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Ipiranga, Mobil e Shell saem da Stock Car: quem paga a conta agora

Rubens Barrichello usa boné da Mobil no pit walk da Stock Car, com o logo da Mobil e o número 111 ao fundo

Em 8 de dezembro de 2025, a Ipiranga comunicou que encerrava 17 anos de patrocínio na Stock Car. Quinze dias depois, em 23 de dezembro, a Mobil anunciou a própria saída, depois de 19 temporadas na categoria. Em 26 de fevereiro de 2026, a Shell confirmou que não estamparia nenhum carro do grid. Três marcas do mesmo setor deixaram a principal categoria do automobilismo brasileiro em menos de três meses.

O espaço foi preenchido, mas não por quem saiu. Quem banca a Stock Car em 2026 é um banco privado e uma plataforma de comércio eletrônico. A categoria trocou combustível por crédito e por publicidade digital, e essa troca conta mais sobre o mercado de patrocínio esportivo no Brasil do que a tabela de pontos.

Três saídas do mesmo setor em menos de três meses

MarcaTempo na categoriaAnúncio da saídaO que patrocinava
Ipiranga17 anos8 de dezembro de 2025Equipes e pilotos, com Thiago Camilo como principal nome
Mobil19 anos23 de dezembro de 2025Full Time Sports, incluindo os naming rights da equipe
Shelldesde 201226 de fevereiro de 2026Carro de Gianluca Petecof em 2025

A Ipiranga foi a primeira a sair. A empresa dava nome à Ipiranga Racing e tinha em Thiago Camilo o piloto mais associado à marca. Em nota, informou que “a decisão decorre da revisão periódica do portfólio de patrocínios da marca”.

Carro da Stock Car com as cores amarela, laranja e azul da Ipiranga estacionado no box da equipe
Carro nas cores da Ipiranga no box da Stock Car em El Pinar, no Uruguai, em 2024. Foto: NaBUru38 / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

A Mobil veio em seguida. Era a principal patrocinadora da Full Time Sports, detinha os naming rights da equipe de Maurício Ferreira e estampava em 2025 os carros de Rubens Barrichello, de Dudu Barrichello e de Antonella Bassani. A empresa afirmou que “seguirá envolvida com o esporte a motor no Brasil”, com foco na Porsche Cup e na Fórmula 1, onde patrocina a Red Bull. A Full Time, que já alinhou cinco carros na Stock Car, começou 2026 com dois.

A Shell fechou a sequência em fevereiro. Presente no grid desde 2012, segundo o Grande Prêmio, redirecionou o investimento para Matheus Comparatto, na Porsche Cup, e para Ricardo Zonta, na NASCAR Brasil. Nenhum carro da Stock Car leva a marca nesta temporada.

Box da Shell na Stock Car, com totem Shell V-Power e Shell Helix e carro vermelho e amarelo em manutenção
Box com a marca da Shell na etapa de El Pinar, no Uruguai, em 2024. Foto: NaBUru38 / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

A conta da temporada de 2025

As três saídas têm um antecedente comum. Segundo apuração do Grande Prêmio, a decisão da Mobil de encerrar 19 anos de parceria não teria acontecido se a temporada de 2025 tivesse transcorrido normalmente.

O ano foi marcado por problemas técnicos e de segurança. Relatórios do Conselho Técnico Desportivo Nacional e de comissários desportivos da Confederação Brasileira de Automobilismo, obtidos pelo mesmo veículo, apontaram que os carros estavam inaptos a ir à pista em 10 das 11 primeiras rodadas do ano. O acidente entre Bruno Baptista e João Paulo de Oliveira na etapa de Brasília, que desintegrou os dois carros, virou ação judicial movida pelo próprio Baptista contra a categoria.

Patrocínio esportivo é compra de associação. Quando o produto que a marca comprou começa a aparecer no noticiário por relatório de segurança, o cálculo do departamento de marketing muda de sinal.

O banco entrou onde a distribuidora saiu

Em 15 de junho de 2026, o Bradesco assumiu o patrocínio máster da categoria para as temporadas de 2026 e 2027. A competição passou a se chamar Bradesco Stock Car Pro Series, e o contrato se estendeu às outras provas do Grupo Veloci, que viraram Bradesco TCR Brasil, Bradesco TCR South America e Bradesco Fórmula 4 Brasil.

O banco substituiu o BRB, que ocupava o posto desde 2021. A estreia da marca aconteceu na etapa de Cuiabá, em 19 e 20 de junho, a única do calendário com provas noturnas. Nenhum valor de contrato foi divulgado por nenhuma das partes.

Box do banco BRB na Stock Car, com placa da equipe A.Mattheis Vogel ao lado e carros nos boxes
Box com a marca do banco BRB, patrocinador máster da Stock Car até 2026, em El Pinar, no Uruguai. Foto: NaBUru38 / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

“O automobilismo conecta tecnologia, inovação e alta performance, valores que fazem parte da essência do Bradesco”, afirmou Renato Camargo, CMO do banco. A instituição já vinha ampliando a presença na modalidade desde 2025, apoiando pilotos como Léo Reis, Rafael Reis, Heitor Dall’Agnol e Rafael Câmara.

Para a categoria, o movimento tem um efeito colateral relevante. Ao sair do BRB e entrar no Bradesco, a Stock Car trocou um banco público estadual por um banco privado de varejo, com uma base de clientes nacional e um interesse comercial diferente no que a pista entrega.

O Mercado Livre não comprou cota, comprou a equipe

A mudança mais estrutural veio de outro setor. Em 26 de fevereiro de 2026, o Mercado Livre anunciou que teria equipe própria na temporada. A Mercado Livre Racing nasceu com operação técnica da A.Mattheis, dona de 68 vitórias, 70 poles e cinco títulos de pilotos na categoria, e com Hélio Castroneves, Thiago Camilo e Cesar Ramos ao volante.

A A.Mattheis é exatamente a estrutura que se chamava Ipiranga Racing. Thiago Camilo e Cesar Ramos são exatamente os pilotos que a Ipiranga patrocinava. A distribuidora saiu em dezembro e o marketplace assumiu o naming rights do mesmo time, com os mesmos carros, em fevereiro.

O detalhe comercial é o que diferencia o caso. O Mercado Livre não comprou uma cota de exposição. Ele passou a vender cotas. Através do Mercado Ads, o braço publicitário da empresa, marcas de qualquer categoria podem comprar espaço nos carros, nos macacões dos pilotos e na comunicação da equipe. O patrocinador virou intermediário de patrocínio.

A lógica é de negócio, não de torcida. “Nossa entrada na Stock Car Pro Series também fortalece uma vertical estratégica para o negócio, como a de veículos, peças e acessórios, na qual somos líderes de vendas online no Brasil e temos mais de 11 milhões de anúncios ativos, sendo a de maior volume dentro da plataforma”, disse Roberta Donato, vice-presidente de marketplace da empresa. Ela citou ainda 5 milhões de usuários ativos no segmento de autopeças.

A empresa não é estreante no automobilismo. Na Fórmula 1, patrocina o brasileiro Gabriel Bortoleto, na Audi, e o mexicano Sergio Pérez, na Cadillac. Movimento parecido com o que transformou o grid da categoria mundial, onde os patrocinadores da F1 em 2026 levaram o investimento a um recorde histórico.

A mudança que ninguém colocou no comunicado

Existe uma quarta alteração no mapa de 2026, e ela define o preço de qualquer cota vendida daqui para a frente. Em fevereiro, o Grupo Globo não renovou o acordo de transmissão firmado 26 anos antes, e o SporTV deixou de exibir a categoria na TV por assinatura. A Band ficou com a exclusividade.

A etapa de Santa Cruz do Sul, em agosto, foi transmitida de graça pelo canal Esporte na Band no YouTube, pelo aplicativo Bandplay e pelo Band.com.br.

Uma categoria que perde a TV paga e ganha o YouTube muda o produto que está vendendo. Deixa de vender alcance certificado por audiência de TV e passa a vender engajamento digital mensurável. São coisas diferentes, com compradores diferentes. Não por acaso, quem entrou foram um banco de varejo e uma empresa que vive de mensurar clique. O mesmo deslocamento já apareceu no patrocínio na NASCAR, onde setores novos ocuparam o espaço dos anunciantes tradicionais.

Quem ficou, e o que aconteceu com quem ficou

A leitura de que o setor de combustíveis abandonou em bloco a Stock Car precisa de uma ressalva. A Lubrax, marca de lubrificantes da Petrobras, continua na categoria e dá nome à Lubrax TMG, terceira colocada no campeonato de equipes.

A Petronas também renovou. Em março, a Petronas Lubrificantes Brasil confirmou a continuidade com a Scuderia Bandeiras, no quarto ano consecutivo com Átila Abreu. O acordo, no entanto, durou pouco na pista.

Em 1º de julho, a Scuderia Bandeiras deixou o grid com efeito imediato, um dia depois de o STJD do Automobilismo manter por unanimidade as desclassificações de Rubens Barrichello e de Nelson Piquet Jr. na etapa de Interlagos, por irregularidade nas pinças de freio. A equipe, que tinha Christian Fittipaldi como chefe, alegou insegurança jurídica e descumprimento contratual pela Vicar e pela Audace Tech, citando cobranças de cerca de R$ 800 mil referentes às adaptações da nova motorização e de R$ 157 mil pelo Truck Lounge de Interlagos. A categoria sustenta que o processo respeitou o direito de defesa e que as punições envolvem segurança.

Barrichello, Piquet Jr. e Átila Abreu ficaram sem vaga e passaram a aparecer na classificação oficial sob a designação “Sem Equipe”. Foi a segunda estrutura a deixar o grid em 2026. A primeira tinha sido a SG28 Racing, que anunciara a primeira dupla totalmente feminina da história da categoria, com Tatiana Calderón e Bruna Tomaselli, e perdeu a vaga em abril sem que as pilotas chegassem a correr.

A temporada começou com 34 carros, número recorde. Terminará com menos.

O que isso ensina sobre alta performance

O calendário segue. Felipe Fraga lidera com 705 pontos após sete etapas, 183 à frente de Gabriel Casagrande, e a Stock Car volta a Curvelo em 5 e 6 de setembro, com a Corrida do Milhão marcada para 15 de novembro no Velopark e a Super Final em Interlagos, em 13 de dezembro.

Mas a lição de 2026 não está na tabela. Está na frase do comunicado da Ipiranga: “revisão periódica do portfólio de patrocínios”. Nenhum atleta, nenhuma equipe e nenhuma categoria perde patrocínio por um único motivo, e quase nunca por um motivo que esteja sob o próprio controle. A decisão nasce numa planilha, num setor inteiro, numa mudança de estratégia que não tem nada a ver com o resultado de domingo.

Três consequências práticas para quem vive de patrocínio.

A primeira é concentração. Uma equipe cuja receita depende de um setor só está a uma revisão de portfólio de distância de ficar sem carro na pista. A Full Time saiu de cinco carros para dois quando a Mobil foi embora. Diversificar a base de patrocinadores não é luxo de time grande, é gestão de risco.

A segunda é entrega mensurável. As marcas que entraram na categoria em 2026 não compraram um adesivo. O Bradesco comprou quatro competições e uma base de relacionamento. O Mercado Livre comprou uma operação inteira para revender espaço dentro dela. O patrocinador de hoje quer saber quanto vendeu, não quanto apareceu. Quem não sabe medir o que entrega, não tem o que negociar. É a mesma régua que separa quem consegue de quem não consegue fechar uma parceria, como mostra o guia sobre como conseguir patrocínio esportivo.

A terceira é reputação. As três saídas do setor de combustíveis não aconteceram depois de uma temporada ruim de resultados. Aconteceram depois de uma temporada ruim de notícias. Para atleta, equipe e categoria, o histórico de segurança, de conduta e de organização vale exatamente o mesmo que o histórico de vitórias na hora em que o contrato vai para a mesa.

Quem entende isso cedo negocia. Quem entende tarde recebe um comunicado sobre revisão periódica de portfólio.

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Foto de Diogo Moraes
Diogo Moraes

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