Uma marca de caixa de som e fone de ouvido virou uma das folhas de pagamento mais movimentadas do surfe e do skate brasileiro. Em março de 2026, a WAAW by Alok, empresa de áudio que o DJ Alok fundou em sociedade com a WAP, anunciou um time de 13 atletas embaixadores. Oito do surfe, cinco do skate. Entre eles, um campeão mundial da WSL, um medalhista olímpico e uma menina que virou a primeira brasileira campeã mundial de skate park.
O detalhe que interessa a quem vive de esporte no Brasil não é a lista de nomes famosos. É a outra metade dela: cinco das 13 vagas foram para atletas de base, incluindo um skatista de 13 anos e duas surfistas de 17 e 18 anos. Uma marca que não vende prancha, shape nem roupa técnica decidiu pagar atleta jovem antes de ele chegar ao pódio adulto. Esse tipo de patrocínio, o que vem de fora do esporte, é hoje a fatia que mais cresce no orçamento dos atletas brasileiros de modalidades olímpicas menores.
Os 13 atletas do squad da WAAW by Alok
O time foi montado pelo team manager Dani Grubba e apresentado no fim de março de 2026. A divisão ficou assim:
| Atleta | Modalidade | Destaque |
|---|---|---|
| Lucas Chumbo | Surfe, ondas gigantes | Recordista da maior onda já surfada no Brasil, 14,82 m na Laje da Jaguaruna (SC). Segundo ano na marca |
| Yago Dora | Surfe, Championship Tour | Campeão mundial da WSL em 2025 |
| Michelle des Bouillons | Surfe, ondas grandes | Principal nome feminino brasileiro nas ondas gigantes |
| Mateus Herdy | Surfe, Championship Tour | Estreante na elite da WSL em 2026 |
| Lucas Fink | Surfe, ondas gigantes | Parceiro de Lucas Chumbo nas séries de tow-in em Nazaré |
| Ryan Kainalo | Surfe | Nova geração do surfe de competição |
| Alexia Monteiro | Surfe | 18 anos, catarinense, 5ª no ranking profissional brasileiro |
| Luara Mandelli | Surfe | 17 anos, bicampeã brasileira de base e 9ª do mundo no Pro Junior da WSL |
| Pedro Barros | Skate park | Oito vezes campeão mundial e prata em Tóquio 2020 |
| Luigi Cini | Skate park | Nome fixo da seleção brasileira na modalidade |
| Raicca Ventura | Skate park | Primeira brasileira campeã mundial de park, em Roma, 2024 |
| Vini Palma | Skate | Multicampeão paulista e campeão brasileiro sub-14 |
| Eiki Martello | Skate | 13 anos, campeão estadual do Rio e primeiro no Campeonato Nacional LAB |

Pedro Barros é o nome mais pesado do grupo no currículo puro. Foi o primeiro brasileiro a subir ao pódio olímpico do skate park, com a prata em Tóquio 2020, quando somou 86,14 pontos na final vencida pelo australiano Keegan Palmer, com 95,83. Antes disso já era hexacampeão do X-Games e campeão do primeiro Mundial de park da história, em 2018, na China.
Yago Dora entrou no time como campeão mundial em exercício. Ele fechou o título de 2025 em Cloudbreak, nas Fiji, batendo Griffin Colapinto por 15,66 a 12,33 na final e levando US$ 200 mil de premiação. Foi o quinto brasileiro a ser campeão mundial de surfe. Em 2026 o formato mudou: a WSL aposentou os Finals e voltou a decidir o título por pontos ao longo de 12 etapas, com desfecho em Pipeline.
Por que uma marca de som paga patrocínio de atletas de surfe e skate
A resposta curta: porque ela não está comprando resultado esportivo, está comprando ambiente. A WAAW não vende nada que o atleta use para competir. Vende fone e caixa de som, que é exatamente o objeto que aparece no aquecimento, no deslocamento até o pico, no intervalo entre baterias e na volta para casa.
Esse é o patrocínio chamado não endêmico: a marca vem de fora do universo do esporte e entra pelo estilo de vida. É o mesmo mecanismo que colocou um banco digital nas costas da camisa do Inter Miami e que faz montadora patrocinar maratona. A empresa não disputa espaço com a marca de prancha ou de shape, ela ocupa outro pedaço da rotina do atleta.
A WAAW by Alok nasceu em 14 de março de 2022, quando a Fresnomaq Indústria de Máquinas S/A, dona da WAP, anunciou a sociedade com o DJ. Os produtos chegaram às lojas em junho do mesmo ano. Hoje o catálogo tem 38 itens, de fones com cancelamento de ruído a caixas da linha INFINITE, que vão de 160 a 1000 W RMS. Alok não é apenas rosto: é sócio, participa do desenvolvimento dos produtos e desenhou o logotipo a partir de um rascunho feito durante uma turnê pela Europa.

A lógica do squad está na fala dele no anúncio. “Música e esporte compartilham a mesma essência: ritmo, disciplina e emoção. O surfe e o skate são meus refúgios, onde encontro a liberdade e a conexão necessárias para me superar”, disse Alok. Paulo Sanford, CEO da WAP e da WAAW by Alok, foi mais direto sobre o critério de escolha: “Todos os embaixadores que aceitaram este convite acreditam na essência e nos valores da marca. Respeita a sua batida é mais do que um slogan, está no nosso DNA”.
Traduzindo do idioma corporativo: a marca escolheu por afinidade cultural, não por ranking. Isso muda completamente quem consegue entrar.
Mateus Herdy quase virou professor de surfe por falta de dinheiro
Doze dias antes do anúncio do squad, em 13 de março de 2026, Mateus Herdy garantiu na praia de Newcastle, na Austrália, a vaga que perseguia havia seis anos. Ele terminou entre os melhores do Challenger Series 2025/26 e entrou pela primeira vez no Championship Tour, a elite da WSL, aos 25 anos. É o primeiro surfista nascido e criado em Florianópolis a chegar lá.
O caminho até essa vaga é o retrato do problema. Foram seis temporadas rondando a zona de classificação sem entrar, com dificuldade financeira constante. Herdy chegou a considerar largar o circuito profissional para dar aula de surfe na Praia da Joaquina, em Florianópolis. Não por falta de talento, ele já tinha sido campeão mundial júnior em 2018, mas por falta de dinheiro para bancar a temporada.

O custo de uma temporada internacional de surfe é o filtro invisível do esporte. Passagem, hospedagem, taxa de inscrição, técnico, equipamento e câmbio consomem o orçamento antes de qualquer premiação. Quem não tem patrocínio não completa o calendário, e quem não completa o calendário não pontua. O ciclo é conhecido por qualquer atleta brasileiro que já tentou se manter num circuito mundial, e o Atleta Pro já detalhou essa conta em o preço de ser atleta no Brasil.
Herdy chegou à elite e a um contrato de marca na mesma quinzena. Não é coincidência: patrocinador não endêmico costuma se mover exatamente no momento em que o atleta cruza uma linha de visibilidade.
Cinco vagas para a nova geração, e o que elas significam
O pedaço mais instrutivo do squad é o de baixo da lista. Ryan Kainalo, Alexia Monteiro, Luara Mandelli, Vini Palma e Eiki Martello entraram como nova geração.
Luara Mandelli tem 17 anos, é bicampeã brasileira em categorias de base, está há quatro anos na seleção brasileira júnior e terminou o Pro Junior da WSL nas Filipinas em nono lugar, entrando no top 10 mundial da categoria em fevereiro de 2026. Alexia Monteiro tem 18 anos, é catarinense e ocupa a quinta posição do ranking profissional brasileiro. Vini Palma é multicampeão paulista e campeão brasileiro sub-14 no skate. Eiki Martello tem 13 anos, é campeão estadual do Rio de Janeiro e ganhou o Campeonato Nacional LAB.
Nenhum deles tem título mundial adulto. Todos têm consistência documentada em categoria de base, presença de seleção e conteúdo próprio circulando. Para uma marca que compra ambiente, esse conjunto vale mais barato agora do que valeria depois do primeiro pódio grande, e vem com uma vantagem: relação longa. Lucas Chumbo, que está no segundo ano de contrato, é a prova de que a marca renova quem funciona.
Raicca Ventura mostra o que acontece quando a aposta dá certo. Ela tinha 17 anos quando venceu o Mundial de skate park em Roma, em 2024, com 93,73 pontos na final, e virou a primeira brasileira campeã mundial da modalidade. Antes disso, tinha sido quarta no Mundial de 2023 e prata no Pan de Santiago. Quem a patrocinava em 2023 pagou um preço de promessa por uma campeã mundial.
O que a marca cobra em troca
O acordo não é doação. Em patrocínio de lifestyle, a contrapartida principal é conteúdo, não resultado. A marca quer aparecer nos momentos da rotina que o atleta já publica: preparação, viagem, treino, recuperação, bastidor. Foi assim que a WAAW descreveu a operação do squad, presença em todos os momentos da jornada esportiva.
Na prática, isso significa entregas mensais de imagem e vídeo, presença em ativações de data comemorativa, disponibilidade para campanha e uso visível do produto. É um contrato de mídia com forma de patrocínio. O atleta que entende isso negocia melhor e renova. O que trata o contrato como prêmio por mérito esportivo costuma perder na renovação, porque entregou ranking quando a marca pediu audiência.
Vale a comparação com o outro extremo do mercado. No UFC, por exemplo, o lutador não escolhe patrocinador dentro do octógono: recebe um valor de tabela do fornecedor oficial, que vai de US$ 4 mil para o estreante a US$ 42 mil para o campeão, conforme detalhado em patrocínio no UFC. No surfe e no skate acontece o inverso: o atleta monta o próprio portfólio de marcas, e quem sabe vender espaço de rotina ganha mais do que quem só sabe competir.
Como conseguir patrocínio de atletas de surfe e skate na prática
Se a marca compra ambiente e consistência, o atleta precisa provar exatamente essas duas coisas. O caminho que aparece nos casos do squad da WAAW se repete em outros mercados:
- Ter resultado rastreável em categoria de base. Campeonato estadual, nacional, ranking de federação, seleção. Não precisa ser título mundial, precisa ser verificável.
- Publicar com regularidade, não com perfeição. A marca avalia se o atleta produz sozinho. Um vídeo por semana filmado no celular vale mais do que um ensaio profissional por semestre.
- Montar um media kit honesto. Números reais de alcance, seguidores, cidades onde compete e público que assiste. Inflar dado é o jeito mais rápido de queimar a marca no segundo contrato. Quem nunca montou um pode usar este passo a passo de media kit.
- Procurar marcas de fora do esporte. Fone, boné, energético, banco, aplicativo, marca de bebida. O espaço endêmico já está tomado pelos mesmos três ou quatro fornecedores.
- Chegar com proposta, não com pedido. A grande maioria das marcas grandes não aceita candidatura espontânea, elas prospectam. Como funciona esse filtro está explicado em como ser patrocinado pela Nike.
O ciclista Igor Selau é um exemplo brasileiro de quem inverteu essa lógica sozinho e saiu de duas camisetas por ano para contratos internacionais, num método que ele mesmo descreveu.
O que isso ensina sobre alta performance
Existe uma leitura confortável desse anúncio: um DJ famoso resolveu bancar atletas. Ela é falsa. O que a WAAW montou é uma carteira de ativos com prazos diferentes, e a lição serve para qualquer atleta que ainda espera o patrocínio chegar por mérito esportivo.
A marca comprou três coisas ao mesmo tempo. Comprou credibilidade imediata com Pedro Barros e Yago Dora, que entregam autoridade no primeiro dia. Comprou densidade com Chumbo, Fink e Michelle des Bouillons, que produzem imagem espetacular o ano inteiro. E comprou tempo com os cinco da base, que custam pouco agora e podem valer muito em três anos.
Para o atleta, a conclusão prática é dura e útil: a carreira não é decidida só na bateria. Herdy passou seis anos com nível técnico de elite e quase parou por falta de estrutura. O que destravou não foi um salto de talento, foi resultado somado a visibilidade no momento certo. Quem trata comunicação como tarefa secundária está deixando metade da carreira nas mãos do acaso.
E o recado para quem está na base é ainda mais direto. Eiki Martello tem 13 anos e já tem contrato porque compete, ganha e aparece. Não porque esperou o pódio adulto para começar a construir a própria imagem.
Perguntas frequentes sobre o patrocínio da WAAW by Alok
Quem são os atletas patrocinados pela WAAW by Alok?
São 13: Lucas Chumbo, Yago Dora, Michelle des Bouillons, Mateus Herdy, Lucas Fink, Ryan Kainalo, Alexia Monteiro e Luara Mandelli no surfe; Pedro Barros, Luigi Cini, Raicca Ventura, Vini Palma e Eiki Martello no skate.
O que é a WAAW by Alok?
É uma marca brasileira de áudio, com fones e caixas de som, criada em março de 2022 pela Fresnomaq Indústria de Máquinas S/A, dona da WAP, em sociedade com o DJ Alok. Os produtos chegaram ao mercado em junho de 2022.
Alok é dono da WAAW ou só empresta o nome?
Ele é sócio da marca, participa da estratégia e do desenvolvimento dos produtos e desenhou o logotipo a partir de um esboço feito durante uma turnê europeia.
Quanto a WAAW paga aos atletas do squad?
Os valores dos contratos não foram divulgados pela marca nem pelos atletas. Qualquer cifra que circule sobre o acordo é estimativa de imprensa.
Como um atleta de surfe ou skate consegue patrocínio de marca de fora do esporte?
Com resultado verificável em categoria de base, publicação regular de conteúdo próprio, um media kit com números reais e prospecção ativa de marcas não endêmicas, que compram estilo de vida e não apenas ranking.
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