Em fevereiro de 2023, um Chevrolet Camaro preto entrou no grid da Daytona 500 com rosas vermelhas espalhadas pela lataria, o nome de uma banda de rock em letras douradas nas laterais e um revólver cercado de flores desenhado no capô. Não era ação de marketing de um patrocinador de bebida energética tentando parecer jovem. Era o Guns N’ Roses, literalmente, patrocinando um carro de corrida.
E não era um carro qualquer. Era o número 43.

“Welcome to the NASCAR jungle”
O anúncio veio dias antes da prova, com a banda publicando o trocadilho inevitável nas redes: “Welcome to the NASCAR jungle”. A piada com “Welcome to the Jungle” escondia um acordo comercial bem calculado dos dois lados.
O Guns N’ Roses vivia um momento raro de reativação de catálogo. A banda tinha acabado de lançar o remaster super deluxe de Use Your Illusion, o primeiro tratamento do tipo desde o lançamento original dos álbuns em 1991, e estava no meio da turnê “We’re F’N’ Back”, a primeira desde 2019, com 75 shows espalhados por vários continentes.
Do outro lado, uma equipe que precisava desesperadamente de atenção.
Por que o número 43 não é um carro qualquer
Para quem acompanha a NASCAR, o 43 carrega o peso que o 10 carrega no futebol brasileiro. É o número de Richard Petty, apelidado de “The King”, dono de sete títulos da Cup Series e 200 vitórias, um recorde que ninguém chegou perto de ameaçar.
Aqui está a parte que quase ninguém notou na época. Em 11 de janeiro de 2023, poucas semanas antes daquela Daytona 500, a equipe Petty GMS anunciou que passaria a se chamar Legacy Motor Club. Foi a primeira vez desde a fundação da NASCAR, em 1949, que o nome Petty não apareceu em uma equipe da divisão principal.
Ou seja: na mesma temporada em que o 43 perdeu o sobrenome Petty da fachada, ele ganhou o brasão do Guns N’ Roses no capô. A troca não foi um acaso de calendário. Era uma equipe se reapresentando ao mercado, e ela escolheu fazer isso da forma mais barulhenta possível.
A Legacy Motor Club é copropriedade de Richard Petty e Jimmie Johnson, heptacampeão da categoria, que comprou participação na equipe em novembro de 2022. Johnson reagiu ao acordo com uma confissão pessoal:
“Meu primeiro show foi o Guns N’ Roses, no San Diego Stadium (Jack Murphy), em 1992. Posso garantir que o meu eu de 17 anos não viu essa chegando.”
Naquela mesma corrida, Johnson voltou ao volante em tempo parcial, pilotando o número 84.
O carro: preto, dourado e rosas
A pintura fugiu do óbvio. Em vez de reproduzir a capa de um álbum, o projeto tratou a identidade visual da banda como uma marca esportiva.
O Camaro ZL1 saiu predominantemente preto. O nome “GUNS N’ ROSES” apareceu em letras douradas gigantes nas laterais traseiras e na traseira. O 43 foi desenhado em branco com contorno dourado, o padrão clássico da equipe. Rosas vermelhas foram espalhadas pelo para-choque dianteiro e ao redor do número. E o capô inteiro virou tela para o brasão circular da banda, aquele do revólver cruzado com as duas rosas.
O resultado funcionou visualmente porque respeitou a gramática da NASCAR: número grande e legível, patrocinador dominante nas laterais, contraste alto para leitura a 300 km/h. A banda entrou no espaço do carro em vez de tentar transformar o carro em pôster.

118 voltas
A 65ª edição da Daytona 500 aconteceu no domingo, 19 de fevereiro de 2023, no Daytona International Speedway.
Erik Jones, o piloto do 43, largou em 25º. Ele nunca chegou perto de disputar a vitória.
Na volta 117, Kevin Harvick tocou Tyler Reddick e provocou um engavetamento que envolveu quase uma dúzia de carros. Foi o primeiro de vários acidentes múltiplos daquela tarde. Jones não passou da volta 118 e foi classificado em 37º lugar.
O carro mais fotografado do grid saiu de cena antes da metade da prova.
A ironia é que ele perdeu a corrida mais longa da história da Daytona 500. A prova foi a duas prorrogações e terminou com 212 voltas, superando o recorde anterior de 207, registrado em 2018 e 2019. Ricky Stenhouse Jr. venceu, batendo Joey Logano na última volta e encerrando um jejum de 199 corridas sem vitória. Christopher Bell, Chris Buescher e Alex Bowman completaram os cinco primeiros.
Enquanto isso, o Camaro preto com rosas já estava no caminhão.
O Guns N’ Roses não foi o primeiro
Rock e NASCAR se cruzam há mais tempo do que a maioria imagina, ainda que quase sempre em ações pontuais.
KISS já estampou um Chevrolet. Green Day, Nickelback, 311, Staind, Megadeth, Killswitch Engage e Dave Matthews Band também apareceram em carros de corrida americanos ao longo dos anos.
O caso mais elaborado talvez tenha sido o do 3 Doors Down. Em 2008, na corrida das estrelas, Dale Earnhardt Jr. correu com uma pintura retrô inspirada no “Gray Ghost” bancada pela música “Citizen Soldier”. A banda também já tinha emprestado a imagem dos integrantes para o capô de um carro da Xfinity Series pilotado por Tony Stewart.
O que separa o caso do Guns N’ Roses dos anteriores é a combinação de escala da banda com a carga simbólica do carro escolhido. Não foi um patrocínio de fundo de grid.
A lógica por trás do acordo
Patrocínio na NASCAR funciona de um jeito específico, e vale entender a mecânica antes de julgar o acordo pelo resultado da corrida.
Um carro da Cup Series é, na prática, um outdoor de 1.500 quilos transmitido para audiência nacional durante quatro horas. A Daytona 500 é a corrida de abertura da temporada e a mais assistida do calendário, o equivalente funcional ao Super Bowl da categoria. Comprar visibilidade ali é comprar o pico anual de atenção do esporte.
Para a banda, o retorno nunca dependeu do resultado esportivo. Dependia da conversa. E a conversa aconteceu: veículos de música que jamais cobriram uma corrida publicaram a pintura, e veículos de automobilismo que jamais falaram de rock publicaram a banda. Os dois públicos se cruzaram sem que a Legacy precisasse liderar uma única volta.
Existe ainda a camada de produto. O acordo gerou uma linha de miniaturas oficiais em várias escalas, camisetas em parceria entre a banda e a equipe, e peças autografadas de lataria do carro usado em Daytona. Três anos depois, esses itens continuam sendo vendidos e revendidos. Quem quiser entender melhor como esse mercado se organiza pode ler a análise sobre quem paga a conta do patrocínio na NASCAR e o guia sobre como funciona a NASCAR.

Onde estão os personagens em 2026
O Guns N’ Roses passou por aqui há poucos meses. Entre 1º e 25 de abril de 2026, a banda fez nove shows no Brasil, cobrindo Norte, Nordeste, Sul e Sudeste. A sequência começou em Porto Alegre, passou pelo Monsters of Rock no Allianz Parque, em São Paulo, e seguiu por São José do Rio Preto, Campo Grande, Cariacica, Salvador, Fortaleza, São Luís e Belém. A formação trouxe Axl Rose, Slash e Duff McKagan, ao lado de Dizzy Reed, Richard Fortus e Isaac Carpenter. Halestorm abriu em Porto Alegre e os Raimundos abriram os demais shows solo.
Erik Jones segue no 43. A Legacy Motor Club trocou a Chevrolet pela Toyota e o piloto corre hoje com um Camry XSE, sob o comando do chefe de equipe Justin Alexander. A temporada 2026 tem sido a melhor da equipe no ciclo recente: Jones terminou a Daytona 500 deste ano em 21º, venceu o primeiro stage da carreira em Texas e cravou um segundo lugar em Michigan, o melhor resultado do time no ano. Para quem quiser acompanhar, vale conferir onde assistir NASCAR no Brasil em 2026.
O que isso ensina sobre alta performance
A leitura preguiçosa dessa história é que o patrocínio deu errado porque o carro bateu.
A leitura correta é outra, e ela vale para qualquer atleta que dependa de patrocínio para viver do esporte.
O resultado da corrida estava fora do controle de todo mundo envolvido. Jones não escolheu ser atingido por um engavetamento provocado três carros à frente. Nenhum contrato, nenhum treino e nenhuma preparação eliminam esse risco.
O que estava sob controle era o ativo construído antes da largada. A pintura, a narrativa do acordo, o conteúdo gerado no anúncio, a linha de produtos licenciados. Tudo isso foi produzido e distribuído antes da bandeira verde e continuou existindo depois da bandeira quadriculada. É por isso que o carro virou item de colecionador mesmo tendo completado pouco mais de metade da prova.
Atleta que só entrega valor ao patrocinador quando vence constrói um negócio frágil, porque a vitória é a variável menos controlável da carreira. Atleta que constrói ativo próprio, audiência, narrativa e produto, sobrevive ao domingo ruim.
O Guns N’ Roses durou 118 voltas em Daytona. E três anos depois ainda se fala do carro.
Perguntas frequentes
O Guns N’ Roses realmente patrocinou um carro da NASCAR?
Sim. A banda foi patrocinadora principal do Chevrolet Camaro ZL1 número 43 da Legacy Motor Club na Daytona 500 de 19 de fevereiro de 2023, pilotado por Erik Jones.
Como o carro do Guns N’ Roses se saiu na corrida?
Erik Jones largou em 25º e abandonou após um engavetamento na volta 117, sendo classificado em 37º. Ele completou 118 das 212 voltas da prova.
Quem venceu a Daytona 500 de 2023?
Ricky Stenhouse Jr. venceu em duas prorrogações, batendo Joey Logano. Foi a Daytona 500 mais longa da história, com 212 voltas.
Por que o número 43 é importante na NASCAR?
É o número de Richard Petty, sete vezes campeão da Cup Series e recordista com 200 vitórias na categoria.
Outras bandas já patrocinaram carros na NASCAR?
Sim. KISS, Green Day, Nickelback, 3 Doors Down, 311, Staind, Megadeth, Killswitch Engage e Dave Matthews Band já estamparam carros em corridas americanas.
O resultado você não controla. O ativo que você constrói, sim.
Conheça a Atleta Pro Academy e leve a ciência da performance para o seu treino.





