Placar

ARTIGOS E NOTÍCIAS ATLETA PRO

Amyr Klink: os 100 dias a remo pelo Atlântico que viraram filme

Filipe Bragança como Amyr Klink, de pé no barco a remo IAT, em cena do filme 100 Dias

Em 10 de junho de 1984, um paulistano de 28 anos soltou as amarras de um barco de 5,94 metros no porto de Lüderitz, na Namíbia, e apontou a proa para o Brasil. Não havia motor, vela nem GPS. Havia um sextante, 150 embalagens de comida desidratada e quase 7 mil quilômetros de Atlântico Sul pela frente.

Cem dias depois, em 18 de setembro, Amyr Klink encostou o IAT na Praia da Espera, em Itacimirim, no litoral norte da Bahia, e se tornou a primeira pessoa a atravessar o Atlântico Sul a remo. Quarenta e dois anos depois, a travessia chega ao cinema: 100 Dias, de Carlos Saldanha, começa a ser exibido nesta quinta-feira (24) em sessões antecipadas em Salvador e estreia em todo o país em 29 de outubro.

Um barco desenhado para virar e desvirar

A ideia nasceu de uma obsessão por eficiência. “Eu me apaixonei pela ideia de fazer uma travessia usando o mínimo de energia, sem propulsão mecânica, apenas a força dos braços”, contou Amyr ao Diário de Pernambuco em 2014, nos 30 anos da viagem.

O IAT tinha 5,94 metros de comprimento e 1,52 metro de largura. Era feito de madeira laminada, unida com resina epóxi e vedada com borracha de geladeira. O desenho funcionava como um joão-bobo: a cabine fechava hermeticamente e, se uma onda virasse o casco, ele voltava sozinho à posição original.

A comida levou quase um ano para ser planejada: arroz, feijão, tutu, vatapá e bobó, tudo desidratado e sem sal, para ser preparado com água do mar. O histórico da rota não animava. Segundo o Jornal do Commercio, a travessia já tinha sido tentada três vezes, e as três terminaram em fracasso. Em duas delas, os remadores nunca foram encontrados.

Antes do oceano, veio a papelada. “Tempestades e tubarões são mais fáceis de lidar do que a imensa burocracia no Brasil e na África”, resumiu Amyr.

Baía de Lüderitz, na Namíbia, ponto de partida da travessia de Amyr Klink a remo em 1984
Lüderitz, na Namíbia: o ponto de partida da travessia de 1984. Foto: Johan Jönsson (CC BY-SA 4.0)

A Costa dos Esqueletos e o risco de parar no Caribe

A primeira barreira estava logo na saída: vencer a Costa dos Esqueletos, trecho do litoral da Namíbia batizado assim pelas ossadas de baleias e pelos cascos de navios encalhados ao longo da areia.

Remar em linha reta estava fora de questão. “Se eu tentasse vir reto, da Namíbia para o Rio de Janeiro, por exemplo, eu nunca chegaria ao Brasil”, explicou Amyr. O plano era aproveitar os ventos e as correntes do Atlântico Sul, que empurram para noroeste, e corrigir o rumo no braço. Um erro mínimo nas contas do sextante e, em vez da Bahia, o barco poderia terminar no Caribe.

A certeza de que chegaria veio em 2 de setembro, na latitude de Pernambuco, ainda a muitas milhas da costa. Dezesseis dias depois, ele pisou na Praia da Espera. Em terra, a travessia já era notícia. Jornalistas chegaram a fretar um avião para procurá-lo em alto-mar. “Alugaram um avião, saíram para o alto-mar para tentar me encontrar e não encontraram, mas acharam uma baleia”, lembrou Amyr ao jornal A Tarde.

Até dez horas de remo por dia e o pânico do segundo dia

O motor do IAT era o corpo de Amyr. Ele remava até dez horas por dia, calculava a posição com o sextante e alimentava o equipamento de radioamador com painéis solares. O resto ficava por conta do vento e da corrente.

O adversário mais perigoso, segundo ele, não era físico. “Grande parte das pessoas morre de pânico no segundo dia”, disse em 2014. A frase resume o tipo de preparo que a travessia exigiu: o casco resolvia as ondas, a comida resolvia a energia, e o resto dependia de manter a cabeça funcionando sozinho, dia após dia, sem ver terra.

Barco a remo IAT no mar ao pôr do sol em cena do filme 100 Dias, sobre a travessia de Amyr Klink
O IAT ao pôr do sol em cena de 100 Dias. Foto: divulgação

O pai soube da viagem no meio do Atlântico

Amyr não contou a travessia ao pai, Jamil Klink, imigrante libanês que o filme retrata como um homem duro e exigente. “Ele não soube da viagem. Soube quando eu já estava no meio do Atlântico. Ficou possesso de raiva”, contou à Folha de S.Paulo em maio deste ano.

Recorde também não era a meta. “Não era meu objetivo. Não era entrar no Guinness”, disse ao A Tarde. Mesmo assim, a travessia virou o livro Cem Dias Entre Céu e Mar, lançado em 1985, que passou 31 semanas na lista dos mais vendidos de não ficção e superou 300 mil exemplares vendidos no Brasil.

Depois vieram o ano sozinho na Antártica a bordo do veleiro Paratii, sete meses dele preso no gelo, e as voltas ao mundo com o Paratii e o Paratii 2. Mas é o barco a remo de 1984 que segue como a assinatura do navegador.

Retrato do navegador Amyr Klink em 2012, na Universidade de Brasília
Amyr Klink em 2012. Foto: Universidade de Brasília (CC BY 2.0)

100 Dias: Carlos Saldanha troca a animação pelo mar

O filme é o primeiro longa em live-action de Carlos Saldanha, diretor de A Era do Gelo e Rio. Produzido pela Ventre Studio e distribuído pela Buena Vista International, divisão da Disney, 100 Dias tem roteiro de Elena Soarez e Thais Tavares a partir do livro de Amyr.

Filipe Bragança vive o navegador. Para o papel, o ator perdeu 12 quilos, teve aulas de remo e passou por um período de isolamento. A francesa Philippine Leroy-Beaulieu, de Emily em Paris, interpreta a mãe, Asa Klink. Felipe Camargo faz o pai, Jamil, e João Vitor Silva, o irmão Tymur. A relação com a família, pouco presente no livro, ganhou espaço no roteiro a partir de conversas de Saldanha com amigos e parentes do navegador.

O mar de verdade apareceu pouco nas filmagens. A equipe gravou só uma semana em alto-mar. O resto foi rodado num tanque com máquinas de ondas e de vento montado em São Paulo, e as baleias, os tubarões e os golfinhos foram criados digitalmente, com efeitos visuais e pós-produção feitos na Finlândia. “Quando filmava com o Filipe lá, na máquina de ondas, era tudo azul em volta”, contou Saldanha ao Terra. “Eu tinha que imaginar as baleias, os golfinhos, o oceano, o céu, as nuvens e tudo”, completou o ator.

Amyr acompanhou o processo e aprovou o resultado. “É um livro difícil de ser transformado no cinema, mas acho que foi exatamente a dificuldade que fez com que o filme fosse muito feliz”, disse. Sobre a atriz francesa, o elogio foi mais pessoal: “Ela tem o mesmo sotaque que minha mãe tinha”.

O longa chegou à lista final de seis filmes na disputa pela vaga brasileira no Oscar 2027 de filme internacional. Em 16 de setembro, a Academia Brasileira de Cinema escolheu Feito Pipa, de Allan Deberton.

Filipe Bragança rema o barco IAT em alto-mar em cena do filme 100 Dias, de Carlos Saldanha
Filipe Bragança no IAT, em 100 Dias. Foto: divulgação

Quando e onde assistir

  • Sessões antecipadas: de 24 a 30 de setembro, sempre às 19h30, no Cine Glauber Rocha, no Centro Histórico de Salvador.
  • Festival do Rio: gala de encerramento em 10 de outubro, no Cine Odeon, no Rio de Janeiro.
  • Estreia nacional: 29 de outubro, nos cinemas.

42 anos depois, alguém refez a rota

O filme chega um mês depois de a rota de 1984 ser refeita. Em 22 de agosto, Raphael Garcia, de 34 anos, atracou na Bahia Marina, em Salvador, depois de 136 dias sozinho no Atlântico Sul. Ele saiu de Lüderitz em 8 de abril, a bordo do Sater, barco de 5,85 metros que construiu na Nova Zelândia, onde mora, e que batizou em homenagem ao cantor Almir Sater. Segundo o próprio Amyr, Garcia é a primeira pessoa a refazer o trajeto sozinha.

Engenheiro eletrônico formado pela Poli-USP, Garcia nunca tinha remado antes do projeto. A inspiração veio do livro, e o contato com o autor rendeu ajustes no barco. Por conselho de Amyr, ele instalou bordas falsas de madeira no convés. “Ainda bem que eu conversei com o Amyr porque ia ser impossível andar pelo barco se não tivesse essa madeira”, contou à revista Náutica.

Na chegada, quem esperava no píer era o próprio Amyr. “É pegado, hein?!”, brincou Garcia. “Eu me perguntava: ‘Por que ele não fez mais viagens como essa?’. Agora eu sei a resposta.”

O que a travessia ensina sobre alta performance

O risco se resolve antes da largada. Amyr não contou com sorte para sobreviver a uma capotagem: desenhou um barco que desvirava sozinho. Não improvisou a comida: passou quase um ano montando a dieta. Em qualquer modalidade, a prova começa muito antes do tiro de largada, no que o atleta deixa resolvido quando ainda tem tempo.

Processo mais tempo é igual a resultado. Ninguém atravessa 7 mil quilômetros num dia inspirado. A travessia foi a soma de cem dias de remada, até dez horas por dia, com o rumo corrigido aos poucos. É a mesma lógica das provas de ultrarresistência, como o Ironman, que nasceu de uma discussão de bar no Havaí em 1978: o resultado é a soma das horas, não o pico de um dia.

A cabeça quebra antes do corpo. “Grande parte das pessoas morre de pânico no segundo dia” vale para o oceano e vale para a competição. Controle emocional sob pressão não é traço de personalidade, é capacidade que se treina, como mostra o guia de treinamento mental para atletas.

A história é de quem constrói. Amyr partiu sem o apoio do pai e sem mirar recorde nenhum. Voltou com a primeira travessia do Atlântico Sul a remo e, quatro décadas depois, recebeu no píer quem refez o caminho inspirado por ele. “História é uma coisa que não se herda. História, cada um constrói a sua”, disse à Folha.

Sua travessia também se constrói um dia de cada vez

Na Atleta Pro Academy, atletas de verdade trocam processo, mentalidade e carreira com quem compete no mais alto nível. Ninguém precisa remar sozinho.

Conhecer a Atleta Pro Academy

Foto de Diogo Moraes
Diogo Moraes

Compartilhe:

Facebook
Twitter
Pinterest
LinkedIn

Quer receber conteúdos como esse direto no seu e-mail?

Clique no botão abaixo e inscreva-se na Newsletter do Atleta.

Atleta Pro News

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos relacionados: