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Arsenal quebra jejum de 14 anos em Anfield e lidera a Premier League

Kai Havertz comemora o gol da vitória do Arsenal em Anfield

Fazia 14 anos que o Arsenal não sabia o que era vencer em Anfield. Neste domingo (1º), bastaram 16 minutos para o tabu começar a cair: Kai Havertz empurrou para a rede um cruzamento rasteiro de Declan Rice, e o time de Mikel Arteta segurou o 1 a 0 sobre o Liverpool até o apito final, pela nona rodada da Premier League.

O resultado vale mais do que a quebra do jejum. Com ele, o atual campeão inglês passou o Manchester City e voltou à liderança, agora com 24 pontos e três de vantagem. O Liverpool, que vinha de cinco vitórias seguidas, pressionou boa parte do jogo, mas parou no travessão, num pênalti não marcado e na própria pontaria.

Um erro na saída de bola e um gol para a história

O gol nasceu de um vacilo do dono da casa. Numa saída de tiro de meta, Alisson tentou um passe curto para o zagueiro Jérémy Jacquet, mas errou a força e a direção. Martin Ødegaard se antecipou, Bruno Guimarães acionou Noni Madueke pela direita, e Rice passou por fora para cruzar rasteiro, entre o goleiro e os defensores. Na segunda trave, Havertz só precisou completar.

Foi o 46º gol do alemão na Premier League, um a mais que Ilkay Gündogan. Com ele, Havertz se tornou o maior artilheiro alemão da história da competição. O dado tem um detalhe curioso: os dois gols dele contra o Liverpool pela liga abriram o placar em Anfield, o primeiro pelo Chelsea, em agosto de 2021, e este pelo Arsenal. Segundo o site oficial do clube londrino, ele é só o terceiro visitante a abrir o placar em Anfield por dois times diferentes na liga, depois de Brian Deane e Darren Anderton.

O gol também encerrou um jejum pessoal: de acordo com o Guardian, foi o primeiro de Havertz em dez partidas.

Kai Havertz, do Arsenal, disputa a bola com Virgil van Dijk, capitão do Liverpool, em Anfield
Havertz e Van Dijk em disputa em Anfield: o alemão virou o maior artilheiro do seu país na Premier League. Foto: Jon Super/AP

A pressão do Liverpool que nunca chegou ao gol

Atrás no placar, o Liverpool de Andoni Iraola reagiu com força. Os números da Opta mostram o tamanho do cerco: foram 28 toques na área do Arsenal só no primeiro tempo, o maior número já registrado por um adversário dos Gunners numa primeira etapa de Premier League desde 2008-09.

As chances apareceram. Aos 36 minutos, Alexander Isak girou e bateu rasteiro, para fora. Aos 39, Florian Wirtz cobrou falta da esquerda e acertou o travessão. Aos 43, Milos Kerkez cruzou na medida e Alexis Mac Allister, livre, cabeceou por cima, a menos de dez metros do gol. O próprio Iraola chamou o lance de “chance muito clara”.

Na estatística final da Sky Sports, o Liverpool teve 56,4% de posse e 33 cruzamentos, com só cinco certos. A contagem de finalizações no alvo varia entre as fontes. Pelo levantamento da Opta, nenhuma tentativa do time da casa exigiu defesa de David Raya, o que seria inédito em 442 jogos do Liverpool em Anfield pela liga desde 2003-04. O painel de estatísticas da Sky Sports, porém, registra uma finalização certa.

O problema não é de um jogo só. O Liverpool marcou apenas quatro gols em cinco partidas em casa nesta Premier League, a pior marca do clube nesse ponto de uma temporada da primeira divisão, igualada com 1913-14 e 2012-13.

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O pênalti que ninguém deu e o clima quente em Anfield

A maior reclamação do Liverpool veio aos 21 minutos. Isak se preparava para cabecear um cruzamento de Bradley Barcola na frente do gol quando teve a camisa puxada por Jurriën Timber. O árbitro Andy Madley não marcou, e o VAR, comandado por Stuart Attwell, não o chamou para revisar. Na Sky Sports, o ex-zagueiro Jamie Carragher cobrou que o árbitro de vídeo “fizesse o seu trabalho”.

Iraola foi direto na entrevista coletiva, segundo o site oficial do Liverpool. “O do Isak é um pênalti claro”, disse. “Provavelmente porque ele não se joga, não vai ao chão. Isso não deveria ser motivo para não marcar um pênalti.” O técnico também reclamou de um lance com Cody Gakpo, aos 29, mas admitiu que, ali, a bola talvez estivesse longe demais.

O jogo esquentou na reta final. Aos 79 minutos, depois de uma confusão, Madueke e Mac Allister ficaram testa com testa, e o argentino caiu segurando o rosto. O VAR descartou conduta violenta, e quem levou o amarelo foi Mac Allister. O Guardian avaliou que a expulsão de Madueke, que já tinha cartão, seria dura demais. No apito final, o capitão Virgil van Dijk aplaudiu o árbitro com ironia e também foi advertido.

O goleiro David Raya, do Arsenal, afasta a bola de soco ao lado de Kai Havertz durante pressão do Liverpool em Anfield
Raya afasta de soco em um dos muitos cruzamentos do Liverpool. O Arsenal manteve o sexto jogo sem sofrer gol em nove rodadas. Foto: Jon Super/AP

De Fleetwood à liderança em cinco dias

A vitória tem um peso extra pelo que aconteceu na terça-feira. Com um time misto, o Arsenal foi eliminado da Copa da Liga Inglesa pelo Fleetwood Town, da quarta divisão, nos pênaltis, por 5 a 3, depois de um empate por 1 a 1. Foi uma das maiores zebras da história do torneio. Em Anfield, Arteta voltou com todos os titulares, e a resposta veio no jogo mais difícil da temporada até aqui.

“Como treinador, a sensação é ainda melhor, porque fazia muito tempo. A gente precisava muito disso”, disse Arteta à Sky Sports. “Estamos extremamente orgulhosos, principalmente pelas condições em que chegamos depois da derrota para o Fleetwood. Tivemos que nos levantar. Essa era a missão, que não cumpríamos havia 14 anos.”

A última vitória do Arsenal em Anfield pela liga tinha sido um 2 a 0 em setembro de 2012, com o próprio Arteta no meio-campo. Desde então, foram 13 visitas pela Premier League sem vencer, com cinco empates e oito derrotas, seis delas já com o espanhol no banco. Contando todas as competições, eram 16 jogos seguidos sem vitória no estádio.

Declan Rice, autor da assistência, resumiu o espírito do time à agência AP. “Aquela linha defensiva, o jeito como a gente fica junto, essa união que temos, é invicta. É algo que eu nunca tinha visto.”

Como fica a tabela da Premier League

Com oito vitórias e uma derrota, o Arsenal soma 24 pontos em nove jogos. Segundo a Opta, nenhum time chegou a tanto a essa altura de uma Premier League desde o próprio Arsenal, em 2022-23. Foi também a 300ª vitória fora de casa do clube na história da competição, de acordo com o site oficial.

O Manchester City, que perdeu as duas últimas rodadas, para Aston Villa e Brighton, é o segundo, com 21. O Brighton, terceiro com 19, é o único time que venceu o Arsenal na Premier League nesta temporada. O Chelsea, que bateu o Manchester United no sábado, é o quarto, com 16.

O Liverpool ficou em quinto, com 15 pontos, já nove atrás do líder. Foi a segunda derrota do time sob o comando de Iraola, e a outra também foi em Anfield, para o City, em 11 de outubro. “Em alguns dias parece que estamos no topo, e em outros parece que não estamos nem perto”, disse o meia Dominik Szoboszlai à AP. “Leva tempo chegar ao topo.”

O Arsenal volta a campo na quarta-feira, contra o Slavia Praga, fora de casa, pela quarta rodada da Champions League. No sábado, recebe o Hull City pela Premier League, antes da pausa para a Data Fifa de novembro.

O que a vitória do Arsenal ensina sobre alta performance

A primeira lição é sobre recuperação mental. Em cinco dias, o mesmo grupo foi da eliminação para um time da quarta divisão à vitória no estádio mais difícil da Inglaterra. Equipes de elite não apagam a derrota: elas a usam como referência. Arteta falou em “se levantar”, e o time entrou em campo com a escalação mais forte e um plano claro.

A segunda é sobre eficiência. O Liverpool cruzou mais, ficou mais com a bola e, segundo a Opta, tocou 28 vezes na área adversária num só tempo. O Arsenal aproveitou a chance mais clara que teve. Volume sem precisão vira estatística, não resultado. Sob Arteta, o time ganhou 81,1% dos jogos de Premier League em que abriu o placar, segundo a Opta. Saber o que fazer depois do primeiro gol é treino, não sorte.

A terceira lição vale para qualquer atleta ou treinador que assume riscos: o erro sob pressão custa caro. A saída curta de Alisson é um recurso que o Liverpool treina e usa bem na maioria dos jogos. Em Anfield, um passe mal calibrado decidiu a partida. Ousadia exige execução precisa, sobretudo quando o adversário pressiona exatamente ali.

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