O Championship Tour da World Surf League volta a rodar neste sábado, depois de seis semanas parado, e volta pela porta mais estreita do calendário. A janela do Outerknown Tahiti Pro abre em 8 de agosto em Teahupo’o, no Taiti, e fica aberta até o dia 18. É a sétima das doze etapas da temporada, a primeira depois do intervalo de julho, e a que menos perdoa erro de cálculo.
O Brasil chega a ela com um pelotão inteiro no topo. Ítalo Ferreira é o segundo colocado do ranking mundial, com 33.845 pontos, 85 atrás do italiano Leonardo Fioravanti, líder com 33.930. Logo atrás vêm Yago Dora, Gabriel Medina, Miguel Pupo e Samuel Pupo. Cinco dos seis primeiros do mundo são brasileiros. E três deles já venceram na laje de coral que os espera nesta semana.
85 pontos, ou menos de uma colocação
A diferença que separa Ítalo da camisa amarela de líder cabe dentro de um único resultado. Em um ranking que distribui dezenas de milhares de pontos por etapa, 85 é margem de arredondamento: qualquer desencontro de colocação entre os dois no Taiti inverte a ordem.
E não são só dois. Fioravanti (33.930), Ítalo (33.845) e Yago Dora (32.950) estão separados por menos de mil pontos depois de seis etapas. O italiano assumiu a ponta vencendo Punta Roca, em El Salvador, e confirmou com o vice em Saquarema. Se sustentar a posição até dezembro, vai quebrar uma sequência longa: o último campeão mundial nascido na Europa foi o britânico Martin Potter, em 1989.
Ítalo tem no currículo o argumento que falta ao líder. Ele foi campeão em Teahupo’o em 2024, quando bateu o havaiano John John Florence na final, e venceu neste ano a etapa da Nova Zelândia, em Raglan. Também foi vice em El Salvador, justamente para Fioravanti.
Cinco brasileiros no top 6
O ranking masculino depois de seis etapas está assim:
| Pos. | Surfista | Pontos |
|---|---|---|
| 1 | Leonardo Fioravanti (ITA) | 33.930 |
| 2 | Ítalo Ferreira (BRA) | 33.845 |
| 3 | Yago Dora (BRA) | 32.950 |
| 4 | Gabriel Medina (BRA) | 27.610 |
| 5 | Miguel Pupo (BRA) | 27.130 |
| 6 | Samuel Pupo (BRA) | 24.640 |
Yago Dora é o atual campeão mundial e venceu em casa, em Saquarema, em junho, na etapa que bateu o recorde de premiação do surfe brasileiro. Miguel Pupo abriu a temporada vencendo Bells Beach, na Austrália. Medina chega em quarto depois de um 17º lugar no Rio, o pior resultado dele no ano. Filipe Toledo, bicampeão mundial, é apenas o 15º, com 17.150 pontos.
Teahupo’o costuma mexer nessa fila. Dos três brasileiros que venceram a etapa desde 2014, todos estão hoje entre os cinco primeiros do mundo: Medina foi campeão em 2014 e 2018, Miguel Pupo em 2022 e Ítalo em 2024. Nas seis edições realizadas desde 2018, o Brasil levou três.

Medina é o brasileiro com mais história no lugar. São dois títulos, seis finais e o bronze olímpico conquistado ali mesmo em 2024, na etapa dos Jogos de Paris que rendeu a foto mais reproduzida da carreira dele.
A previsão fala em algo perto do Code Red
O que pode transformar a etapa em outra coisa é o mar. O fotógrafo Tim McKenna, que vive no Taiti e registra a onda há décadas, disse ao site The Inertia que a série de tempestades formada no Pacífico Sul pode reproduzir o cenário de 2011.
“Sete dias seguidos de ondas acima de 10 pés em Teahupo’o parece o cenário de sonho para um evento ao vivo, mas este vai ser um pouco difícil de administrar por causa dos ventos e dos picos fortes dentro dos swells”, afirmou.
Segundo ele, o domingo, 9 de agosto, tem tudo para lembrar o episódio conhecido como Code Red, mesmo que em tamanho menor. Naquele agosto de 2011, as autoridades francesas suspenderam toda atividade recreativa no mar da Polinésia e a etapa foi adiada por questão de seguro e segurança. Kelly Slater acabou vencendo o evento remarcado.
A leitura de McKenna é que a organização deve conseguir retomar na segunda ou na terça, e que quarta e quinta apresentam as melhores condições de vento. Como a janela tem 11 dias, a WSL decide dia a dia quando roda.

O formato de 2026 tirou a rede de proteção
A temporada 2026 mudou de arquitetura, e a mudança pesa mais em uma onda como Teahupo’o. As rodadas sem eliminação acabaram: quem perde uma bateria está fora do evento, sem repescagem.
O calendário também foi partido em dois. As nove primeiras etapas formam a temporada regular. Depois delas, o circuito corta o pelotão para 24 homens e 16 mulheres, que disputam as três últimas paradas: Abu Dhabi, Peniche e Pipeline. Para a classificação valem os sete melhores resultados dos nove primeiros eventos. Para o título, os nove melhores dos doze.
A outra mudança é o fim do WSL Finals. O título volta a ser decidido por pontos, e o último ato é o Pipeline Masters, no Havaí, em dezembro, que vale 15 mil pontos ao campeão, uma vez e meia o que vale uma etapa comum.
Na prática, liderar em agosto vale menos do que valia. Restam três etapas de temporada regular, incluindo esta, e nenhuma delas fecha nada. É a mesma liga que, em julho, colocou o próprio nome à venda no mercado de patrocínio, atrás do dinheiro que vem de fora do surfe.
Luana Silva sozinha e em quarto
No feminino, o Brasil tem uma única representante no Championship Tour, e ela está bem. Luana Silva é a quarta colocada, com 31.835 pontos, atrás da havaiana Gabriela Bryan (35.065), da também havaiana Carissa Moore (33.490) e da norte-americana Sawyer Lindblad (32.970).
Luana ainda não venceu uma etapa em 2026, mas chegou a duas finais seguidas na Austrália, em Margaret River e no Gold Coast. Tatiana Weston-Webb, que se tornou mãe, não disputa a temporada completa e recebeu convite para 2027. O convite de maternidade criado pela WSL nesta temporada ficou com a francesa Johanne Defay.
Em Teahupo’o, a etapa feminina é recente: começou em 2022. As campeãs mais recentes são a australiana Molly Picklum, em 2025, e a francesa Vahine Fierro, em 2024.
Kelly Slater e os curingas do Taiti
A WSL entregou um convite que muda o clima do evento. Kelly Slater, 11 vezes campeão mundial, aos 54 anos e em recuperação de uma cirurgia no quadril, entra como wildcard. Em Teahupo’o, ele tem o recorde do evento: cinco títulos em sete finais.
“Estou animado de entrar como convidado em Teahupo’o este ano”, disse Slater no anúncio da liga.
Os outros dois convites saíram do Trials local e ficaram com taitianos: Eimeo Czermak, que estreia no Championship Tour, e Kelia Gallina, de 13 anos, na segunda participação dela na etapa.
Onde assistir no Brasil
A transmissão em português é feita pelas plataformas da própria WSL, o site e o aplicativo da liga. Em algumas etapas, o sinal também aparece nos canais da Globo, no SporTV e no ge. Como a janela vai de 8 a 18 de agosto e a competição só roda quando o mar coopera, a liga confirma na véspera se o dia seguinte tem baterias.
O que Teahupo’o cobra de quem quer título
Teahupo’o é a etapa em que o surfe de gestão de risco não funciona. A onda quebra sobre uma laje rasa de coral, e a diferença entre a nota alta e o hospital é a fração de segundo em que o surfista decide remar ou desistir. Não existe pontuação de consolação para quem entra na onda com meia convicção.
O formato novo do circuito copiou essa lógica e espalhou pela temporada inteira. Sem repescagem, cada bateria vale como uma final. Sem WSL Finals, nenhum resultado ruim pode ser apagado por um dia de sorte em setembro.
Para o atleta que acompanha de fora, a leitura é direta: performance sob pressão não se constrói no cenário bom. Constrói-se treinando o pior cenário até ele virar familiar. Os cinco brasileiros que estão no topo do ranking chegaram lá porque, em algum momento, remaram para dentro de uma onda que dava para deixar passar.
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