Rafael Câmara vai estrear na Fórmula 1 antes do previsto, e em casa. A Haas confirmou nesta terça-feira (3) que Esteban Ocon não volta mais a correr pela equipe em 2026 e que o brasileiro de 21 anos, líder da Fórmula 2, será o parceiro de Oliver Bearman no GP de São Paulo, em Interlagos, de 6 a 8 de novembro.
A promoção estava marcada para 2027, quando Câmara assume uma vaga fixa no time americano. A crise entre Ocon e a equipe no México antecipou a estreia do brasileiro. Com isso, o domingo em Interlagos terá dois brasileiros no grid, algo que a Fórmula 1 não vê desde 2016.
O que a Haas anunciou sobre Ocon e Câmara
O comunicado oficial da equipe é curto. A TGR Haas F1 Team “confirma que Esteban Ocon não vai mais competir por ela no Campeonato Mundial de Fórmula 1 de 2026” e que Rafael Câmara fará a estreia na 20ª etapa do ano, no Autódromo José Carlos Pace, guiando o VF-26 ao lado de Bearman.
O chefe da equipe, Ayao Komatsu, assinou a decisão sem detalhar os motivos. “Notificamos Esteban Ocon de que ele não voltará a um assento de corrida na TGR Haas F1 Team nesta temporada. Decisões assim nunca são tomadas de forma leviana, como foi o caso na Cidade do México, mas, naquele momento e agora, entendemos que isso é o melhor para o futuro da equipe”, disse.
Sobre o brasileiro, o japonês foi direto: “Escolhemos Rafael Câmara para correr ao lado de Ollie Bearman no GP de São Paulo. Depois do desempenho excelente no teste de agosto, conhecemos a capacidade do Rafa e estamos ansiosos para recebê-lo na equipe neste fim de semana”.
O texto da Haas cita apenas a etapa brasileira. Segundo o ge e a CNN Brasil, Câmara também vai correr o GP de Las Vegas, no fim de semana seguinte. Até a manhã desta quarta-feira (4), a equipe não havia oficializado quem fica com o carro nas últimas etapas do calendário.
A crise com Ocon que abriu a vaga
A troca nasceu no GP da Cidade do México, no último fim de semana. Ocon participou do segundo treino livre na sexta-feira e teve, segundo o RaceFans, uma conversa tensa com a engenheira de corrida Laura Mueller sobre a estratégia daquela sessão. No dia seguinte, a Haas anunciou que o francês estava fora da etapa e colocou no carro o reserva japonês Ryo Hirakawa.
Hirakawa aproveitou a chance: terminou o GP do México em décimo e marcou um ponto na primeira corrida pelo time, segundo a F1. Só não pode seguir no carro porque tem compromisso com a Toyota no Mundial de Endurance (WEC) neste fim de semana, quando pode ser campeão ao lado de Sébastien Buemi e Brendon Hartley. Ocon, que já tinha anunciado a saída da Haas no fim de 2026, encerra o ano antes da hora.

Quem é Rafael Câmara, o 34º brasileiro da F1
Pernambucano, Câmara faz parte da Academia de Pilotos da Ferrari desde 2021, segundo a Haas. Nos monopostos, acumulou títulos em sequência: foi campeão da Fórmula Regional Europeia em 2024 e da Fórmula 3 em 2025, temporada em que igualou Arvid Lindblad no maior aproveitamento de vitórias da história da categoria, de acordo com a F1.
Em 2026, no ano de estreia na Fórmula 2, pela Invicta Racing, lidera o campeonato com 207 pontos, sete à frente do búlgaro Nikola Tsolov, da Campos, e 18 acima do irlandês Alexander Dunne, da Rodin. Quando a Haas anunciou a contratação, em outubro, a F1 contabilizava três vitórias em corridas principais e outros quatro pódios. Em entrevista ao site oficial da F1, ele contou que chegou a estar 47 pontos atrás do líder antes da arrancada.
A vaga de titular para 2027 foi anunciada em outubro, em Londres, com contrato de vários anos. “É algo pelo qual você trabalha a vida inteira. É realmente louco conseguir isso”, disse Câmara à F1 no dia do anúncio.
Na estreia em Interlagos, ele será o 34º brasileiro a disputar uma corrida de Fórmula 1 e o sétimo a estrear justamente num GP no Brasil. Segundo levantamento do ge, os outros foram Luiz Pereira Bueno, Ingo Hoffmann, Alex Dias Ribeiro, Ayrton Senna, Mauricio Gugelmin e Tarso Marques.
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O teste em Portimão que convenceu a Haas
A carta de apresentação de Câmara foi um teste com carro antigo, o chamado TPC (Testing of Previous Cars), entre 27 e 28 de agosto, no Autódromo Internacional do Algarve, em Portimão. Ele guiou o VF-25, modelo de 2025, numa espécie de seletiva para a vaga deixada por Ocon.
Segundo o ge, o brasileiro fez o melhor tempo entre os avaliados, cerca de dois décimos mais rápido que a referência de Bearman, quase quatro décimos à frente do italiano Leonardo Fornaroli, campeão da F2 em 2025, e sete décimos à frente de Hirakawa. Tempo de teste privado diz pouco sozinho, porque vento e temperatura da pista mudam tudo. O que pesou foi o pacote.
Os engenheiros da Haas elogiaram três pontos, de acordo com o ge: a adaptação rápida a uma pista e a um carro que ele nunca tinha guiado, o retorno técnico consistente para acertar o carro e o ritmo em simulação de corrida, sem desgastar demais os pneus. Komatsu resumiu na época: “Ele mostrou mais do que velocidade pura. Conseguiu criar um ambiente para tirar o melhor de si mesmo”.
Câmara admitiu à F1 que sentiu o peso dos dois dias. “Foram dois dias intensos. Pista nova, equipe nova. Eu estava um pouco preocupado em ficar travado e não ser eu mesmo. Queria muito garantir que estava aproveitando, porque não seria uma oportunidade que eu teria de novo.”

Dois brasileiros no grid pela primeira vez desde 2016
A estreia em Interlagos reúne Câmara e Gabriel Bortoleto, da Audi, no mesmo grid. A última vez que o Brasil teve dois pilotos numa corrida de Fórmula 1 foi no GP de Abu Dhabi de 2016, com Felipe Massa, pela Williams, e Felipe Nasr, pela Sauber, lembra a CNN Brasil.
Os dois se conhecem desde o kart. “Conheço o Gabi desde os sete anos. Corremos juntos no Brasil. Depois, na Europa, ele sempre estava na categoria acima, mas sempre estivemos juntos”, contou Câmara à F1. “Ver ele chegando lá foi mais uma motivação para continuar trabalhando, para que fôssemos dois.” Bortoleto vem de um oitavo lugar no México, herdado após punições a rivais.
O fim de semana já tinha peso de sobra: a Mercedes pode fechar o título de construtores em Interlagos, uma semana depois de Kimi Antonelli se tornar campeão mundial aos 20 anos. A corrida de domingo (8) tem largada às 14h, no horário de Brasília.
A agenda de Câmara segue apertada depois disso. As duas últimas etapas da Fórmula 2, no Catar e em Abu Dhabi, coincidem com as rodadas finais da F1, e o brasileiro precisa delas para tentar o título. Se for campeão, vai repetir o caminho de nomes como Bortoleto, Oscar Piastri, George Russell e Charles Leclerc, que ganharam F3 e F2 em anos seguidos antes de chegar à F1.
O que a estreia de Câmara ensina sobre alta performance
A história de Câmara mostra que oportunidade quase nunca chega no momento planejado. A vaga era para 2027 e apareceu numa terça-feira de novembro, a três dias do primeiro treino livre, numa pista onde ele nunca correu de Fórmula 1 e diante da própria torcida. Quem se prepara só para a data marcada não está pronto para a data real.
O teste de Portimão ensina o mesmo por outro ângulo. Câmara não ganhou a vaga por uma volta rápida, e sim pela capacidade de render rápido em ambiente novo, de explicar com clareza o que o carro fazia e de manter ritmo sem destruir pneus. Velocidade abre a porta, consistência e comunicação fazem a equipe confiar.
Há ainda a gestão de foco. O brasileiro vai estrear na F1 no meio de uma briga de sete pontos pelo título da F2, que volta a exigir tudo dele nas semanas seguintes. Separar as duas missões, sem deixar uma contaminar a outra, é a mesma habilidade que ele descreveu ao falar do teste: não travar, ser ele mesmo e aproveitar a chance como se ela não fosse se repetir.
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