A Copa do Mundo de 2026 terminou no domingo, com a Espanha levantando a taça no MetLife Stadium. Menos de 24 horas depois, o presidente da Conmebol já estava falando da próxima.
Alejandro Domínguez publicou nas redes sociais uma mensagem que começou como balanço e terminou como anúncio. Elogiou o torneio de 48 seleções, parabenizou a Fifa e a Espanha, e emendou que a edição de 2030 será em casa, com 64 seleções.
O problema é que a Fifa nunca disse isso.
A frase que a Conmebol soltou antes da hora
“Testemunhamos uma histórica Copa do Mundo da Fifa, a primeira de sempre a contar com 48 equipes, e foi um enorme sucesso”, escreveu Domínguez. “Parabéns ao meu querido Gianni Infantino e a todos os nossos amigos na Fifa por entregar um torneio tão excepcional. Parabéns à Espanha por se tornar a nova campeã do mundo.”
Até aí, protocolo de dirigente. O trecho seguinte é que virou notícia no continente inteiro.
“A próxima edição será em casa! A Copa do Mundo de 2030 acontecerá no Uruguai, na Argentina e no Paraguai. Uma grande oportunidade para o futebol celebrar o centenário da Copa do Mundo com uma competição que contará com 64 seleções.”
Repare no verbo. Não é “poderá contar”, não é “queremos que conte”. É “contará”. Domínguez tratou como decidido algo que nenhum órgão da Fifa aprovou até agora.

O que a Fifa realmente disse
Nada perto disso. Uma semana antes da final, ainda com o Mundial em andamento, Gianni Infantino foi perguntado sobre a expansão e respondeu no tempo verbal certo: “esse é certamente um tema que será analisado e debatido pelos comitês competentes após esta Copa do Mundo”.
Analisar e debater. Não aprovar.
O argumento que Infantino usa para manter a porta aberta é de desenvolvimento, não de bilheteria. Ele afirma que “o nível das seleções é extremamente alto e continua a melhorar globalmente” e que, “se não dermos aos países menores a oportunidade de participar da Copa do Mundo, eles perderão a motivação para evoluir”.
A ideia não nasceu com Domínguez. Surgiu numa reunião do Conselho da Fifa em março de 2025, levantada pelo presidente da federação uruguaia, Ignacio Alonso, com a justificativa do centenário: a primeira Copa foi disputada no Uruguai, em 1930, e a de 2030 fecha o ciclo de 100 anos. A Atleta Pro já detalhou por que a Fifa está mesmo estudando uma Copa de 64 seleções e quais são os números por trás da proposta.
O que mudou agora é o tom. A Copa de 2026 acabou, o prazo que Infantino tinha dado venceu, e a Conmebol resolveu falar como se a discussão já tivesse acontecido.
A conta que aperta o Brasil
Para o torcedor brasileiro, essa disputa política tem um número muito concreto do outro lado.
No formato de 48 seleções, a Conmebol tem seis vagas diretas mais uma na repescagem intercontinental. Parece confortável para uma confederação de dez filiadas. Só que três dessas seis vagas diretas já estão ocupadas.
Argentina, Uruguai e Paraguai entraram automaticamente por serem anfitriãs das partidas do centenário. Espanha, Portugal e Marrocos, sedes do grosso do torneio, também. São seis seleções classificadas antes de a bola rolar em qualquer eliminatória do planeta.
Resultado prático na América do Sul: sobram três vagas diretas e uma repescagem para sete seleções. Brasil, Colômbia, Equador, Chile, Peru, Bolívia e Venezuela vão brigar por isso.
É a eliminatória sul-americana mais apertada em décadas, e ela chega logo depois de um Mundial em que o Brasil caiu nas oitavas para a Noruega de Haaland. A margem de erro que existia no ciclo de 2026, quando seis seleções passavam direto, simplesmente evaporou.
Se a Copa de 2030 for aprovada com 64 seleções, a expectativa da Conmebol é receber mais vagas diretas. Aí a conta volta a respirar. É por isso que o discurso de Domínguez soa apressado: ele não está apenas comemorando o centenário, está defendendo o passaporte de metade do continente.
Vale o registro honesto: Conmebol e Fifa ainda não fecharam o formato oficial das Eliminatórias de 2030, e a distribuição final de vagas depende justamente da decisão sobre o tamanho do torneio.
Três jogos em casa, 101 do outro lado do Atlântico
Há um segundo interesse sul-americano na expansão, e ele é geográfico.
A Copa de 2030 será disputada em seis países e três continentes. Argentina, Uruguai e Paraguai recebem uma partida cada, como homenagem à edição inaugural de 1930. Espanha, Portugal e Marrocos recebem todo o resto. Dos 104 jogos previstos, 101 acontecem na Europa e na África.
Ou seja: o centenário do futebol sul-americano tem três jogos na América do Sul.

Com 64 seleções, cresce a possibilidade de Argentina, Uruguai e Paraguai sediarem uma fase de grupos inteira em vez de uma partida festiva cada. Isso significa mais jogos, mais público, mais receita e mais legado para o continente que inventou a competição. A leitura de bastidor é direta: a expansão vale menos pelo número de convidados e mais pelo que ela devolve às sedes sul-americanas.
O desenho atual já obriga a Fifa a improvisar. As seis seleções que jogam a estreia na América do Sul terão mais de dez dias de intervalo até a segunda rodada, apenas para atravessar o Atlântico, descansar e se adaptar. Nenhuma outra Copa da história pediu isso de um elenco.
A resistência: Europa, Concacaf e Ásia no mesmo lado
Do lado de fora da Conmebol, o entusiasmo é próximo de zero.
Aleksander Ceferin, presidente da Uefa, chamou a proposta de “má ideia”. Sua objeção tem duas pernas: “não é bom para o Mundial em si e também não é bom para as nossas eliminatórias”. A Europa teme diluir o produto e esvaziar a fase classificatória, que hoje sustenta calendário e receita das federações menores do continente.
A Concacaf foi na mesma direção. Victor Montagliani, seu presidente, disse à ESPN que não acredita “que expandir a Copa do Mundo masculina para 64 seleções seja a decisão certa para o torneio em si e para o ecossistema do futebol em geral, desde seleções nacionais a competições de clubes, ligas e jogadores”.
Na Ásia, o presidente da AFC, Sheikh Salman bin Ibrahim Al Khalifa, resumiu o efeito de uma nova expansão em uma palavra: caos.
O número que assusta é o de partidas. Uma Copa de 64 seleções teria 128 jogos, o dobro do Catar 2022 e bem acima dos 104 da edição de 2026. A Copa que acabou de terminar já ocupou 39 dias de calendário. Dobrar o volume de jogos significa mexer em temporadas de clubes, janelas de transferência, contratos de transmissão e carga física de atletas que já reclamam do que existe hoje.
O calendário que já está de pé
Enquanto a discussão política corre, a logística de 2030 avança com o desenho antigo.
O torneio está previsto para começar em 8 de junho de 2030, com as partidas comemorativas na América do Sul, e terminar em 21 de julho. A candidatura ibérico-marroquina apresentou 20 estádios: 11 na Espanha, seis no Marrocos e três em Portugal.
A referência histórica também está posta. A Copa saiu de 24 para 32 seleções em 1998, ficou nesse tamanho por sete edições e pulou para 48 em 2026, no Mundial que acabou de coroar a Espanha campeã no MetLife. Ir a 64 seria o terceiro salto em pouco mais de três décadas, e o mais brusco de todos.
Se a Fifa disser sim, o anúncio deve vir depois da avaliação de impacto esportivo, operacional e comercial do formato de 48. Se disser não, Domínguez terá feito um anúncio que nunca existiu.
O que isso ensina sobre alta performance
Existe uma armadilha silenciosa aqui, e ela vale muito além da política do futebol.
A Seleção Brasileira vai começar um ciclo de eliminatórias sem saber quantas vagas estão em jogo. Pode ser três diretas. Pode ser mais, se a expansão passar. A comissão técnica não controla nada disso, e o cronograma de preparação não pode esperar a Fifa decidir.
Atleta que planeja em cima do cenário favorável perde o ciclo. O planejamento correto é o inverso: preparar para a versão mais dura da regra e tratar qualquer alívio como bônus. Se o time se organiza para brigar por três vagas entre sete seleções, uma eventual expansão vira folga. Se ele se organiza contando com a expansão e ela não vem, o ciclo inteiro fica curto.
O mesmo raciocínio vale para o atleta amador que monta a temporada. O clima da prova, o número de inscritos, o horário da largada, o percurso que muda em cima da hora: nada disso está sob controle. O treino, a base aeróbica, a força, o sono e a nutrição estão.
A regra pode mudar. A preparação é a única variável que não depende de votação em Zurique.
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