Jannik Sinner abriu o Instagram na tarde de sexta-feira, 21 de agosto, e escreveu o que vinha empurrando havia duas semanas. O número 1 do mundo não vai jogar o US Open de 2026. O joelho direito, que o tirou de Toronto e de Cincinnati, também o tira do último Grand Slam da temporada.
É a primeira vez que o italiano falta a um Grand Slam desde 2019, quando estreou no circuito profissional. E é apenas a segunda vez em 53 anos de ranking da ATP que o líder da lista simplesmente não aparece em Nova York. A outra foi Pete Sampras, em 1999.
A mensagem que Sinner publicou
O anúncio não veio por assessoria nem por nota da ATP. Veio direto do perfil dele, com uma foto e um texto curto que passou de 350 mil curtidas no primeiro dia.
“Mesmo tendo trabalhado duro com minha equipe e meu corpo médico, tivemos agora que tomar a decisão difícil de que eu não vou conseguir competir no US Open este ano. Voltamos à quadra em Monte Carlo nos últimos dias e percebemos que ainda preciso de mais tempo para me recuperar do problema no joelho direito. Estou obviamente muito triste e decepcionado, porque Nova York tem um lugar especial no meu coração. Eu estava ansioso para voltar e jogar naquela atmosfera elétrica, diante daquele público incrível.”
A frase decisiva está no meio: “voltamos à quadra em Monte Carlo nos últimos dias”. Sinner não estava parado esperando o corpo responder. Ele testou. Bateu bola. E o teste reprovou.

O joelho travou logo depois do melhor momento do ano
A cronologia é cruel porque começa no ponto mais alto. Em 12 de julho, Sinner bateu Alexander Zverev por 6/7 (7), 7/6 (2), 6/3 e 6/4 e ficou com o bicampeonato de Wimbledon, o quinto Grand Slam da carreira. Virou o décimo homem da Era Aberta a defender o título na grama de Londres.
Doze dias depois, em 24 de julho, veio a primeira desistência: o Masters 1000 do Canadá. Em 9 de agosto, caiu Cincinnati. Em 21 de agosto, o US Open. Desde aquela final em Wimbledon, Sinner não entrou em quadra para valer uma única vez.
O balanço de 2026 até aqui explica o tamanho da ausência: 44 vitórias e 3 derrotas, aproveitamento de 93,6%, retrospecto de 10 a 1 contra jogadores do top 10 e seis títulos (Indian Wells, Miami, Monte Carlo, Madri, Roma e Wimbledon). Ele se tornou o primeiro homem da história a vencer cinco Masters 1000 consecutivos e completou o Golden Masters aos 24 anos.
As três derrotas foram a semifinal do Australian Open contra Novak Djokovic, depois de abrir dois sets de vantagem, e a queda na segunda rodada de Roland Garros para Juan Manuel Cerúndolo, então número 56 do mundo, num jogo em que liderava por 5/1 no terceiro set sob calor extremo em Paris.

Só Sampras tinha feito isso, e a história tem um brasileiro dentro
O ranking computadorizado da ATP existe desde 1973. Em todo esse tempo, o número 1 do mundo faltou ao US Open exatamente duas vezes. A primeira foi em 1999, com Pete Sampras.
O americano vinha de conquistar Wimbledon e de quatro torneios seguidos. Era o favorito absoluto em casa. No fim de semana anterior ao início da chave, foi treinar na quadra Grandstand do complexo de Flushing Meadows e sentiu uma hérnia de disco. O parceiro de treino daquele dia era Gustavo Kuerten.
“Eu estava treinando com o Kuerten na quadra Grandstand e senti um incômodo nas costas”, contou Sampras depois. Ele não jogou o torneio. Vinte e sete anos depois, Sinner repete a estatística, com um joelho no lugar da coluna e um anúncio no Instagram no lugar da entrevista coletiva.
O que muda na chave de Nova York
A ausência reorganiza o topo. Com Sinner fora, Alexander Zverev assume a condição de primeiro cabeça de chave em Nova York. Carlos Alcaraz fica como segundo, Felix Auger-Aliassime como terceiro e Novak Djokovic como quarto. A lista oficial de cabeças de chave sai na segunda-feira, 24 de agosto, e a chave principal começa no dia 30.
Para o Brasil, há um detalhe que interessa: João Fonseca sobe uma posição na lista de favoritos e deve entrar como 25º cabeça de chave. É a primeira vez que o carioca de 19 anos disputa o US Open protegido no sorteio. O portal já detalhou o que separa Fonseca das oitavas de final em Nova York.
A simetria da semana é o que dá a dimensão do momento. Na quinta-feira, 20 de agosto, Carlos Alcaraz anunciou que volta a jogar no US Open depois de mais de quatro meses parado com uma tenossinovite no punho direito, lesão que o tirou de Roland Garros e de Wimbledon. Vinte e quatro horas depois, Sinner anunciou que sai. Os dois maiores nomes do circuito trocaram de lugar em um dia.
Alcaraz é o atual campeão e defende os 2.000 pontos que conquistou em cima do próprio Sinner na final de 2025.
O posto de número 1 não está em jogo
Faltar a um Grand Slam custa caro, mas não custa a liderança. Sinner tem cerca de 12.800 pontos no ranking da ATP, contra aproximadamente 7.890 de Zverev e 7.160 de Alcaraz. A vantagem, na casa dos 5 mil pontos, é maior do que tudo o que está em disputa em Nova York.
Na prática, o italiano perde os 1.300 pontos que somou como vice-campeão em 2025 e segue líder com folga. O número 1 do mundo vai assistir ao torneio da Europa e continuar sendo o número 1 do mundo no dia seguinte à final.
Vale o registro de quanto ele está deixando na mesa: o US Open de 2026 distribui a maior premiação da história do tênis, US$ 108 milhões no total, com US$ 5,5 milhões para cada campeão de simples.
Quando Sinner volta a jogar
Segundo a equipe do italiano, o plano é permanecer na Europa e seguir a recuperação com os departamentos médico e de performance. O alvo é a temporada asiática de setembro, com os torneios de Pequim e Xangai.
Não há data cravada. E o próprio texto do anúncio deixa claro por quê: a decisão de sexta-feira só foi tomada depois que o joelho respondeu mal a um teste real em quadra. Prometer um retorno específico agora seria repetir o erro que já custou três torneios.
Quem quiser acompanhar o Grand Slam sem ele encontra o detalhamento de canais e horários no guia de onde assistir ao US Open 2026 no Brasil.
O que isso ensina sobre alta performance
Dois dias antes de desistir, Sinner era assunto no Atleta Pro justamente por causa da estrutura mental que construiu, a frieza treinada que faria dele o nome a bater em Nova York. A desistência não contradiz aquilo. Ela é a mesma disciplina aplicada a uma decisão que dói.
O atleta amador costuma tratar lesão como negociação. Toma anti-inflamatório, encurta o aquecimento, promete pegar leve e entra na prova assim mesmo, porque a inscrição já foi paga e os amigos vão estar lá. O profissional de elite faz o oposto: transforma a lesão em teste objetivo e aceita o resultado do teste.
Foi exatamente isso que aconteceu em Monte Carlo. Sinner não decidiu pela dor nem pelo palpite do fisioterapeuta. Ele foi para a quadra, jogou, mediu a resposta do joelho e leu o dado. O dado disse não. A decisão veio do dado, não da vontade.
Há um segundo aprendizado, mais frio. Sinner abriu mão do maior prêmio da história do tênis e de 2.000 pontos possíveis para proteger uma articulação. Ele calculou que o custo de forçar em agosto era maior do que o custo de perder agosto inteiro. Atleta que só enxerga o calendário da semana seguinte nunca faz essa conta.
A parte que quase ninguém copia é a antecedência. Sinner desistiu nove dias antes do início da chave principal, não na véspera da estreia nem no meio do primeiro set. Sair cedo preserva o corpo, preserva o torneio e preserva a própria cabeça, porque elimina a semana de dúvida que corrói mais do que a lesão.
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