Na terça-feira, 29 de setembro de 2026, a Aston Martin publicou um vídeo curto. Fernando Alonso aparece sentado numa sala escura, repassa a carreira e solta a frase que todo mundo esperava: “Vou me aposentar da Fórmula 1.” Faz uma pausa longa, dá um meio sorriso e completa: “Mas ainda não.” Era o anúncio da renovação do contrato para 2027.
O espanhol tem 45 anos. A última vitória dele na F1 foi em maio de 2013. Mesmo assim, nenhum piloto da história largou tantas vezes quanto ele: são 440 largadas, contando até o GP do Azerbaijão. Para entender por que alguém com dois títulos mundiais, 32 vitórias e mais de duas décadas de estrada continua no grid, é preciso voltar a Oviedo, no começo dos anos 1980, e a um kart que nem era para ele.
O kart que era da irmã
José Luis Alonso trabalhava como mecânico numa fábrica de explosivos nas Astúrias e era apaixonado por kart. A mãe, Ana Díaz, era vendedora numa loja de departamentos. José Luis construiu um kart com as próprias mãos para a filha mais velha, Lorena, que tinha 8 anos.
Lorena não se interessou. O irmão caçula, de 3 anos, sim. Foi preciso adaptar os pedais para que Fernando alcançasse. A história está registrada no site oficial do piloto, e o próprio kart, laranja e branco, hoje fica exposto no museu que ele mantém nas Astúrias, ao lado de carros que marcaram a F1.

“No começo era uma brincadeira, mas desde os cinco ou seis anos já dava para ver que ele tinha mais esperteza que os meninos da idade dele”, contou o pai, em depoimento reproduzido no site oficial. Dali vieram os títulos no kart espanhol, a Copa dos Cinco Continentes de 1996 e, em março de 2001, a estreia na F1 pela pequena Minardi, no GP da Austrália, aos 19 anos.
Interlagos, 2005: o campeão mais jovem da história até ali
A virada veio com a Renault. Em 25 de setembro de 2005, Alonso chegou a Interlagos precisando de um resultado simples para fechar a conta contra Kimi Räikkönen. Terminou em terceiro e virou campeão mundial com 24 anos e 58 dias, o mais jovem da história da categoria naquele momento. O recorde anterior era brasileiro: Emerson Fittipaldi, campeão em 1972.

O título também encerrou uma era. Michael Schumacher e a Ferrari tinham vencido os cinco campeonatos anteriores, de 2000 a 2004. Alonso foi o primeiro espanhol campeão da F1 e, um ano depois, repetiu a dose. Em 22 de outubro de 2006, de novo em Interlagos, um segundo lugar na corrida vencida por Felipe Massa garantiu o bicampeonato. Os dois títulos do espanhol foram decididos em solo brasileiro.
McLaren, Ferrari e três vice-campeonatos
O que veio depois explica boa parte da fama de Alonso: talento de sobra e carros quase bons o suficiente. Em 2007, na McLaren, dividiu a equipe com o estreante Lewis Hamilton numa temporada tensa. Os dois terminaram empatados com 109 pontos, um atrás do campeão Räikkönen.
Na Ferrari, entre 2010 e 2014, foram três vice-campeonatos. Em 2010 perdeu o título para Sebastian Vettel na última corrida, em Abu Dhabi. Em 2012, a diferença para o mesmo Vettel foi de apenas 3 pontos, decidida em Interlagos. Em 2013, foi vice outra vez.

Foi nesse período que veio a vitória que, 13 anos depois, ainda é a mais recente. Em 12 de maio de 2013, no GP da Espanha, em Barcelona, Alonso largou em quinto, venceu diante da torcida e chegou a 32 triunfos na F1. Ninguém imaginava que o número ficaria parado ali.
McLaren-Honda, o “motor de GP2” e a saída em 2018
Em 2015, Alonso voltou à McLaren para a parceria com a Honda. O projeto prometia títulos e entregou frustração. No GP do Japão daquele ano, na casa da montadora, o piloto foi ultrapassado na reta com facilidade e desabafou no rádio: “Motor de GP2! Motor de GP2!”. A frase, que ele depois disse que era para ser uma conversa privada com o engenheiro, virou símbolo da fase.

Em 14 de agosto de 2018, a McLaren anunciou que Alonso não correria mais na F1 a partir de 2019. “Depois de 17 anos maravilhosos neste esporte incrível, é hora de mudar e seguir em frente”, disse ele no comunicado. O diretor-executivo da equipe, Zak Brown, completou que respeitava a decisão, “mesmo acreditando que ele está na melhor forma da carreira”. Alonso deixava a categoria com dois títulos, 32 vitórias e 97 pódios.
Fora da F1: Le Mans, Daytona, Indy 500 e Dakar
Alonso não saiu para descansar. Saiu para correr atrás do que a F1 não estava mais dando: a chance real de vencer. O alvo declarado era a chamada Tríplice Coroa do automobilismo, que soma o GP de Mônaco (que ele já tinha vencido duas vezes), as 24 Horas de Le Mans e as 500 Milhas de Indianápolis.
Indy 500: a corrida que escapou
A primeira tentativa veio ainda como piloto da F1. Em 2017, Alonso pulou o GP de Mônaco para disputar a Indy 500 pela McLaren-Andretti. Chegou como estreante, liderou 27 voltas e estava na briga pela vitória quando o motor Honda quebrou na volta 179, a 21 do fim. Em 2019 veio o golpe mais duro: não conseguiu nem se classificar para a largada. Voltou em 2020, mas a Indy segue como a peça que falta.

Le Mans: duas vitórias e um título mundial
No endurance, a história foi outra. Pela Toyota, dividindo o carro número 8 com Sébastien Buemi e Kazuki Nakajima, Alonso venceu as 24 Horas de Le Mans em 2018 e repetiu a vitória em 2019. A temporada 2018/2019 do Mundial de Endurance (WEC) foi uma “supertemporada” com duas edições de Le Mans, e o trio ganhou as duas, fechando o campeonato com o título mundial de pilotos.

Daytona: a chuva, Felipe Nasr e a vitória
Em janeiro de 2019, Alonso também venceu as 24 Horas de Daytona, nos Estados Unidos, com a equipe Wayne Taylor Racing, ao lado de Jordan Taylor, Renger van der Zande e Kamui Kobayashi. A prova foi encerrada pela chuva a dez minutos do fim. Duas voltas antes da bandeira vermelha, Felipe Nasr, que liderava, escapou na curva 1 e o espanhol assumiu a ponta. Com isso, Alonso virou apenas o terceiro campeão da F1 a vencer em Daytona, depois de Phil Hill e Mario Andretti.
Dakar: de rookie a 13º no deserto
Em 2020, foi a vez do Rally Dakar, na Arábia Saudita, com um Toyota Hilux e o navegador Marc Coma, cinco vezes campeão da prova nas motos. Alonso perdeu mais de duas horas logo na segunda etapa, chegou a subir para o décimo lugar e capotou na etapa 10. Terminou em 13º no geral, foi o melhor estreante entre os carros e cravou o segundo melhor tempo da etapa 8.
A volta: 105 corridas até o pódio
Em 2021, aos 39 anos, Alonso voltou à F1 pela Alpine, a antiga Renault com quem tinha sido bicampeão. A recompensa demorou. No GP do Catar daquele ano, terminou em terceiro e subiu ao pódio pela primeira vez desde o GP da Hungria de 2014. Entre um pódio e outro, passaram-se 105 corridas, o maior intervalo da história da categoria.

Em 2023, já na Aston Martin, veio a melhor fase desde os tempos de Ferrari. Aos 41 anos, Alonso foi ao pódio oito vezes, seis delas nas oito primeiras corridas, e terminou o Mundial em quarto. Só os dois pilotos da Red Bull, Max Verstappen e Sergio Pérez, subiram ao pódio mais vezes naquele ano. A vitória número 33 chegou perto, mas não veio.
Aston Martin, Honda e o “ainda não”
A temporada de 2026 trouxe uma ironia. Com o novo regulamento, a Aston Martin passou a usar motores Honda, a mesma fornecedora do desabafo de Suzuka. O começo foi difícil, com o carro longe da frente do grid, e por meses se especulou que este seria o último ano do espanhol.
A resposta veio no vídeo de 29 de setembro. “A F1 foi ótima comigo. Tive uma carreira incrível, viajei pelo mundo, corri por mais de 23 anos, mais de 400 Grandes Prêmios, e conquistei mais do que um dia sonhei”, disse. E explicou por que fica: “Ainda me sinto rápido, motivado e com uma paixão enorme pela Fórmula 1 e pelo esporte. Estou muito feliz por continuar correndo na categoria mais alta. É a minha vida.”

Os números ajudam a dimensionar a carreira. Até o GP do Azerbaijão de 2026, Alonso soma 440 largadas (recorde absoluto da F1), 32 vitórias, 106 pódios e 22 pole positions. Fora dela, tem duas vitórias em Le Mans, um título mundial de endurance e uma vitória em Daytona. A carreira dele como marca pessoal, aliás, já foi tema de outra reportagem do Atleta Pro, e o salário dele aparece no ranking dos pilotos mais bem pagos da F1.
O que a carreira de Alonso ensina sobre alta performance
A primeira lição está na conta mais simples. Alonso não vence uma corrida de F1 desde 2013 e, nesse tempo, largou mais de 200 vezes. Quem compete só pelo troféu costuma parar quando ele some. Ele continuou, e foi justamente nesse período sem vitórias que conquistou Le Mans duas vezes, um título mundial de endurance e o pódio mais improvável da carreira, aos 41 anos.
A segunda lição está na saída de 2018. Alonso não parou de competir quando a F1 deixou de oferecer chance de vitória: mudou de ambiente. Foi aprender carro de endurance, oval americano e rali no deserto, como estreante, com tudo o que isso tem de desconforto. Voltou mais completo do que saiu.
A terceira é sobre o motivo. No anúncio da renovação, ele não falou de recorde nem de troféu. Falou de se sentir rápido, motivado e de gostar do que faz. Pico qualquer atleta tem por uma temporada. O que sustenta mais de duas décadas no topo é gostar do processo, inclusive nos anos em que o resultado não vem.
Quem quiser acompanhar o Alonso nas corridas que faltam em 2026 encontra horários e canais no guia de onde assistir à F1 2026.
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Perguntas frequentes sobre Fernando Alonso
Quantos títulos mundiais Fernando Alonso tem na F1?
Dois. Alonso foi campeão em 2005 e 2006 pela Renault, e os dois títulos foram decididos no GP do Brasil, em Interlagos.
Quando foi a última vitória de Alonso na Fórmula 1?
Em 12 de maio de 2013, no GP da Espanha, em Barcelona, pela Ferrari. Foi a 32ª vitória da carreira dele na F1.
Quantos GPs Fernando Alonso já disputou?
Até o GP do Azerbaijão de 2026, Alonso soma 440 largadas na F1, recorde absoluto da categoria.
Alonso vai continuar na F1 em 2027?
Sim. Em 29 de setembro de 2026, a Aston Martin confirmou Alonso e Lance Stroll como dupla da equipe para a temporada 2027.
Quais corridas Alonso venceu fora da Fórmula 1?
Alonso venceu as 24 Horas de Le Mans em 2018 e 2019, foi campeão mundial de endurance (WEC) na temporada 2018/2019 e venceu as 24 Horas de Daytona em 2019.







