Em agosto, no estúdio do No Topo Podcast, Igor Selau contou como saiu de duas camisetas por ano para marcas internacionais e defendeu uma tese que costuma incomodar quem só olha a tabela de resultados: patrocínio não depende só de pódio. “Não é só o resultado que manda nessa parte”, disse o piloto de downhill de Veranópolis (RS), membro da Atleta Pro Academy.
Os três meses seguintes viraram um teste da própria frase. Na pista, 2026 está sendo um ano de luta, palavra dele: 23º no Campeonato Brasileiro, 7º e 8º nas duas últimas etapas do Campeonato Gaúcho. Fora dela, a Maxxis entrou na camisa, a 100% colocou o rosto dele numa campanha e o calendário ainda reservou uma vitória, em Porto Alegre.
Uma temporada de luta na pista
Selau voltou de uma cirurgia no braço para disputar o Campeonato Brasileiro de Downhill no fim de julho, em Paraíba do Sul (RJ). O médico tinha estimado seis meses de recuperação. Ele voltou em menos de dois, terminou em 23º na elite e publicou, no dia seguinte, um balanço sem maquiagem.
“Honesto em dizer que dei o meu máximo e consegui fazer uma descida boa, mas pra brigar pela ponta dessa vez não foi possível.”
O Campeonato Gaúcho, em que ele fechou 2025 em quarto lugar na classificação geral da elite, retomou o calendário em setembro com a segunda etapa, em Três Coroas. A pista virou barro do primeiro treino à final. No sábado, 12, Selau marcou o quarto tempo da qualify da elite. No domingo, terminou em sétimo.
Em outubro, na terceira etapa, em Carlos Barbosa, a chuva voltou e o resultado foi um oitavo lugar. O post daquele dia resume o tom do ano.
“Dias de luta, dias de glória. Esse ano estamos lutando bastante, mas fé que momentos melhores virão.”

A vitória veio na prova de um patrocinador
Entre o Brasileiro e o Gaúcho, Selau correu o Desafio de Downhill CT Bike Shop, em Porto Alegre, nos dias 15 e 16 de agosto. E venceu.
“Grande final de semana na capital gaúcha. Pista extremamente legal e divertida de andar, com uma condição perfeita pós chuva.”
O desafio leva o nome da CT Bike Shop, loja que está no uniforme dele desde antes do episódio do podcast. É o tipo de resultado que não mexe no ranking nacional, mas que a marca acompanha de perto: o piloto que ela patrocina no lugar mais alto do pódio, na prova que leva o nome dela. Uma semana depois, a descida oficial e os bastidores do fim de semana estavam no canal dele no YouTube, num vídeo de 12 minutos.
A Maxxis entra na camisa
No dia 22 de agosto, um post curto anunciou a novidade.
“Obrigado @maxxisbikebr pelo apoio e feliz demais em seguir utilizando esses pneus que tanto gosto!”
A partir dali, a Maxxis, fabricante taiwanesa de pneus, passou a aparecer na lista de marcas que Selau marca ao fim de cada post de treino e de prova. Os termos do acordo não foram divulgados.
O peso da novidade fica mais claro quando se volta ao episódio de agosto. Ali, ele contou que um pneu de downhill custa cerca de R$ 700 e que, na fase em que decidiu levar o esporte a sério, trocava quase todo mês. Pneu é o item que mais se gasta numa temporada de downhill, e agora ele tem uma marca do setor ao lado.
O caminho também repete um padrão que o próprio piloto descreveu no podcast. Selau usou os produtos da 100% muito antes de representar a marca, e recusou outras propostas porque queria aquela. Com a Maxxis, a legenda diz a mesma coisa em duas palavras: “seguir utilizando”. O apoio chegou para um produto que já estava na bike.
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De patrocinado a rosto de campanha
Em 21 de outubro, o perfil de Selau e o da 100% Brasil publicaram juntos, em collab, as fotos da Linha 100% Casual, a coleção de roupas do dia a dia da marca. O piloto é o modelo.
“Estilo com identidade. Linha 100% Casual. Design e personalidade para todos os dias.”
A diferença para o patrocínio de prova é de natureza. Logo na camisa vende exposição durante a corrida. Campanha de produto que não tem nada a ver com competição vende a imagem do atleta, e indica que a marca enxerga nele um rosto, e não só um espaço de mídia. No podcast, Selau tinha resumido o que o atleta tem para oferecer: “o poder de influência dele e o espaço publicitário nos canais dele”. O portal destrinchou essa lógica em o que as marcas realmente procuram em um atleta patrocinado.
Agosto também teve a Shimano Fest, em São Paulo, a feira em que o mercado de bike se encontra todo ano. Selau aproveitou a viagem para gravar conteúdo para mais de um patrocinador: um review da sapatilha Sidi Atomus e da linha da 100%, e uma visita à Session Brasil, mostrando os produtos que usa para limpar a bike.
“É sempre bom estar presente, podendo rever patrocinadores e amigos que normalmente a gente só encontra na feira.”
Em Porto Alegre, levou o público numa visita ao mecânico dele, da Kamikaze Bikes, e às pistas da cidade. O vídeo passou de 31 mil reproduções.

Dez marcas e uma rotina de entrega
Desde a entrada da Maxxis, são dez marcas fixas no perfil de Selau, cada uma com destaque próprio nos stories e marcação em praticamente todo post de treino e de prova, sempre na mesma ordem. Fecha a lista o treinador responsável pela preparação física.
| Marca | Segmento |
|---|---|
| Bergesen do Brasil | agência marítima (patrocinador master) |
| CT Bike Shop | loja de bicicletas |
| Jam Bike | vestuário de ciclismo |
| Maxxis | pneus |
| 100% | vestuário, óculos e proteção |
| Sidi | sapatilhas |
| Session Brasil | limpeza e manutenção de bike |
| Kamikaze Bikes | oficina mecânica |
| BP Nutrition | suplementos para ciclismo |
| Rapadura da Serra | alimentação |
A rotina que sustenta essa lista aparece nos números. Entre o fim de julho e o fim de outubro, foram mais de 30 publicações no Instagram, onde ele tem 27,3 mil seguidores. O vídeo mais visto do período, o primeiro dia de treino em Três Coroas, passou de 54 mil reproduções. O segundo, com 50 mil, é uma brincadeira sobre os aros que sobreviveram à lama, e marca justamente Session Brasil e CT Bike Shop. O patrocinador aparece no conteúdo que mais circula, não só no que fala dele.
No YouTube, onde tem 14,1 mil inscritos, cada etapa do Gaúcho virou um vlog completo, de 13 a 17 minutos, com treino, box, chuva e descida. É a continuação do documentário da temporada 2025, “O ano que mudou tudo”. E o site oficial, igorselau.com.br, tem uma página só para quem quer patrocinar, além da Coleção Selau, feita em parceria com a Jam Bike. Os caminhos para montar essa estrutura estão no guia de como conseguir patrocínio esportivo e no de contrapartidas de patrocínio.

O que isso ensina sobre alta performance
Sétimo, oitavo, vigésimo terceiro. A temporada de pista de Selau em 2026 não é a que ele queria, e ele não esconde isso em nenhum post. O que não oscilou foi a entrega: vitória na prova de um patrocinador, conteúdo toda semana, presença na feira do setor, vídeo longo de cada etapa e marca citada em cada publicação.
É a tese que ele levou ao podcast em agosto, agora com três meses de prova. Resultado abre porta, mas é a relação construída com a marca que segura o patrocínio quando o resultado não vem. A Maxxis chegou menos de um mês depois do 23º lugar no Brasileiro. A campanha da 100% saiu nove dias depois de um oitavo lugar.
Na Atleta Pro Academy, isso tem nome: o atleta é uma empresa. Renda, patrocínio e imagem são trabalho feito todo dia, e não quando o resultado ajuda. Derrota é evento, não identidade.
Selau ainda tem pela frente a etapa final do Gaúcho. Depois de Três Coroas, escreveu que estava animado com as próximas duas. Uma já foi. A outra, ele vai correr com dez marcas na camisa.
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Na Atleta Pro Academy, atletas como Igor Selau aprendem a montar projeto, media kit e relação de longo prazo com as marcas.







