ARTIGOS E NOTÍCIAS ATLETA PRO

Taffarel trocou o Parma por um time de rebaixamento e buscou o tetra

Foto de Equipe Atleta Pro
Equipe Atleta Pro
Cláudio Taffarel ajoelhado comemora o título com os braços erguidos enquanto Roberto Baggio, de cabeça baixa, deixa o gramado após perder o pênalti na final da Copa do Mundo de 1994 em Pasadena

Em 25 de julho de 1993, o Brasil perdeu por 2 a 0 para a Bolívia em La Paz. Foi a primeira derrota da Seleção Brasileira em Eliminatórias de Copa do Mundo em quatro décadas de história. No gol, um goleiro de 27 anos que a imprensa já tinha rebatizado: Frangarel.

Doze meses depois, o mesmo goleiro estava ajoelhado no gramado do Rose Bowl, em Pasadena, braços apontados para o céu, enquanto Roberto Baggio olhava para o chão. Entre uma cena e outra, Cláudio Taffarel tomou a decisão de carreira que quase ninguém no futebol brasileiro entendeu na época. Trinta e dois anos depois, ela segue sendo a parte menos contada da história do tetracampeonato.

O apelido que colou em 1993

A derrota em La Paz não foi um acidente isolado. Foi o fundo do poço de uma sequência.

Taffarel falhou no primeiro gol boliviano, um chute de Etcheverry de ângulo quase fechado nos minutos finais. O humorista e colunista José Simão cravou o apelido, e a torcida adotou em semanas: Frangarel.

Em 29 de agosto daquele mesmo ano, o Brasil devolveu com um 6 a 0 na Bolívia. Mas o estrago na reputação do goleiro já estava feito. Zetti, em ótima fase e titular na Copa América de 1993, no Equador, virou a preferência da imprensa e da arquibancada.

Aos 27 anos, o goleiro que tinha defendido três pênaltis na semifinal olímpica de Seul em 1988 e levado o Brasil à final era, na conta pública, um problema a ser resolvido.

O currículo não ajudava a defendê-lo. Na Copa de 1990, a primeira dele, o Brasil passou pela fase de grupos sofrendo apenas um gol e caiu nas oitavas para a Argentina de Maradona. Boa atuação individual, eliminação precoce. Três anos depois, a memória que sobrou não foi a das defesas, foi a do time que não passou das oitavas.

O problema não era o goleiro. Era o banco.

Aqui está o dado que quase nunca aparece quando essa história é contada.

Taffarel não estava jogando mal. Ele não estava jogando.

Depois da Copa de 1990, o Parma o contratou e ele ganhou o que havia para ganhar na Itália: Recopa Europeia e Copa da Itália. Só que a regra de limite de estrangeiros do futebol italiano apertou, e o Parma tinha mais estrangeiros do que podia escalar.

Na temporada 1992-93, Taffarel entrou em campo seis vezes pelo Campeonato Italiano. Em boa parte das rodadas, o quarto estrangeiro sequer podia sentar no banco. O goleiro titular da Seleção Brasileira assistia aos jogos do próprio clube da arquibancada.

Ritmo de jogo não se treina. Se joga. E ele não estava jogando.

O que o Brasil via como “goleiro em queda” era, na verdade, um atleta de elite em atrofia competitiva. A diferença entre os dois diagnósticos definiu o tetra. Não era um caso de autoconfiança abalada, embora parecesse. Era falta de jogo.

A escolha que ninguém entendeu

Em 1993, Taffarel deixou o Parma, um clube que acabara de levantar uma taça europeia, e assinou com a Reggiana.

A Reggiana tinha acabado de subir para a Série A depois de 64 anos fora da elite. Era a candidata natural ao rebaixamento. Não era um passo lateral nem uma promoção: era trocar a vitrine pelo campo.

Muita gente conta essa passagem dizendo que Taffarel “desceu de divisão”. Não desceu. Parma e Reggiana disputavam a mesma Série A. O que ele trocou foi status por minutagem, e essa distinção é o coração da história.

A Reggiana daquele ano, comandada por Giuseppe “Pippo” Marchioro, tinha um elenco acima da média de um recém-promovido. Além de Taffarel, contava com Luigi De Agostini, campeão italiano pela Juventus, o atacante Michele Padovano e, a partir de novembro, o português Paulo Futre. Não era um clube ruim. Era um clube pequeno com um projeto sério, e com uma vaga de titular disponível.

O número que justifica a escolha: Taffarel fez 31 jogos pela Reggiana na temporada 1993-94. Contra seis na anterior.

Ele não foi buscar holofote. Foi buscar bola.

1º de maio de 1994, San Siro: o ensaio geral

A temporada da Reggiana terminou com uma missão quase impossível: visitar o Milan de Fabio Capello, já campeão italiano, precisando pontuar para escapar do rebaixamento.

A Reggiana venceu por 1 a 0. Massimiliano Esposito fez o gol no segundo tempo. E, perto do fim, com o Milan pressionando pelo empate, Daniele Massaro finalizou de dentro da área.

Taffarel defendeu.

O time se salvou em San Siro, e o episódio entrou para a história da Reggiana. Setenta e sete dias depois, num estádio da Califórnia, Taffarel voltaria a encontrar exatamente o mesmo atacante em exatamente o mesmo tipo de situação.

Parreira bancou contra todo mundo

Carlos Alberto Parreira manteve Taffarel como titular para a Copa de 1994.

A decisão foi tomada contra a imprensa, contra parte da torcida e contra a memória recente de La Paz. Zetti estava à disposição. A pressão pela troca era pública e constante.

Parreira olhou para os 31 jogos na Reggiana e para o goleiro que via nos treinos, não para o apelido que circulava nas colunas.

17 de julho de 1994, Pasadena

Goleiro Cláudio Taffarel se atira no canto com o uniforme verde da Seleção Brasileira para defender na final da Copa do Mundo de 1994
Taffarel se joga no canto durante a final da Copa do Mundo de 1994, contra a Itália.

Brasil e Itália empataram por 0 a 0 no Rose Bowl, diante de 94.194 pessoas, depois de 120 minutos. Pela primeira vez na história, uma final de Copa do Mundo seria decidida nos pênaltis.

Franco Baresi, capitão italiano, mandou a primeira por cima. Márcio Santos parou em Pagliuca. Albertini e Romário converteram. Evani e Branco converteram.

Então veio Daniele Massaro.

Taffarel caiu no canto e defendeu. O mesmo atacante que ele já tinha parado em San Siro dois meses e meio antes.

Dunga converteu a seguinte. E Roberto Baggio, o melhor jogador da Itália, isolou a última por cima do travessão.

O Brasil era tetracampeão do mundo, 24 anos depois de 1970. O goleiro que a imprensa chamava de Frangarel virou o dono do bordão que Galvão Bueno eternizou: “Sai que é sua, Taffarel”.

1998: a prova de que não foi sorte

Taffarel voa para defender uma cobrança de pênalti da Holanda na semifinal da Copa do Mundo de 1998, em Marselha
Na semifinal de 1998, contra a Holanda, Taffarel defendeu as cobranças de Cocu e Ronald de Boer.

Quem atribuiu 1994 ao acaso teve resposta quatro anos depois.

Em 7 de julho de 1998, na semifinal contra a Holanda, em Marselha, o jogo terminou 1 a 1 e foi para os pênaltis. Taffarel defendeu as cobranças de Phillip Cocu e de Ronald de Boer. O Brasil venceu por 4 a 2 e foi à final.

Em três Copas do Mundo, Taffarel somou 18 jogos, sofreu 15 gols e terminou 8 partidas sem ser vazado. Duas finais de Mundial, algo que pouquíssimos goleiros brasileiros alcançaram.

2026: o Brasil nas oitavas de novo, e Taffarel de novo em xeque

O aniversário de 32 anos de Pasadena cai num momento amargo.

O Brasil foi eliminado da Copa do Mundo de 2026 nas oitavas de final, derrotado por 2 a 0 pela Noruega, com dois gols de Erling Haaland. É a primeira queda nessa fase desde 1990, a Copa de estreia justamente de Taffarel.

E Taffarel, preparador de goleiros da Seleção há cerca de dez anos, virou alvo da reformulação. A CBF avalia que a lista de goleiros da Copa, formada só por veteranos, foi sintoma de estagnação, e que o ciclo até 2030 pede renovação na posição. Ele deixou o Liverpool em julho de 2025, depois de quase quatro anos trabalhando com Alisson, e agora seu futuro na comissão está em discussão. Carlo Ancelotti, com contrato até 2030, seguirá no comando.

A ironia é difícil de ignorar. O homem que está sendo cobrado por um novo ciclo é exatamente o que já viveu esse roteiro do outro lado, e sabe como ele termina quando alguém tem paciência.

O que isso ensina sobre alta performance

A leitura fácil dessa história é “acredite em você”. Não é isso.

O que Taffarel fez em 1993 foi um diagnóstico técnico, não um ato de fé. Ele identificou que o problema não era confiança, era volume de jogo. E tratou a causa, não o sintoma.

O instinto de qualquer atleta que perde espaço é defender a reputação: ficar no clube grande, brigar por vaga, dar entrevista, esperar a chance. Taffarel fez o contrário. Aceitou perder status para recuperar a única coisa que reconstrói um goleiro, que é bola chegando no gol dele todo domingo.

Três lições práticas, para qualquer esporte:

  • Ritmo é insubstituível. Treino não simula competição. Nenhum atleta de elite se mantém afiado sem disputa real. Se você não está competindo, você está regredindo, mesmo treinando bem.
  • Status é o inimigo da evolução. Banco de time grande costuma valer menos que titularidade em time pequeno. A vitrine não te faz melhor. O jogo faz.
  • Reputação é consequência, não estratégia. Taffarel não respondeu ao apelido Frangarel com declaração nenhuma. Respondeu com 31 jogos. A narrativa mudou sozinha quando o desempenho mudou.

É o mesmo mecanismo que fez Jannik Sinner voltar duas vezes ao topo depois da suspensão: tratar a queda como problema de processo, não de identidade. Quem quiser entender a engenharia por trás disso encontra o caminho em como superar a derrota no esporte e no nosso guia de treinamento mental para atletas.

Recuar não é desistir. Às vezes, é a única forma de voltar a subir. Em 1993, isso parecia rebaixamento de carreira. Em 17 de julho de 1994, virou tetracampeonato.

Quer treinar com a mentalidade e os métodos da alta performance?

Conheça a Atleta Pro Academy e leve a ciência da performance para o seu treino.

Conhecer a Atleta Pro Academy

Compartilhe:

Facebook
Twitter
Pinterest
LinkedIn

Quer receber conteúdos como esse direto no seu e-mail?

Clique no botão abaixo e inscreva-se na Newsletter do Atleta.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos relacionados: