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Antonelli: 10 curiosidades, do 45G em Monza ao nome Kimi

Kimi Antonelli em cima da Mercedes comemorando a vitória no GP da China de 2026

Kimi Antonelli venceu o GP da Itália no domingo (6) largando em 19º, passou George Russell na chicane de Ascari a três voltas do fim e virou o primeiro italiano a ganhar em Monza desde 1966. Foi a sétima vitória dele em 2026, aos 20 anos, e abriu 66 pontos de vantagem no Mundial.

Dois anos antes, no mesmo asfalto, ele destruiu um carro da Mercedes na segunda volta lançada da vida. A história entre Antonelli e Monza é bem mais estranha do que o resultado de domingo sugere, e é só uma das curiosidades de um piloto que já reescreveu meia dúzia de recordes antes de completar 21 anos.

1. O nome Kimi não é homenagem ao Räikkönen

É a confusão mais repetida sobre ele, e está errada. O nome completo é Andrea Kimi Antonelli: Andrea é o primeiro nome, Kimi é o segundo.

A escolha não teve nada a ver com o finlandês campeão de 2007. Os pais queriam um segundo nome que combinasse com o primeiro e com o sobrenome, mas que não fosse italiano. “Basicamente, meus pais queriam me dar um segundo nome que ficasse bem com o primeiro nome e o sobrenome, mas eles não queriam um segundo nome italiano. Queriam algo diferente”, contou o piloto.

Quem sugeriu “Kimi” foi um amigo da família, Enrico Bertaggia, ele próprio ex-piloto. Os pais gostaram na hora e ficou. Depois da primeira vitória, na China, Antonelli brincou publicamente com o mal-entendido.

2. A Mercedes o contratou aos 12 anos

O pai, Marco Antonelli, é ex-piloto de turismo e dono da equipe de kart AKM Motorsport. Antonelli cresceu dentro de um box.

A Mercedes começou a observá-lo muito antes de ele poder tirar carteira. Toto Wolff contou que a equipe passou a acompanhar o garoto quando ele tinha 9 ou 10 anos e já ganhava campeonatos de kart. Em 2019, aos 12 anos, Antonelli entrou oficialmente no programa de jovens pilotos da Mercedes. Ficou seis anos na fila antes de herdar o carro de Lewis Hamilton.

3. A primeira vez dele num carro de F1 em pista de GP foi em Monza, e terminou na barreira

Aqui está a curiosidade que dá o contexto de domingo. O primeiro treino livre de Antonelli na Fórmula 1 foi o FP1 do GP da Itália de 2024, justamente em Monza.

Durou cerca de cinco voltas: duas de saída, uma de retorno e quase duas lançadas. Na segunda tentativa de volta rápida, ele freou por volta de 30 metros mais tarde do que na primeira, perdeu a traseira na entrada da Parabolica e bateu. O impacto foi de 45G, segundo a própria Mercedes.

A Mercedes W16 de Kimi Antonelli em ação no circuito de Monza em 2025
Antonelli guia a Mercedes W16 em Monza, um ano depois da batida na Parabolica. Foto: Eustace Bagge, CC BY 4.0, via Wikimedia Commons.

Wolff não se abalou. “Ele sentiu tanta confiança, o carro estava bom, e eu acho que ele simplesmente se queimou”, disse o chefe da equipe na época, acrescentando que “um FP1 que deu errado não é motivo para você decidir a favor ou contra um piloto”. Semanas depois, a Mercedes o anunciou como titular para 2025.

Dois anos depois, na mesma pista, ele largou 19º e ganhou. No mesmo fim de semana, o companheiro de garagem que ele herdou também virou notícia: Hamilton chegou a Monza numa Ferrari F40 com o 44 gravado no motor.

4. Ele pulou a Fórmula 3

A escada tradicional do automobilismo é F4, F3, F2 e F1. Antonelli cortou um degrau inteiro.

Depois de dominar a Fórmula 4 em 2022, quando foi campeão italiano com 13 vitórias e campeão alemão da ADAC com outras 11 no mesmo ano, ele foi para a Fórmula Regional em 2023 e ganhou os dois títulos que disputou: o europeu (ainda como estreante) e o do Oriente Médio.

O carro de Fórmula 4 de Kimi Antonelli na etapa de Spielberg da F4 italiana em 2022
O Tatuus de Antonelli na F4 italiana de 2022, ano em que ele foi campeão em dois países. Foto: Lukas Raich, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.

Em 2024 saiu direto da Fórmula Regional para a Fórmula 2, sem passar pela F3, na Prema, ao lado de Oliver Bearman. Terminou em 6º com duas vitórias. No ano seguinte estava na Mercedes.

O carro da Prema de Kimi Antonelli na Fórmula 2 em Spa-Francorchamps em 2024
Antonelli na Fórmula 2 pela Prema em Spa, 2024: ele saiu da Fórmula Regional direto para a F2. Foto: Joachim Hofmann, CC BY-SA 2.0, via Wikimedia Commons.

5. Estreou como terceiro piloto mais jovem da história

Antonelli fez a primeira corrida no GP da Austrália de 2025, com 18 anos e 203 dias. Só dois pilotos estrearam mais novos na história da Fórmula 1.

Ele pontuou nos três primeiros Grandes Prêmios da carreira e virou apenas o terceiro piloto a conseguir isso desde 1965. No Canadá, chegou ao primeiro pódio e virou o terceiro mais jovem a subir num pódio de F1.

6. Foi o estreante que mais pontuou na história da F1

A temporada de estreia terminou com 150 pontos e o sétimo lugar no Mundial, além de quatro pódios: um terceiro lugar e três segundos.

Nenhum piloto tinha somado tanto no primeiro ano. O número tem uma ressalva honesta: a pontuação da F1 mudou várias vezes ao longo das décadas, e comparar estreante de 2025 com estreante de 1985 é comparar sistemas diferentes. Ainda assim, é o recorde como o esporte o contabiliza hoje.

7. A lista de recordes de “mais jovem” já é grande

Em pouco mais de um ano e meio de F1, Antonelli acumulou:

  • Mais jovem a liderar uma volta e mais jovem a fazer a volta mais rápida, os dois no GP do Japão de 2025.
  • Mais jovem a conquistar uma pole de qualquer tipo, na classificação da sprint de Miami, em 2025, quebrando uma marca de Sebastian Vettel.
  • Mais jovem a conquistar a pole de um Grande Prêmio, na China, em 2026, tirando quase dois anos do recorde anterior, de Vettel.
  • Mais jovem líder do Mundial da história, depois do GP do Japão de 2026.
  • Mais jovem a fazer um grand chelem, em Mônaco, em 2026.

O grand chelem é a rodada perfeita: pole, vitória, volta mais rápida e liderança em todas as voltas da corrida. Antonelli fez isso em Mônaco com 19 anos, 9 meses e 13 dias, quebrando o recorde de Max Verstappen por pouco menos de quatro anos. Naquele domingo ele bateu Verstappen na classificação por 0s043 e liderou de ponta a ponta.

Ao longo do ano, a coleção só cresceu: em julho ele venceu em Spa e disparou na liderança, e a comparação com a cabeça de um jovem Senna já rendeu análise própria por aqui.

8. A primeira vitória dele encerrou 20 anos de jejum italiano

Quando Antonelli ganhou o GP da China, em março de 2026, a Itália não tinha um vencedor de Grande Prêmio havia duas décadas.

O último italiano a ganhar uma corrida de F1 tinha sido Giancarlo Fisichella, no GP da Malásia de 2006, pela Renault. Entre uma coisa e outra, o país que sedia a Ferrari passou vinte temporadas sem ver um compatriota no lugar mais alto.

9. Monza esperava por um italiano desde 1966

O jejum de Monza era ainda mais longo. O último italiano a vencer o Grande Prêmio da Itália na própria casa foi Ludovico Scarfiotti, pela Ferrari, em 1966. São 60 anos.

Vale separar as duas contas, porque a imprensa costuma misturá-las: o jejum italiano de vitórias em qualquer GP acabou na China, em março. O jejum de italianos vencendo em Monza acabou domingo.

E acabou de um jeito que praticamente não tem precedente. Antonelli largou 19º depois de a Mercedes trocar a unidade de potência inteira do carro, a quinta da temporada, o que gera punição automática. Na história da Fórmula 1, só John Watson venceu partindo de mais longe: 22º, em Long Beach, em 1983.

10. O recorde que ainda falta é o maior de todos

Antonelli lidera o Mundial de 2026 com 66 pontos de vantagem sobre Russell, em uma temporada que já soma sete vitórias, seis poles, dez voltas mais rápidas e catorze pódios.

Se confirmar o título, ele quebra o recorde mais simbólico da lista: o de piloto mais jovem campeão do mundo, que pertence a Sebastian Vettel desde 2010, quando o alemão levou o título em Abu Dhabi com 23 anos e 134 dias. Antonelli completa 21 anos em agosto de 2027. A margem é confortável.

Faltam corridas, e a Fórmula 1 já viu vantagem maior do que essa evaporar. Quem quiser acompanhar o resto da temporada tem os horários e as transmissões em onde assistir à F1 2026. Mas a conta está aberta.

O que isso ensina sobre alta performance

A parte mais útil dessa lista não é nenhum dos recordes. É o item 3.

O primeiro contato de Antonelli com um carro de Fórmula 1 em fim de semana de Grande Prêmio durou cinco voltas e acabou com o carro destruído a 45G, na frente da imprensa italiana inteira, na pista de casa. Era o pior cenário possível para um piloto que tinha completado 18 anos cinco dias antes e estava sendo avaliado para uma vaga na Mercedes.

Duas coisas aconteceram depois. A primeira é que ele assumiu o erro sem terceirizar: disse que forçou demais para as condições e que deveria ter construído a volta de forma mais progressiva. Não culpou o carro, o pneu nem a pista. A segunda é que a equipe separou o evento da avaliação. Wolff foi explícito: um treino que deu errado não decide a favor ou contra um piloto.

É a diferença entre tratar a derrota como evento e tratá-la como identidade. O erro na Parabolica não virou o rótulo do Antonelli, nem para ele nem para quem decidia a carreira dele. Virou dado: uma referência de frenagem que estava 30 metros longe demais.

Dois anos depois, na mesma curva, no mesmo circuito, ele tinha 53 voltas para ultrapassar dezoito carros. O que mudou não foi o talento, que já estava lá em 2024. Foi o processo em cima do talento.

Talento não é destino. Processo é.

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Foto de Diogo Moraes
Diogo Moraes

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