A NASCAR é a principal categoria de automobilismo dos Estados Unidos e funciona de um jeito que não existe em nenhum outro lugar do mundo: 36 corridas pontuáveis por ano, carros praticamente idênticos, quase tudo em oval e um campeonato que, em 2026, voltou a premiar quem soma pontos todo domingo em vez de quem vence uma vez e relaxa.
A temporada atual mexeu na regra mais importante das últimas duas décadas. Passadas 20 das 36 corridas, Denny Hamlin lidera com 791 pontos e quatro vitórias, Tyler Reddick tem cinco vitórias e ainda está atrás, e um piloto com duas vitórias corre risco real de ficar de fora da briga pelo título. Nada disso seria possível no formato antigo.
O que é a NASCAR e por que ela não se parece com a Fórmula 1
A NASCAR é uma entidade privada fundada em 1948, em Daytona Beach, por Bill France Sr., que organiza e sanciona campeonatos de stock cars nos Estados Unidos.
A diferença central para a Fórmula 1 está em quem decide a corrida. Na F1, a engenharia é o campo de batalha: cada equipe projeta o próprio carro. Na NASCAR, o chassi é único e vem de fornecedor comum, as peças são padronizadas e os três fabricantes (Chevrolet, Ford e Toyota) só assinam a carroceria por cima de uma base idêntica. A regra achata a engenharia de propósito e devolve a decisão para o piloto, para o estrategista e para os cinco caras que trocam quatro pneus por cima do muro.
O resultado é um esporte de pelotão. Em vez de um carro dominante abrindo 20 segundos, a NASCAR entrega 40 carros a poucos centímetros um do outro por 500 milhas, virando à esquerda, com o vácuo mandando mais que a potência. Quem acompanha o automobilismo de motor grande no Brasil reconhece a lógica: o espetáculo nasce da proximidade, não da superioridade técnica.
Como funciona a NASCAR: as três divisões nacionais
A NASCAR tem três divisões nacionais, em ordem de importância: Cup Series, O’Reilly Auto Parts Series e Craftsman Truck Series.
A Cup Series é o topo: 36 corridas que valem pontos, mais a Clash (exibição, na abertura) e a All-Star Race. É onde estão os grandes nomes, os grandes patrocínios e o dinheiro de TV.
A O’Reilly Auto Parts Series (a antiga Xfinity Series) é o degrau de acesso. Corre nos mesmos fins de semana, nos mesmos circuitos, e é onde os pilotos jovens aparecem antes de subir.
A Craftsman Truck Series disputa com picapes de competição e funciona como a terceira divisão. Fora dos Estados Unidos, a NASCAR licencia campeonatos regionais, entre eles a NASCAR Brasil Series e a NASCAR Euro Series.
Uma peça que confunde quem vem da Europa: as charters. Elas funcionam como franquias da NBA, garantindo à equipe a vaga no grid e a fatia da receita de TV. Em 2026, todas as equipes passaram a ter charter “evergreen”, que não expira, resultado do acordo que encerrou o processo movido pela 23XI Racing contra a NASCAR.

Como funciona uma corrida: estágios, bandeiras e a parada de boxe
Cada corrida é dividida em estágios, normalmente três (o Coca-Cola 600 tem quatro), e cada estágio distribui pontos por conta própria.
O estágio termina com uma bandeira amarela programada. Os dez primeiros naquele momento pontuam, e o vencedor do estágio leva 10 pontos. Depois disso, a corrida recomeça com o pelotão reagrupado. Na prática, uma corrida da NASCAR é reiniciada várias vezes, e a vantagem construída em 100 voltas evapora numa amarela.
A parada de boxe é o outro ponto de virada. Cinco pessoas passam por cima do muro para trocar quatro pneus e abastecer. Com as rodas de 18 polegadas de porca central única do carro atual, as melhores equipes resolvem tudo na casa dos 10 segundos. Uma parada ruim custa mais posições do que qualquer ultrapassagem devolve.
A pontuação de 2026: a vitória subiu para 55 pontos
A mudança de pontuação é pequena no papel e enorme na consequência.
| Item | Até 2025 | 2026 |
|---|---|---|
| Vitória | 40 pontos | 55 pontos |
| 2º ao último colocado | 35 a 1 | 35 a 1 (inalterado) |
| Vencedor de estágio | 10 pontos | 10 pontos (inalterado) |
| Pontos de playoff acumuláveis | Existiam | Extintos |
| “Venceu, está classificado” | Valia | Extinto |
Vencer ficou mais valioso dentro da soma (15 pontos a mais), mas deixou de ser um passaporte. Essa é a inversão que reorganiza a temporada inteira.
O Chase: o formato que acabou com a eliminação
O Chase é o nome do playoff da NASCAR, retomado em 2026 depois de mais de uma década de formato eliminatório. Ele reúne os 16 primeiros da fase regular e decide o título em 10 corridas, sem eliminar ninguém no caminho.
A classificação vem só dos pontos das 26 primeiras corridas. Não existe mais vaga automática por vitória. Antes do início do Chase, os pontos são resetados com uma semeadura:
| Posição na fase regular | Pontos no reset |
|---|---|
| 1º (campeão da fase regular, com bônus de 25) | 2.100 |
| 2º | 2.075 |
| 3º | 2.065 |
| 4º ao 16º | queda de 5 pontos por posição |
Os 16 correm as 10 provas até o fim, e campeão é quem tiver mais pontos depois de Homestead. Nas outras divisões o desenho é o mesmo em escala menor: 12 pilotos e 9 corridas na O’Reilly, 10 pilotos e 7 corridas na Truck.
O que isso muda: no formato antigo, um piloto irregular podia vencer uma corrida em maio, entrar no playoff, sobreviver a três rodadas de eliminação e levar o título numa final de quatro carros. Agora o campeonato é uma soma de 36 domingos. O presidente da NASCAR, Steve O’Donnell, resumiu o objetivo como fazer cada corrida importar.
O carro: V8 aspirado, 1.542 kg e nenhuma eletrônica de Fórmula 1
O carro da Cup Series é o Next Gen, em uso desde 2022: um V8 aspirado de 5,86 litros (358 polegadas cúbicas), sem turbo e sem sistema híbrido, girando entre 9.000 e 9.500 rpm. É o oposto da lógica de um V10 de Fórmula 1 adaptado, e também não tem nada a ver com a coleção de motores de rua que enche museus como o do Dodge no Brasil. É um motor feito para durar 500 milhas em carga máxima.
O peso mínimo é de 1.542 kg com piloto e combustível. O câmbio é sequencial de cinco marchas, as rodas são de 18 polegadas com porca central única e o assoalho é fechado com difusor traseiro.
Em 2026 a NASCAR trabalha com três pacotes de potência:
| Pacote | Onde | Potência |
|---|---|---|
| Ovais abaixo de 1,5 milha e circuitos mistos | Bristol, Darlington, Dover, Nashville, New Hampshire, St. Louis | 750 cv (novidade de 2026) |
| Ovais intermediários | Las Vegas, Kansas, Charlotte e similares | 670 cv |
| Superovais, com spoiler de 7 polegadas | Daytona, Talladega, Atlanta | 510 cv |
Nos superovais os carros passam dos 320 km/h em pelotão, e é justamente por isso que a potência é cortada ali. O recorde histórico de velocidade em uma volta segue sendo o de Bill Elliott, 342,5 km/h em Talladega, marcado em 1987, antes de a NASCAR adotar as placas restritoras.

O que esperar do resto da temporada 2026
Faltam seis corridas para o fim da fase regular, e a briga está entre o líder que nunca foi campeão e o piloto que mais venceu.
| Pos. | Piloto | Pontos | Vitórias |
|---|---|---|---|
| 1 | Denny Hamlin | 791 | 4 |
| 2 | Tyler Reddick | 767 | 5 |
| 3 | Ryan Blaney | 726 | 2 |
| 4 | Ty Gibbs | 665 | 1 |
| 5 | Chase Elliott | 610 | 2 |
| 6 | Kyle Larson | 594 | 0 |
| 7 | Chris Buescher | 568 | 0 |
| 8 | Carson Hocevar | 563 | 1 |
| 9 | Christopher Bell | 551 | 0 |
| 10 | Chase Briscoe | 542 | 1 |
Hamlin é o maior beneficiado da mudança. Ele nunca venceu um campeonato da Cup e perdeu o título de 2025 na última corrida, em Phoenix, para Kyle Larson. Um formato que soma tudo e não elimina ninguém é exatamente o formato que faltava para ele.
Reddick tem o melhor carro e o pior aproveitamento relativo. Cinco vitórias, incluindo a Daytona 500, e ainda assim 24 pontos atrás. No sistema antigo já estaria classificado desde fevereiro.
Larson é o retrato do novo desenho. Campeão de 2025, está em 6º sem nenhuma vitória em 2026. Regularidade sem pico agora rende posição de Chase.
Shane van Gisbergen é o caso que explica tudo. O especialista em circuitos mistos venceu duas vezes e está em 15º, na bolha. No formato antigo estaria classificado e tranquilo desde maio. Agora precisa somar pontos em ovais, que é justamente onde ele não é forte.
Fora do topo, duas histórias merecem atenção. Corey Heim venceu na 13ª largada dele na Cup, na etapa inédita de San Diego, dentro da Naval Base Coronado, correndo em programa parcial antes de assumir uma vaga fixa na 23XI. E Connor Zilisch, do carro 88 da Trackhouse, é o único novato em tempo integral do grid em 2026.
O detalhe que pouca gente notou: a fase regular fecha em Daytona, em 29 de agosto, um superoval onde qualquer um pode vencer. No formato antigo, um azarão vencia ali e roubava uma vaga de playoff de quem tinha somado o ano inteiro. Isso acabou. Quem está fora do top 16 em agosto precisa somar pontos, não apostar em loteria.
Calendário 2026 e onde assistir no Brasil
A temporada tem 36 corridas pontuáveis, sendo 26 na fase regular e 10 no Chase.
| Data | Etapa | Status |
|---|---|---|
| 15/02 | Daytona 500 | Vitória de Tyler Reddick |
| 21/06 | San Diego, Naval Base Coronado | 1ª corrida da história em base militar, vitória de Corey Heim |
| 12/07 | Atlanta | Vitória de Ryan Blaney, 20ª corrida |
| 29/08 | Daytona | Fim da fase regular |
| 06/09 | Southern 500, Darlington | Início do Chase |
| 25/10 | Talladega | Penúltima rodada de peso |
| 08/11 | Homestead-Miami | Corrida do título |
O calendário de 2026 também trouxe de volta Chicagoland e North Wilkesboro, levou a All-Star Race para Dover e mudou a final de Phoenix para Homestead.
No Brasil, a Cup Series é transmitida em TV aberta pelo XSports. A NASCAR Brasil Series vai pela ESPN, pelo Disney+ e pelo canal oficial no YouTube. Nos Estados Unidos, o pacote de US$ 7,7 bilhões dividiu a temporada entre Fox (14 corridas), NBC (14), Prime Video (5) e TNT Sports (5).
Como funciona a NASCAR na prática: o campeonato virou um teste de regularidade
Tirar a eliminação do playoff parece detalhe burocrático. Não é. É uma declaração sobre o que a categoria decidiu premiar.
O formato eliminatório recompensava o pico: um domingo perfeito em maio comprava o ingresso, e uma final de quatro carros decidia dez meses de trabalho em 400 km. O Chase recompensa a base. O piloto que termina em 8º todo domingo bate o que vence cinco vezes e abandona quatro.
É a mesma matemática de qualquer atleta profissional que compete por temporada e não por prova única. O ranking do tênis, a classificação do ciclismo, a tabela do futebol. Ninguém fica no topo por causa do melhor dia. Fica por causa do pior dia ter sido aceitável.
Reddick tem o melhor pico de 2026. Hamlin tem a melhor média. Faltando seis corridas para o corte, é a média que está na frente.
Perguntas frequentes sobre a NASCAR
Como funciona a NASCAR? A NASCAR disputa 36 corridas pontuáveis por ano na Cup Series, divididas em 26 na fase regular e 10 no Chase. Os 16 primeiros da fase regular disputam o título, e campeão é quem somar mais pontos até a corrida final, em Homestead.
Quantas corridas tem a temporada da NASCAR? São 36 corridas que valem pontos, mais a Clash (exibição de abertura) e a All-Star Race, que não pontuam.
O que é o Chase da NASCAR? É o playoff da categoria, retomado em 2026. Reúne os 16 melhores da fase regular em 10 corridas, com reset de pontos e sem nenhuma eliminação ao longo do caminho.
Quanto pesa um carro da NASCAR? O carro Next Gen da Cup Series tem peso mínimo de 1.542 kg com piloto e combustível a bordo.
Qual a velocidade de um carro da NASCAR? Nos superovais de Daytona e Talladega os carros passam dos 320 km/h. O recorde histórico de volta é de Bill Elliott, 342,5 km/h em Talladega, em 1987.
Onde assistir NASCAR no Brasil em 2026? A Cup Series passa em TV aberta pelo XSports. A NASCAR Brasil Series é transmitida pela ESPN, pelo Disney+ e pelo canal oficial da categoria no YouTube.
Consistência vence pico. Vale para o piloto e vale para você.
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