Era quase 1 da manhã na França quando Felipe Fossati ligou a câmera no quarto de hotel e começou a falar baixo. Não era efeito de edição. Ele tinha chegado naquele quarto no mesmo dia e já havia descoberto que qualquer voz um pouco mais alta atravessava a parede.
A cerca de 1 km dali, num outro hotel, os ciclistas do Tour de France 2026 tentavam dormir depois de uma das etapas mais brutais desta edição. Fossati, ciclista, professor universitário e parceiro da Atleta Pro, está dentro da caravana. E o que ele conta do Tour é quase tudo aquilo que a transmissão de TV não mostra.
Quem é o brasileiro que está por dentro do pelotão
Felipe Fossati Reichert não é turista de prova. É professor na Escola Superior de Educação Física da Universidade Federal de Pelotas desde 2009, tem mestrado e doutorado, orienta em pós-graduação e passa de 100 artigos publicados em revistas científicas nacionais e internacionais. Foi ele quem criou a primeira disciplina acadêmica de “Ciclismo e MTB” de uma universidade brasileira.
Do outro lado, o currículo de estrada: mais de mil provas disputadas, mais de 400 pódios, cinco títulos gaúchos (1995 e 2007 no MTB, 2012, 2017 e 2018 no ciclismo de elite), quatro vitórias no geral do Desafio da Serra do Rio do Rastro, campeão de montanha do L’Étape Brasil 2019 e vice-campeão geral em 2020.
É essa dupla condição, ciência e pernas, que dá peso ao que ele está relatando da França. Fossati montou base em Genebra e acompanha as etapas finais do Tour por dentro, hospedado no mesmo hotel que o staff da NSN Cycling Team, equipe de licença suíça com base em Barcelona e Girona que corre o WorldTour em 2026 tendo Biniam Girmay como principal nome.
Às 2 da manhã, bateram na porta de Vingegaard
O fato mais pesado do domingo aconteceu antes de qualquer ciclista pedalar. Na madrugada de 18 para 19 de julho, Jonas Vingegaard foi acordado às 2h para um teste antidoping. Tadej Pogačar, o líder da geral, foi acordado às 5h.
Os controles foram conduzidos pela ITA, a Agência Internacional de Testes, dentro do programa antidopagem da UCI. Pelo regulamento, teste entre 23h e 5h só pode ser feito quando há “suspeitas sérias e específicas” de envolvimento com doping, e a ITA precisou pedir autorização a um juiz de liberdades e detenção em Paris para executar a operação. A agência afirmou que a testagem noturna é necessária para manter o programa efetivo e proteger a integridade das corridas.
Pogačar contou que tinha ido dormir por volta de 1h, foi acordado às 5h e não voltou a dormir. Ficou ouvindo Eminem e tomando café até a hora de largar. Chamou o procedimento de desumano. Remco Evenepoel usou a mesma palavra. A direção da Visma classificou o teste como necessário, mas o horário como longe do ideal.
Fossati, que acompanha a modalidade há três décadas dos dois lados do balcão, foi direto: nunca tinha ouvido falar de um atleta testado de madrugada, nem mesmo fora de competição.
Ele explica por que a regra mudou. Até alguns anos atrás existia uma janela protegida, mais ou menos das 22h30 às 6h, em que o atleta não podia ser incomodado. A janela caiu porque a farmacologia evoluiu: microdoses aplicadas no fim da noite podem já não ser detectáveis na manhã seguinte. Hoje, na teoria e agora na prática, o atleta pode ser testado 24 horas por dia, sete dias por semana.
O boato que Fossati não compra
Com a queda de Vingegaard horas depois, a internet fez a conta óbvia: noite mal dormida, atenção reduzida, derrapagem na rotatória. Pogačar chegou a levantar a hipótese de que o procedimento pode ter custado caro ao dinamarquês.
Fossati não compra. Ele registra a hipótese, diz que ela nunca poderá ser comprovada e emenda que, particularmente, não acredita nisso.
E aproveita para desmontar outro boato, esse mais antigo. Existe um burburinho de que Pogačar estaria acima demais dos outros e que isso explicaria a testagem. Fossati lembra o básico do regulamento que muita gente opina sem conhecer: quem vence etapa é testado, quem veste a camisa amarela é testado todos os dias, às vezes mais de uma vez por dia, e outros ciclistas são sorteados diariamente. O que ele deixa como pergunta em aberto é outra: por que só os dois? Por que não Evenepoel, terceiro da geral naquele momento, ou Paul Seixas, então líder dos jovens?
A logística que a transmissão não mostra

Aqui está a parte que mais interessa a quem treina. O brasileiro fez um raio-x do dia real de um ciclista de Grande Volta, e ele não se parece com o que aparece na tela.
A largada acontece entre meio-dia e 13h30, variando conforme a etapa. A chegada costuma ficar por volta das 18h. Da linha de chegada até o hotel podem se passar horas, com transferências longas de carro ou avião entre uma cidade e outra. O jantar acontece às 21h, 22h, às vezes 23h. Depois vem a organização das coisas e a tentativa de dormir para correr de novo no dia seguinte.
Some a isso o tamanho da operação. Fossati diz que a NSN leva ao Tour cerca de 34 pessoas de staff, sem contar os atletas. O staff fica num hotel e os ciclistas em outro, a cerca de 1 km. No hotel dele estão as equipes de apoio de NSN, Ineos e Uno-X ao mesmo tempo. Muitos atletas hoje viajam com o próprio colchão e o próprio travesseiro, porque o sono virou item de equipamento. “É um circo gigante”, resume.
Na mesma noite, antes de gravar, ele jantou e assistiu à final da Copa do Mundo com o time inteiro da NSN e gente da Ineos. No dia de descanso, pedalou com a equipe.
O rádio da UAE e a etapa que redesenhou o pódio
A etapa 15 terminou no Plateau de Solaison, 11,3 km a 9% de média. Vingegaard caiu a 21 km da chegada, fraturou a clavícula e abandonou. O pelotão hesitou, esperou para ver se ele voltava, e a corrida recomeçou quando ficou claro que não voltaria.
O detalhe que Fossati destacou é de manual de estratégia. No último quilômetro, com Pogačar, Del Toro e Evenepoel destacados, o rádio da UAE registrou o líder perguntando se podia ir aumentando o ritmo progressivamente. A resposta veio do próprio companheiro de equipe: “não me larga”.

Pogačar segurou. Em vez do ataque seco que costuma liquidar a questão, controlou o ritmo para levar Del Toro o mais perto possível da linha. Evenepoel percebeu que o esloveno estava se segurando, esperou o sprint final e venceu. Pogačar ficou em segundo, Del Toro em terceiro.
O saldo mudou a corrida: Pogačar segue líder, Evenepoel assumiu o segundo lugar a 5min, Del Toro é o terceiro a 5min58 e ainda tomou a camisa branca de Seixas por 25 segundos. Fossati resume o clima com honestidade de quem torce e analisa ao mesmo tempo: com a saída do dinamarquês o Tour perde graça, mas a briga pelas duas vagas restantes do pódio ficou completamente aberta.
Agora o contrarrelógio às margens do Lago Léman
Nesta terça-feira, 21 de julho, vem o único contrarrelógio individual desta edição: 26,1 km entre Évian-les-Bains e Thonon-les-Bains. O percurso sobe 9,6 km a 4,2% de média logo na largada, chega a cerca de 800 metros de altitude, desce por um trecho técnico e termina plano, onde os especialistas conseguem despejar potência. Pogačar é o último a largar, às 17h15 no horário local.
A leitura de Fossati para o resto do Tour é de quem conhece o desgaste acumulado: Evenepoel deve abrir tempo no contrarrelógio, mas tende a devolver parte dele nas etapas finais de sexta e sábado, que são duríssimas. E sobre a liderança, ele bate na madeira: não acredita que Pogačar perca, desde que nada aconteça.
O que isso ensina sobre alta performance
O episódio da madrugada devolve ao centro do debate uma variável que quase todo atleta amador trata como negociável: sono é treino.
Um ciclista de Grande Volta chega ao hotel às 20h, janta às 22h, deita depois da meia-noite e larga de novo no dia seguinte. Nesse contexto, perder três horas de sono não é desconforto, é subtração direta de recuperação. Por isso equipes profissionais carregam colchão e travesseiro pela Europa inteira. Não é frescura de estrela, é gestão de uma variável que responde por parte relevante do rendimento.
O paralelo com o atleta comum é desconfortável. Muita gente que treina para uma prova de fundo faz por escolha própria, todas as semanas, aquilo que a ITA fez uma vez com Vingegaard: dorme cinco horas, acorda às 4h30 para pedalar antes do trabalho e depois cobra do corpo um desempenho que ele não tem como entregar. Depois culpa o suplemento, a bike ou o treinador.
A segunda lição está na logística. A etapa não termina na linha de chegada. Termina quando o atleta está alimentado, hidratado e dormindo. Tudo que acontece entre um ponto e outro, transferência, reposição de carboidrato, horário de jantar, qualidade do colchão, é performance, não detalhe operacional.
E a terceira vem do rádio da UAE. O melhor ciclista do mundo tinha pernas para atacar e escolheu não atacar, porque o objetivo do time era maior que a vitória de etapa. Alta performance quase nunca é fazer tudo que se pode fazer. É saber qual das coisas possíveis vale a pena.
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