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Pogacar abre 3min21 na Vuelta e caça o clube dos oito imortais

Tadej Pogacar em posição de contrarrelógio com a bicicleta da UAE Team Emirates

A Vuelta a España 2026 tem 21 etapas. Tadej Pogacar precisou de quatro delas, e de apenas três dias de corrida de verdade, para transformar a prova mais imprevisível do calendário numa contagem regressiva.

O esloveno da UAE Team Emirates XRG venceu o contrarrelógio de abertura em Mônaco, venceu a etapa de montanha em Andorra com um ataque solo de 50 quilômetros e chega à quinta etapa, nesta quarta-feira, com 3 minutos e 21 segundos de vantagem sobre o segundo colocado. Faltam 17 etapas para a chegada em Granada, em 13 de setembro. E existe um detalhe que explica por que ele está correndo assim tão cedo: a camisa vermelha da Vuelta é a única peça que falta na estante dele.

O que já aconteceu nas quatro primeiras etapas

A 81ª edição da Vuelta largou em 22 de agosto no Principado de Mônaco, passou pela França e por Andorra antes de entrar na Espanha, e termina em Granada em 13 de setembro. O traçado original previa cerca de 3.300 quilômetros e mais de 57 mil metros de altimetria acumulada.

EtapaDataPercursoVencedor
122/8Mônaco, contrarrelógio de 9,4 kmTadej Pogacar
223/8Mônaco a Manosque, 204 kmMatthew Brennan
324/8Gruissan a Font Romeu, 174 kmCancelada (granizo)
425/8Andorra la Vella, 104,8 kmTadej Pogacar

No contrarrelógio de abertura, com só 9,4 quilômetros, Pogacar bateu Ethan Hayter por 9 centésimos de segundo. Parece pouco. Não é: no mesmo trecho ele já tinha aberto 46 segundos para Felix Gall e 50 segundos para Oscar Onley, dois dos escaladores que apostavam na Vuelta como corrida da vida.

No dia seguinte, em Manosque, o britânico Matthew Brennan levou a melhor no sprint. Foi a última etapa em que o assunto principal não foi o líder.

Os 50 quilômetros que decidiram a corrida cedo demais

Tadej Pogacar com a camisa de campeão mundial puxando o pelotão ao lado dos companheiros da UAE Team Emirates
Pogacar e o trem da UAE no controle do pelotão. Foto: Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

A quarta etapa era um circuito de 104,8 quilômetros dentro de Andorra, com 3.000 metros de altimetria e quatro subidas catalogadas: o Port d’Envalira (2.409 m), a Collada de Beixalis, o Coll d’Ordino e o Alto de la Comella.

Pogacar atacou na Beixalis, a 50 quilômetros da linha de chegada. Ninguém foi atrás por muito tempo. Ele venceu a etapa com 2 minutos e 39 segundos de vantagem sobre o primeiro perseguidor, o jovem belga Jarno Widar.

É a fuga solo mais longa da carreira dele numa Grande Volta. O recorde anterior era de 43 quilômetros, no Tour de France, e antes dele havia uma marca de 39 quilômetros até a Plataforma de Gredos, justamente na Vuelta de 2019, a única que ele tinha disputado até agora. Foi também a quinta vitória de etapa dele na prova espanhola: três em 2019, duas em 2026.

Primoz Roglic tentou. Faltando cerca de 5 quilômetros de subida, o esloveno da Red Bull Bora Hansgrohe acelerou para colar no ataque e por alguns minutos pareceu o Roglic de 2019. Não colou.

A classificação geral depois de quatro etapas

Pogacar completou as quatro etapas em 7h38min59s. Atrás dele, a corrida já mudou de assunto: a briga real passou a ser pelo pódio.

Pos.CiclistaEquipeDiferença
1Tadej PogacarUAE Team Emirates XRG7h38min59s
2Primoz RoglicRed Bull Bora Hansgrohe+3min21s
3Enric MasMovistar+3min32s
4Sepp KussVisma Lease a Bike+3min44s
5Oscar OnleyNetcompany INEOS+3min45s
6Richard CarapazEF Education EasyPost+3min50s
7Felix GallDecathlon CMA CGM+3min57s
8Mattias SkjelmoseLidl Trek+4min06s
9Jarno WidarLotto Intermarché+4min06s
10Jay VineUAE Team Emirates XRG+4min11s

Nas outras classificações, o cenário é o mesmo. Pogacar lidera a de pontos com 82, contra 37 de Ethan Hayter e 30 de Matthew Brennan, e a de montanha com 23 pontos, contra 10 de Lorenzo Fortunato. Ou seja: vermelha, verde e bolinhas azuis estão todas com o mesmo ciclista. A camisa branca de melhor jovem é de Oscar Onley, com 21 segundos sobre Widar.

O que Pogacar persegue não é uma Vuelta

Em 2026 ele já ganhou o quinto Tour de France, igualando Jacques Anquetil, Eddy Merckx, Bernard Hinault e Miguel Indurain no clube dos pentacampeões. Tem dois títulos mundiais de estrada, o Giro de 2024 e mais de cem vitórias como profissional. A Vuelta é a lacuna.

Só oito ciclistas venceram as três Grandes Voltas ao longo da carreira: Anquetil, Felice Gimondi, Merckx, Hinault, Alberto Contador, Vincenzo Nibali, Chris Froome e, desde este ano, Jonas Vingegaard, que fechou a conta ao ganhar o Giro de 2026. Se Pogacar chegar de vermelho a Granada, será o nono nome dessa lista, aos 27 anos.

Sua única Vuelta anterior foi a de 2019, aos 20 anos: três vitórias de etapa, camisa branca de melhor jovem e terceiro lugar na geral.

Quem sobrou para brigar

Primoz Roglic em contrarrelógio com o uniforme da Red Bull Bora Hansgrohe
Primoz Roglic, tetracampeão da Vuelta, é o segundo colocado na geral. Foto: Hugo LUC / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

O nome mais forte da resistência é Roglic, tetracampeão da Vuelta e o ciclista que melhor entende essa corrida. Aos 36 anos, ele perdeu tempo em Andorra, mas a etapa mostrou que a perna ainda responde. Se a briga for pelo segundo lugar, ele larga favorito.

Enric Mas é o eterno candidato espanhol, e a Movistar vai correr em casa a partir da quinta etapa. Sepp Kuss, campeão da Vuelta de 2023, assumiu a liderança da Visma Lease a Bike depois que Jonas Vingegaard, vencedor da edição de 2025 e do Giro deste ano, ficou fora da corrida por causa da fratura de clavícula sofrida no Tour de France. O time holandês chega sem seu líder natural.

Richard Carapaz, campeão olímpico e conhecido do público brasileiro pelas fugas no Tour, aparece em sexto, a 3min50s. Ele já provou neste ano que sabe caçar etapa e camisa de montanha quando a geral escapa.

Entre os jovens, Oscar Onley e Jarno Widar são os dois nomes a acompanhar. Widar, de 20 anos, foi o único a segurar a diferença abaixo de três minutos na etapa de Andorra.

O granizo que apagou uma etapa inteira

A terceira etapa, de 174 quilômetros entre Gruissan e Font Romeu, simplesmente não aconteceu. Uma tempestade de granizo pegou o pelotão na estrada, os ciclistas pararam por conta própria e se abrigaram num prédio à beira da via. A organização cancelou a etapa.

Foi a primeira grande interferência do tempo nesta Vuelta, e ela mexeu com a corrida: uma etapa de montanha a menos significa uma chance a menos de recuperar tempo antes da Espanha.

A prova também já tem baixas. O guatemalteco Sergio Chumil, da Burgos BH, foi o primeiro a abandonar, depois de uma queda forte na segunda etapa entre Mônaco e Manosque, com traumatismo cranioencefálico.

O que vem pela frente

A partir da quinta etapa, nesta quarta-feira, entre Falset e Roquetes, a Vuelta é espanhola do começo ao fim. E o desenho do percurso concentra o peso na segunda metade.

EtapaDataChegadaO que está em jogo
728/8ValdelinaresPrimeira chegada em alto na Espanha
930/8Alto de AitanaFecha a primeira semana
123/9Calar AltoSubida longa e de vento
145/9Sierra de la PanderaRampas clássicas da Vuelta
1810/9Jerez de la FronteraContrarrelógio de 32,1 km
1911/9Peñas Blancas210,8 km, a etapa mais longa
2012/9Collado del AlguacilÚltima montanha, na Sierra Nevada

O contrarrelógio da 18ª etapa é o detalhe cruel para quem persegue o líder. São 32 quilômetros contra o relógio numa fase em que Pogacar historicamente não perde tempo, colados em duas etapas de montanha pesadas. Quem quiser tirar três minutos dele precisa fazer isso antes de 10 de setembro.

Onde assistir a Vuelta a España 2026 no Brasil

A transmissão no Brasil é do canal ESPN 3 e do streaming Disney+, com todas as etapas ao vivo e narração em português. Os horários variam conforme o tamanho do percurso, e o detalhamento etapa a etapa está no guia de transmissão da Vuelta 2026.

O que isso ensina sobre alta performance

O ataque de Andorra parece impulso. Não é. Pogacar atacou a 50 quilômetros da chegada numa etapa de apenas 104,8 quilômetros, ou seja, quase metade da prova em esforço solo, no quarto dia de uma corrida de três semanas. Isso não é coragem, é leitura de contexto: ele sabia que tinha vantagem de contrarrelógio, sabia que a etapa seguinte era plana e sabia que o pelotão ainda estava em fase de reconhecimento.

Para o atleta amador, a lição é menos sobre potência e mais sobre calendário. O ataque certo é o que acontece no dia em que o adversário ainda está se organizando, não no dia em que todo mundo espera. Quem só ataca quando o roteiro manda atacar entrega a vantagem antes de sair da roda.

A segunda lição vem da tempestade. A etapa cancelada tirou de Roglic, Mas e Carapaz uma das poucas oportunidades de montanha antes da Espanha. Ninguém controla granizo. Controla-se apenas o quanto se aproveitou das oportunidades que apareceram antes dele.

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Foto de Diogo Moraes
Diogo Moraes

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