Luka Dončić já tinha feito 52, 41 e 37 pontos nos três jogos anteriores. Mesmo assim, a noite de domingo (1º) na Crypto.com Arena, em Los Angeles, conseguiu ser diferente. O esloveno terminou a vitória do Los Angeles Lakers sobre o Toronto Raptors por 131 a 125 com 45 pontos, 15 rebotes, 6 assistências, 5 roubos de bola e 8 bolas de três, uma linha estatística inédita na história da liga.
O mais curioso é que, na entrevista depois do jogo, o assunto principal não foi o ataque. Foi a defesa, justamente o ponto em que Dončić passou a carreira ouvindo críticas. Elogiado pelo técnico JJ Redick e pelo pivô Walker Kessler, ele resumiu tudo em uma palavra, entre risadas: “Finalmente”.
Uma combinação que a NBA nunca tinha visto
Segundo levantamento publicado pelo USA Today, Dončić se tornou o primeiro jogador da história da liga a somar pelo menos 45 pontos, 15 rebotes, 5 assistências, 5 roubos e 5 bolas de três na mesma partida. A súmula oficial da NBA mostra a eficiência por trás dos números: 12 acertos em 23 arremessos de quadra, 8 em 12 da linha de três e 13 em 13 nos lances livres, em 35 minutos.
Os 15 rebotes, todos defensivos, foram o recorde dele na temporada, de acordo com a Associated Press. As 8 bolas de três ficaram a uma do recorde da carreira. E, com ele em quadra, os Lakers foram 27 pontos melhores que o adversário, o maior saldo do jogo.
Há ainda um recorte que coloca a noite na galeria da franquia. A AP registrou que foi a segunda vez que Dončić passou de 40 pontos, 10 rebotes e 5 roubos com a camisa dos Lakers. Nenhum outro jogador do clube tinha alcançado essas três marcas num mesmo jogo desde a temporada 1982/83.

Um primeiro tempo histórico: 24 pontos e 5 roubos
A partida praticamente se decidiu na primeira metade. Dončić marcou 16 pontos no primeiro quarto, com quatro bolas de três, e os Lakers fecharam o período vencendo por 36 a 23. No intervalo, ele já tinha 24 pontos, 8 rebotes, 4 assistências e 5 roubos de bola, recorde da carreira dele em um único tempo, quatro deles ainda no primeiro quarto.
O USA Today aponta que nenhum jogador tinha somado 20 pontos, 5 rebotes, 5 bolas de três e 5 roubos em um só tempo desde 1997/98, quando a NBA passou a registrar as partidas lance a lance. O mesmo levantamento indica que nenhum armador na história da liga tinha combinado 5 roubos e 5 bolas de três numa metade de jogo.
Com os roubos acumulando tão cedo, Dončić chegou a ficar na rota de um quádruplo-duplo, lembrou o USA Today. Ele, porém, não voltou a roubar a bola no segundo tempo e terminou com o segundo duplo-duplo da temporada.
A defesa que virou o assunto da noite
Além dos 5 roubos e dos 15 rebotes defensivos, Dončić sofreu três faltas de ataque, o tipo de jogada em que o defensor se posiciona e aceita o choque para tirar a posse do rival. Foi esse detalhe que mais animou o vestiário, segundo o Los Angeles Times.
“Até a temporada passada, ou a anterior, acho que eu não tinha nem cinco faltas de ataque sofridas em seis ou sete anos”, contou o esloveno. “Isso deixa todo mundo empolgado. Vai aparecer nas estatísticas, mas não muito. Eu só queria melhorar nisso, e três num jogo não é nada mal.”
Questionado sobre a fama de defensor fraco, Dončić não fugiu do tema. “Obviamente, eu não sou o melhor defensor da NBA, mas acho que neste ano eu dei um passo à frente de verdade. As pessoas vão falar o que quiserem de mim, mas eu sei, e o meu time sabe, que estou melhor neste ano. E isso ajuda o time inteiro.” Quando perguntaram se preferia ganhar o prêmio de MVP ou o de melhor defensor do ano, ele parou, sorriu e respondeu: “Os dois”.
Kessler, especialista defensivo do elenco, endossou ao USA Today. “O Luka não recebe o crédito que merece pela defesa. Ele tem um QI muito alto em quadra, então o posicionamento dele, estar no lugar certo na hora certa, é muito bom, e isso apareceu hoje.” Redick destacou a contenção no um contra um e a comunicação, antes de resumir: “Quinze rebotes defensivos, simplesmente fenomenal”.
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De 26 pontos de vantagem a um final apertado
Os Lakers chegaram ao jogo pressionados. Na sexta-feira (30), tinham aberto 25 pontos sobre o Golden State Warriors e acabaram derrotados por 112 a 95, numa virada comandada por Stephen Curry. Contra Toronto, o roteiro parecia sob controle: a 90 segundos do fim do terceiro quarto, o placar marcava 102 a 76.
Os Raptors, que jogaram mais uma vez sem Kawhi Leonard, fora pela quarta partida seguida por causa de uma lesão no joelho, reagiram e chegaram a ficar a menos de dez pontos. Dončić e Austin Reaves responderam com uma sequência de 9 a 1 que recolocou os Lakers numa margem confortável.
Com 1min43 para o fim e vantagem de 16 pontos, Redick tirou os titulares. Foi aí que o jogo esquentou de novo: os reservas de Toronto marcaram 11 pontos em 40 segundos e reduziram a diferença para 125 a 120. Dončić, Reaves e Kessler precisaram voltar para administrar as últimas posses. O último quarto terminou 43 a 27 para os canadenses, mas o placar final foi 131 a 125. Nesses minutos finais, o novato Cameron Carr, escolha de primeira rodada dos Lakers, estreou na NBA depois de perder os seis primeiros jogos com uma lesão no músculo oblíquo.

Reaves terminou com 19 pontos. Kessler fez 16, com 6 acertos em 6 arremessos, além de 15 rebotes e 3 tocos, e Collin Sexton saiu do banco para marcar 14. Os Lakers acertaram 53,8% dos arremessos de quadra e 48,6% da linha de três. Pelo Toronto, Scottie Barnes fez 29 pontos, RJ Barrett somou 22 pontos e 10 rebotes e Jamison Battle anotou 20 saindo do banco. Com a vitória, os Lakers chegaram a 5 vitórias e 2 derrotas; os Raptors ficaram com 3 e 3.
Quatro jogos seguidos com 37 pontos ou mais
Dončić entrou em quadra como cestinha da NBA, com média de 36,2 pontos por jogo, segundo o Los Angeles Times. Saiu dela com a quarta partida seguida de pelo menos 37 pontos: 52 contra o Utah Jazz, 41 contra o Portland Trail Blazers, 37 contra os Warriors e agora 45 contra Toronto. A AP contabiliza 20 jogos de 40 pontos ou mais em 98 partidas de temporada regular pelos Lakers.
Redick tentou explicar o que é treinar esse volume de produção. “Parece uma supernova, mas também parece normal”, disse ao Los Angeles Times. “A gente vive numa nave espacial, andando na velocidade da luz o tempo todo quando ele está em quadra. Quando ele está num dia bom, é escolher o veneno, porque ele pode acertar qualquer arremesso. E quando você coloca dois marcadores na bola, todo mundo ao redor se beneficia.”
A sequência não dá descanso. Os Lakers recebem o Miami Heat nesta segunda-feira (2), no segundo jogo de duas noites seguidas, e a presença de Dončić ainda não estava confirmada na noite de domingo, segundo o USA Today. “Agora é descansar, banheira de gelo, massagem, descansar de novo e até amanhã”, disse ele à Spectrum SportsNet ainda na quadra. Os Raptors visitam o Los Angeles Clippers na mesma noite.
O que a noite de Dončić ensina sobre alta performance
O primeiro aprendizado está na eficiência. Dončić fez 45 pontos com apenas 23 arremessos de quadra porque escolheu bem os chutes e converteu todos os 13 lances livres que cavou. Produzir muito sem desperdiçar posses é o que separa um dia inspirado de um padrão sustentável.
O segundo está na defesa como hábito. Faltas de ataque sofridas, posicionamento e rebote defensivo dependem menos de explosão física e mais de leitura, disposição e repetição. O próprio jogador admitiu que quase não fazia isso nas primeiras temporadas. Melhorar o ponto fraco, aos olhos de todos e depois de anos de crítica, é uma decisão de treino, não de talento.
O terceiro está no que acontece depois do apito. Diante de um jogo no dia seguinte, a primeira preocupação de Dončić foi a recuperação: gelo, massagem e sono. Em qualquer modalidade, o desempenho da próxima sessão começa a ser construído no minuto em que a anterior termina.
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