Em 25 de julho de 1993, o Brasil perdeu por 2 a 0 para a Bolívia em La Paz. Foi a primeira derrota da Seleção Brasileira em Eliminatórias de Copa do Mundo em quatro décadas de história. No gol, um goleiro de 27 anos que a imprensa já tinha rebatizado: Frangarel.
Doze meses depois, o mesmo goleiro estava ajoelhado no gramado do Rose Bowl, em Pasadena, braços apontados para o céu, enquanto Roberto Baggio olhava para o chão. Entre uma cena e outra, Cláudio Taffarel tomou a decisão de carreira que quase ninguém no futebol brasileiro entendeu na época. Trinta e dois anos depois, ela segue sendo a parte menos contada da história do tetracampeonato.
O apelido que colou em 1993
A derrota em La Paz não foi um acidente isolado. Foi o fundo do poço de uma sequência.
Taffarel falhou no primeiro gol boliviano, um chute de Etcheverry de ângulo quase fechado nos minutos finais. O humorista e colunista José Simão cravou o apelido, e a torcida adotou em semanas: Frangarel.
Em 29 de agosto daquele mesmo ano, o Brasil devolveu com um 6 a 0 na Bolívia. Mas o estrago na reputação do goleiro já estava feito. Zetti, em ótima fase e titular na Copa América de 1993, no Equador, virou a preferência da imprensa e da arquibancada.
Aos 27 anos, o goleiro que tinha defendido três pênaltis na semifinal olímpica de Seul em 1988 e levado o Brasil à final era, na conta pública, um problema a ser resolvido.
O currículo não ajudava a defendê-lo. Na Copa de 1990, a primeira dele, o Brasil passou pela fase de grupos sofrendo apenas um gol e caiu nas oitavas para a Argentina de Maradona. Boa atuação individual, eliminação precoce. Três anos depois, a memória que sobrou não foi a das defesas, foi a do time que não passou das oitavas.
O problema não era o goleiro. Era o banco.
Aqui está o dado que quase nunca aparece quando essa história é contada.
Taffarel não estava jogando mal. Ele não estava jogando.
Depois da Copa de 1990, o Parma o contratou e ele ganhou o que havia para ganhar na Itália: Recopa Europeia e Copa da Itália. Só que a regra de limite de estrangeiros do futebol italiano apertou, e o Parma tinha mais estrangeiros do que podia escalar.
Na temporada 1992-93, Taffarel entrou em campo seis vezes pelo Campeonato Italiano. Em boa parte das rodadas, o quarto estrangeiro sequer podia sentar no banco. O goleiro titular da Seleção Brasileira assistia aos jogos do próprio clube da arquibancada.
Ritmo de jogo não se treina. Se joga. E ele não estava jogando.
O que o Brasil via como “goleiro em queda” era, na verdade, um atleta de elite em atrofia competitiva. A diferença entre os dois diagnósticos definiu o tetra. Não era um caso de autoconfiança abalada, embora parecesse. Era falta de jogo.
A escolha que ninguém entendeu
Em 1993, Taffarel deixou o Parma, um clube que acabara de levantar uma taça europeia, e assinou com a Reggiana.
A Reggiana tinha acabado de subir para a Série A depois de 64 anos fora da elite. Era a candidata natural ao rebaixamento. Não era um passo lateral nem uma promoção: era trocar a vitrine pelo campo.
Muita gente conta essa passagem dizendo que Taffarel “desceu de divisão”. Não desceu. Parma e Reggiana disputavam a mesma Série A. O que ele trocou foi status por minutagem, e essa distinção é o coração da história.
A Reggiana daquele ano, comandada por Giuseppe “Pippo” Marchioro, tinha um elenco acima da média de um recém-promovido. Além de Taffarel, contava com Luigi De Agostini, campeão italiano pela Juventus, o atacante Michele Padovano e, a partir de novembro, o português Paulo Futre. Não era um clube ruim. Era um clube pequeno com um projeto sério, e com uma vaga de titular disponível.
O número que justifica a escolha: Taffarel fez 31 jogos pela Reggiana na temporada 1993-94. Contra seis na anterior.
Ele não foi buscar holofote. Foi buscar bola.
1º de maio de 1994, San Siro: o ensaio geral
A temporada da Reggiana terminou com uma missão quase impossível: visitar o Milan de Fabio Capello, já campeão italiano, precisando pontuar para escapar do rebaixamento.
A Reggiana venceu por 1 a 0. Massimiliano Esposito fez o gol no segundo tempo. E, perto do fim, com o Milan pressionando pelo empate, Daniele Massaro finalizou de dentro da área.
Taffarel defendeu.
O time se salvou em San Siro, e o episódio entrou para a história da Reggiana. Setenta e sete dias depois, num estádio da Califórnia, Taffarel voltaria a encontrar exatamente o mesmo atacante em exatamente o mesmo tipo de situação.
Parreira bancou contra todo mundo
Carlos Alberto Parreira manteve Taffarel como titular para a Copa de 1994.
A decisão foi tomada contra a imprensa, contra parte da torcida e contra a memória recente de La Paz. Zetti estava à disposição. A pressão pela troca era pública e constante.
Parreira olhou para os 31 jogos na Reggiana e para o goleiro que via nos treinos, não para o apelido que circulava nas colunas.
17 de julho de 1994, Pasadena

Brasil e Itália empataram por 0 a 0 no Rose Bowl, diante de 94.194 pessoas, depois de 120 minutos. Pela primeira vez na história, uma final de Copa do Mundo seria decidida nos pênaltis.
Franco Baresi, capitão italiano, mandou a primeira por cima. Márcio Santos parou em Pagliuca. Albertini e Romário converteram. Evani e Branco converteram.
Então veio Daniele Massaro.
Taffarel caiu no canto e defendeu. O mesmo atacante que ele já tinha parado em San Siro dois meses e meio antes.
Dunga converteu a seguinte. E Roberto Baggio, o melhor jogador da Itália, isolou a última por cima do travessão.
O Brasil era tetracampeão do mundo, 24 anos depois de 1970. O goleiro que a imprensa chamava de Frangarel virou o dono do bordão que Galvão Bueno eternizou: “Sai que é sua, Taffarel”.
1998: a prova de que não foi sorte

Quem atribuiu 1994 ao acaso teve resposta quatro anos depois.
Em 7 de julho de 1998, na semifinal contra a Holanda, em Marselha, o jogo terminou 1 a 1 e foi para os pênaltis. Taffarel defendeu as cobranças de Phillip Cocu e de Ronald de Boer. O Brasil venceu por 4 a 2 e foi à final.
Em três Copas do Mundo, Taffarel somou 18 jogos, sofreu 15 gols e terminou 8 partidas sem ser vazado. Duas finais de Mundial, algo que pouquíssimos goleiros brasileiros alcançaram.
2026: o Brasil nas oitavas de novo, e Taffarel de novo em xeque
O aniversário de 32 anos de Pasadena cai num momento amargo.
O Brasil foi eliminado da Copa do Mundo de 2026 nas oitavas de final, derrotado por 2 a 0 pela Noruega, com dois gols de Erling Haaland. É a primeira queda nessa fase desde 1990, a Copa de estreia justamente de Taffarel.
E Taffarel, preparador de goleiros da Seleção há cerca de dez anos, virou alvo da reformulação. A CBF avalia que a lista de goleiros da Copa, formada só por veteranos, foi sintoma de estagnação, e que o ciclo até 2030 pede renovação na posição. Ele deixou o Liverpool em julho de 2025, depois de quase quatro anos trabalhando com Alisson, e agora seu futuro na comissão está em discussão. Carlo Ancelotti, com contrato até 2030, seguirá no comando.
A ironia é difícil de ignorar. O homem que está sendo cobrado por um novo ciclo é exatamente o que já viveu esse roteiro do outro lado, e sabe como ele termina quando alguém tem paciência.
O que isso ensina sobre alta performance
A leitura fácil dessa história é “acredite em você”. Não é isso.
O que Taffarel fez em 1993 foi um diagnóstico técnico, não um ato de fé. Ele identificou que o problema não era confiança, era volume de jogo. E tratou a causa, não o sintoma.
O instinto de qualquer atleta que perde espaço é defender a reputação: ficar no clube grande, brigar por vaga, dar entrevista, esperar a chance. Taffarel fez o contrário. Aceitou perder status para recuperar a única coisa que reconstrói um goleiro, que é bola chegando no gol dele todo domingo.
Três lições práticas, para qualquer esporte:
- Ritmo é insubstituível. Treino não simula competição. Nenhum atleta de elite se mantém afiado sem disputa real. Se você não está competindo, você está regredindo, mesmo treinando bem.
- Status é o inimigo da evolução. Banco de time grande costuma valer menos que titularidade em time pequeno. A vitrine não te faz melhor. O jogo faz.
- Reputação é consequência, não estratégia. Taffarel não respondeu ao apelido Frangarel com declaração nenhuma. Respondeu com 31 jogos. A narrativa mudou sozinha quando o desempenho mudou.
É o mesmo mecanismo que fez Jannik Sinner voltar duas vezes ao topo depois da suspensão: tratar a queda como problema de processo, não de identidade. Quem quiser entender a engenharia por trás disso encontra o caminho em como superar a derrota no esporte e no nosso guia de treinamento mental para atletas.
Recuar não é desistir. Às vezes, é a única forma de voltar a subir. Em 1993, isso parecia rebaixamento de carreira. Em 17 de julho de 1994, virou tetracampeonato.
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