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Natália Silva tenta no UFC 332 o cinturão que nenhuma brasileira teve

Natália Silva ergue o braço e olha para o público no octógono do UFC 315, em maio de 2025

Natália Silva sobe no octógono do Delta Center, em Salt Lake City, neste sábado (3), para disputar o cinturão peso-mosca feminino do UFC, que está vago. A adversária na luta principal do UFC 332 é a chinesa Wang Cong. Se vencer, a mineira de 29 anos vira a primeira brasileira campeã da categoria até 57 kg.

É a única divisão feminina do UFC que nunca teve dona brasileira. Três lutadoras do país já tentaram e perderam para Valentina Shevchenko: Jennifer Maia, Jéssica Andrade e Taila Santos. Natália chega à disputa como número 1 do ranking, com oito vitórias em oito lutas na organização e 14 triunfos seguidos na carreira.

Por que o cinturão está vago

A luta de sábado não era para ser essa. Natália seria a desafiante de Shevchenko, dona do cinturão, mas a quirguiz se lesionou e abriu mão do título. O anúncio saiu em 5 de setembro, com previsão de até um ano longe do octógono, segundo a ESPN. O UFC colocou Wang Cong no lugar, e as duas disputam o cinturão vago.

Shevchenko construiu a divisão. Venceu Joanna Jedrzejczyk em dezembro de 2018, fez sete defesas seguidas, perdeu para Alexa Grasso em 2023, empatou a revanche e recuperou o título na trilogia. A defesa mais recente foi contra Zhang Weili, em novembro de 2025.

A troca mexeu com o campo de treino da brasileira. “A gente vinha se preparando para a Valentina havia meses, fazendo um estudo técnico completo da campeã”, disse o treinador Carlos Costa ao site Sherdog. “Quando o UFC avisou que ela estava fora, e isso aconteceu meio em cima da hora, mudamos completamente o foco do treinamento.”

De Pingo-d’Água ao número 1 do ranking

Natália nasceu em 3 de fevereiro de 1997 em Pingo-d’Água, cidade do interior de Minas Gerais com menos de cinco mil habitantes. Começou no taekwondo aos 16 anos, num projeto social, e fez a primeira luta de MMA aos 18. Para treinar a sério, mudou-se para Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte, onde está até hoje na Team Borracha, academia ligada ao lutador Paulo Borrachinha. Em entrevista à Band, contou que chegou a dormir numa maca de fisioterapia no começo.

O início foi duro. Em 2015, no primeiro ano como profissional, ela somou três derrotas e uma vitória, segundo o histórico da ESPN. A última derrota da carreira veio em dezembro de 2017, por decisão, para Marina Rodriguez, que depois também chegaria ao UFC. Desde então, foram 14 vitórias em sequência.

No circuito nacional, a virada veio no Jungle Fight. Em outubro de 2019, Natália finalizou Gabriela Marçal com uma chave de braço e conquistou o cinturão peso-mosca do evento. Dois meses depois, defendeu o título no Jungle Fight 100. Assinou com o UFC em 2020 e tinha estreia marcada para janeiro de 2021, mas quebrou o braço em dezembro. Cinco meses depois, o braço quebrou de novo. A estreia só aconteceu em junho de 2022, com vitória por decisão sobre a canadense Jasmine Jasudavicius.

Oito lutas, oito vitórias e três ex-campeãs

Nos primeiros 12 meses no UFC, Natália venceu três lutas, duas por nocaute: Tereza Bledá, no terceiro round, em novembro de 2022, com bônus de Performance da Noite, e Victoria Leonardo, no primeiro, em maio de 2023. Depois vieram decisões sobre Andrea Lee e Viviane Araújo.

A escada ficou mais íngreme a partir de 2024, o ano mais difícil fora do octógono: em maio, ela perdeu a irmã, de 31 anos. Em setembro, bateu Jéssica Andrade, ex-campeã peso-palha, numa luta que ganhou o bônus de Luta da Noite. Em maio de 2025, no UFC 315, venceu a mexicana Alexa Grasso, ex-campeã da própria categoria. Em janeiro de 2026, no UFC 324, superou a americana Rose Namajunas, duas vezes campeã peso-palha.

Natália Silva ergue os braços no octógono do UFC 324 depois de vencer Rose Namajunas por decisão unânime
Natália Silva comemora a vitória sobre Rose Namajunas no UFC 324, em janeiro, a oitava seguida no UFC. Foto: Chris Unger/Zuffa LLC

A última foi a mais discutida. Os três juízes deram 29 a 28 para a brasileira, com o primeiro e o terceiro rounds para ela, mas 13 dos 18 jornalistas que pontuaram a luta no site MMA Decisions viram vitória de Namajunas.

Os números ajudam a explicar a sequência. Segundo estatísticas citadas numa análise da luta publicada pelo site oficial do UFC, Natália absorve só 2,36 golpes significativos por minuto e defende 66% deles. Também tem sete vitórias por finalização na carreira, uma rota alternativa se a trocação não andar.

Quem é Wang Cong, a adversária

Wang Cong, de 34 anos, nasceu em Dalian, na China, e chegou ao MMA depois de uma carreira longa em outras modalidades. Foi campeã mundial de sanda (a luta em pé chinesa) em 2013, ouro nos Jogos Asiáticos de 2014 no wushu e prata no Mundial de boxe amador de 2019. No kickboxing, conquistou o torneio Legend of Mulan, do Kunlun Fight, em 2018.

Há uma curiosidade no currículo. Em 31 de outubro de 2015, no Kunlun Fight, Wang venceu Valentina Shevchenko por decisão unânime numa luta de kickboxing. Foi a última luta de Shevchenko na modalidade antes da estreia no UFC. A chinesa passou anos pedindo a revanche no MMA, que agora não vai acontecer.

Montagem do UFC com Natália Silva de uniforme amarelo à esquerda e Wang Cong comemorando de braços abertos à direita
Natália Silva e Wang Cong fazem a primeira luta principal da carreira no UFC. Imagem: UFC/Zuffa LLC

No MMA, Wang tem 10 vitórias e 1 derrota. Estreou em 2022, ganhou o contrato com o UFC no Road to UFC de 2024 e, na estreia na organização, nocauteou Victoria Leonardo em 62 segundos, a mesma adversária que Natália havia nocauteado 15 meses antes. A única derrota veio em novembro de 2024, em Macau, finalizada pela brasileira Gabriella Fernandes.

Depois disso, venceu quatro seguidas, todas por decisão: Bruna Brasil, Ariane da Silva, Eduarda Moura e, em julho, Tracy Cortez, no UFC 329. Três das quatro vítimas são brasileiras. Segundo o UFC, ela tem o maior saldo de golpes da divisão e acerta 6,82 golpes significativos por minuto. O ponto de atenção é a balança: em fevereiro, contra Eduarda Moura, as duas bateram 127,5 libras, acima do limite da categoria.

“Acho que a Natália é a adversária mais difícil que já enfrentei no UFC”, disse Wang no programa de divulgação do evento. “O principal é lutar com inteligência e garantir a vitória. Se ela me der uma abertura durante os rounds, com certeza vou finalizar.”

Cinco rounds, altitude e a primeira luta principal

Nenhuma das duas fez luta principal no UFC, e nenhuma lutou cinco rounds na organização. As três últimas de Wang foram até a decisão em três assaltos. Salt Lake City fica a cerca de 1.300 metros de altitude, e o ar rarefeito pesa mais nos rounds finais.

As casas de apostas veem Natália como favorita: a DraftKings pagava -198 pela brasileira e +164 pela chinesa, segundo a CBS Sports. Na análise publicada pelo UFC, o caminho da brasileira é mudar a distância o tempo todo e obrigar Wang a persegui-la. O da chinesa é cortar o octógono e prender Natália na grade, onde os chutes perdem força.

O que o cinturão vale para o MMA brasileiro

O Brasil já teve campeãs em três das quatro divisões femininas do UFC. Amanda Nunes foi dona dos cinturões do peso-galo e do peso-pena ao mesmo tempo, Cris Cyborg reinou no peso-pena e Jéssica Andrade no peso-palha, divisão em que Mackenzie Dern, que o UFC Brasil inclui na lista de campeãs do país, defendeu o título em agosto. Falta o peso-mosca.

O momento também pesa. Em 19 de setembro, Alexandre Pantoja perdeu para Joshua Van na revanche pelo cinturão peso-mosca masculino no UFC 331. Duas semanas depois, o Brasil volta a ter uma lutadora na disputa de um cinturão.

“Meu objetivo desde que eu conheci o UFC é ser campeã”, disse Natália à Band em 2024. “Quero ser campeã não só para carregar o título, mas poder usar o espaço para passar minha mensagem para as pessoas.”

E a vitrine é maior que o normal. O UFC 332 é o primeiro evento numerado com o card principal exibido em TV aberta pela CBS nos Estados Unidos, além do streaming no Paramount+. O UFC não divulga bolsas: os únicos valores oficiais são os bônus da noite, de US$ 100 mil desde o início de 2026. Para entender o resto da conta, vale ler quem são os lutadores mais bem pagos do UFC.

Os outros brasileiros do UFC 332

Na luta coprincipal, Deiveson Figueiredo, ex-campeão peso-mosca e nono do ranking do peso-galo, enfrenta o americano Payton Talbott, 11º. O paraense chega pressionado, com uma vitória nas últimas cinco lutas, incluindo derrotas para Umar Nurmagomedov, em janeiro, e Song Yadong, em maio. Talbott vem de vitória sobre o ex-campeão Henry Cejudo e é o grande favorito das casas de apostas.

Nas preliminares, Rafael dos Anjos, de 41 anos, faz a 50ª luta da carreira contra Alexander Hernandez, depois de quase dois anos parado e três cirurgias no joelho. Johnny Walker estreia no peso-pesado contra o inglês Mick Parkin.

O card principal começa às 21h de Brasília, com transmissão exclusiva do Paramount+. O guia completo, com horários de cada bloco e o card inteiro, está em UFC 332: onde assistir Natália Silva x Wang Cong.

O que a trajetória de Natália ensina sobre alta performance

A carreira de Natália começou com três derrotas em quatro lutas. Se o resultado de 2015 definisse quem ela era, a história teria parado ali. Ela tratou aquelas derrotas como evento, não como identidade, e a última delas foi há quase nove anos.

O caminho até o cinturão também não teve atalho. Foram oito lutas no UFC, a maioria por decisão, contra adversárias cada vez mais fortes, e duas fraturas no braço que seguraram a estreia por mais de um ano. Talento abre a porta. O que leva ao topo do ranking é processo somado a tempo, round a round, até a noite em que a oportunidade aparece, mesmo que seja com outra adversária do outro lado.

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Foto de Diogo Moraes
Diogo Moraes

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