tô treinando na Itália. Não é só isso que tá fazendo a diferença”, disse. “Não é que eu vou lá e vou comer uma pizza. Não, eu vou lá, faço o meu descanso do pós-treino, eu tenho todos os aparelhinhos que eu preciso para fazer recuperação. Eu faço gelo todo dia depois do treino, durmo na hora que tem que dormir. Essa parte ninguém tá vendo.”
Bia treina na Itália há quase oito anos, sempre que o calendário e o orçamento permitem. É lá que ela encontra o volume de sparring que o Brasil não tem: uma sala com dezenas de floretistas de nível mundial na mesma sessão.
O treinador russo que a preparou para competir sozinha
A base técnica de Bia foi construída por Gennady Miakotnykh, treinador russo que a acompanhou desde a estreia, em 2003, até a morte dele, durante a pandemia. Ele chegou ao Brasil depois que um atleta seu foi campeão mundial no Rio, e viu na menina canhota de 9 anos um projeto de campeã mundial.
O método era de outra escola. “Treino começa 8 horas, é 8 horas, não é para chegar 8h01”, lembrou. Sábado às 8h30 tinha aula. Dia 31 de dezembro, 8h30 da manhã, pista.
Mas o que ela guardou não foi só a técnica. Era ele quem inventava o treino que não parecia treino: partidas de badminton no meio da sessão, caminhadas sobre as pedras do Ibirapuera em vez da sala de armas, aulas de russo, exercícios que não tinham relação óbvia com florete.
“Ele falava: você vai ser campeã mundial, a gente vai preparar você para ser campeã mundial. E eu via que ele acreditava nisso”, contou. “Eu tava disposta a fazer tudo o que precisasse.”
Havia uma segunda camada nesse trabalho, e ela só ficou clara anos depois. Por falta de verba, o Brasil raramente mandava treinador junto nas Copas do Mundo. Em vez de reclamar, ele treinou a atleta para o cenário real.
“Ele sempre deixou claro para mim: eu vou te dar as ferramentas, mas você vai usar sozinha. Então ele me treinou para competir sem um treinador”, disse Bia, que viajou para a primeira Copa do Mundo aos 18 anos, desacompanhada. “Eu aprendi a me virar com situações que eu vejo que muita gente tem dificuldade, fica muito dependente do treinador. Às vezes eu funciono até melhor sozinha.”
Nos Jogos Olímpicos do Rio, em 2016, o treinador dela estava na arquibancada. Quem ficava na ponta da pista era o técnico da seleção.
Ele também a obrigou a documentar tudo. Bia escreveu mais de 600 relatórios de treino ao longo dos anos, e continua escrevendo até hoje. Quando ele morreu, no meio da classificação para Tóquio, aquele arquivo virou herança coletiva: ela distribuiu os exercícios traduzidos do russo para os outros atletas dele.
“Você anota tudo que eu tô falando, que um dia você vai contar para alguém que tinha um treinador meio louco, russo, que falava para anotar”, ela repetiu, citando a frase dele.

A respiração é a ferramenta, o gelo é só o caminho
Perguntada sobre o que uma pessoa comum poderia aplicar da preparação mental de uma atleta olímpica, Bia não falou de mantra nem de visualização. Falou de respiração.
“Você pode parar de fazer tudo, mas você não vai conseguir parar de respirar”, explicou. “Quando eu tô no meio de um jogo e às vezes começa a vir um monte de pensamento, tipo, o que que estão pensando de mim, será que vai dar o ponto para mim, na hora que eu viro a chave, volto a atenção pra respiração. Eu só respiro. Isso me conecta de novo com aquilo que eu tenho que fazer.”
O banho gelado, que ela faz diariamente, entra como treino dessa habilidade, não como moda. “Todo mundo que não conhece fica pensando no gelo, na pele, no que o frio tá fazendo. Mas quando eu comecei a estudar e a praticar, eu percebi que é só um caminho para te fazer respirar direito.”
O detalhe que ela descreve é típico de quem já treinou isso a sério: antes de uma competição, tensa, ela entra na água e busca o foco na respiração. “Parece que a água tivesse caindo em câmera lenta. Tão conectado que você tá com aquele momento.”
Não é exclusividade da esgrima. O controle respiratório é uma das ferramentas centrais do treinamento mental para atletas, e na esgrima especificamente ele decide pontos em um esporte em que a leitura do adversário acontece em frações de segundo.
A conta da vaga para Los Angeles 2028
A classificação olímpica da esgrima é um labirinto, e Bia destrinchou o dela com a frieza de quem já perdeu dois ciclos.
Primeiro classificam as quatro melhores equipes do ranking mundial. Depois, a melhor equipe de cada continente. Só então entram as vagas individuais, reservadas a atletas de países que não classificaram equipe. Como os Estados Unidos estão entre os quatro primeiros e o Canadá aparece logo atrás, a vaga da América sobra para a melhor atleta do restante do continente. Hoje, essa atleta é Bia.
Quem ficar de fora ainda disputa um pré-olímpico regional de um dia só, valendo mais uma vaga. Só que, pelas regras brasileiras, para chegar lá é preciso ser a primeira do ranking nacional. As provas nacionais e internacionais começam a valer em janeiro de 2027, e a corrida pelo ranking mundial vai de abril de 2027 até abril de 2028.
“É um ano e meio com todo mundo buscando uma vaga”, resumiu.
A diferença para os ciclos anteriores, segundo ela, não é física. “Talvez eu não tenha a juventude que eu tinha dez anos atrás, quando foi 2016. Mas eu tenho muito mais maturidade, uma mentalidade muito melhor e toda a experiência, que é o que faltava nos últimos dois ciclos, que eu não classifiquei.”
E o objetivo declarado não é o crachá olímpico. “Eu tô treinando só para esse objetivo. Não é: ah, vou classificar. Meu objetivo é na Olimpíada ganhar a medalha, então tenho que estar na minha melhor condição ali. Não é só tá na vaga de classificar.”
Por isso ela recusa a lógica de poupar energia para o ano que vale. “Às vezes a pessoa prefere: ah, vou guardar pro ano que vem que vai ter Olimpíada, vou preservar. Não, eu tô jogando como se fosse agora.”
Da pista para a formação de outras atletas
Enquanto persegue a vaga, Bia construiu uma segunda carreira. Ela se formou treinadora mental depois do processo que fez para tentar a classificação para Paris, e hoje acompanha atletas de diferentes modalidades.
O encontro mais curioso desse novo papel aconteceu há poucos meses: ela disputou a semifinal de um Campeonato Brasileiro adulto contra uma atleta que faz acompanhamento mental com ela o ano inteiro.
“Foi bem diferente, mas gratificante, porque você tá vendo o seu trabalho ali junto com ela crescendo, vendo ela colher os resultados que ela queria”, disse.
O impulso, segundo ela, é antigo. “Eu sempre quis fazer algo além disso. Quando eu era mais nova eu não tinha clareza nem de como realizar, mas eu tinha esse desejo de querer mudar um pouco a realidade do esporte no Brasil.”
O que isso ensina sobre alta performance
O episódio inteiro gira em torno de uma ideia que vale muito além da esgrima: no topo, ninguém vence por treinar mais. Todos treinam no limite. Vence quem controla as variáveis que ficam fora do holofote.
Sono no horário. Gelo depois do treino. Comida certa. Respiração sob pressão. Recusar o passeio turístico porque a recuperação daquela tarde importa mais. Nenhuma dessas escolhas rende foto, e é exatamente por isso que a maioria não as faz.
Vale também a lição do treinador russo, que virou restrição em vantagem: ao formar uma atleta capaz de competir sem técnico na beira da pista, ele produziu autonomia num ambiente em que quase todo mundo depende de alguém gritando instrução no intervalo.
E há o fecho, que Bia deu quando perguntaram o que significa chegar no topo. É a mesma virada de chave que separa quem volta depois de uma derrota de quem para no meio do caminho.
“Quando eu penso no topo do pódio, eu falo: em algum momento eu pensei que desistia, eu não tava entendendo por que aquela situação tava acontecendo comigo. E aí você chega lá no topo do pódio, você olha para isso e fala: caramba, olha como eu sou forte. Eu cheguei aqui por conta dessa história, não por conta da medalha.”
Assista ao episódio completo
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