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Rodrigo Koxa e a onda de 29,15 m: o veredito sai em 19 de setembro

Surfista descendo a parede de uma onda gigante na Praia do Norte, em Nazaré, com jet ski de resgate ao fundo

Praia do Norte, Nazaré, Portugal. Sexta-feira, 19 de dezembro de 2025. Rodrigo Koxa, 46 anos, está atrás de um jet ski pilotado por Vitor Faria, esperando não uma onda qualquer, mas a terceira da série, que é quando a bancada submarina de Nazaré costuma entregar a parede mais limpa. Ele entra, desce, e sai vivo do outro lado. Na cabeça dele, ali, aquilo tinha entre 27 e 28 metros. A medição preliminar viria depois, com um número maior: 29,15 metros, o equivalente a 95,64 pés.

Se o número se sustentar, é a maior onda já surfada por um ser humano registrada até hoje, com folga sobre o recorde oficial, de 26,21 metros. Nove meses depois, o brasileiro está entre os três finalistas da categoria Maior Onda Masculina do Big Wave Challenge, e a decisão sai em 19 de setembro de 2026, na gala do prêmio no Lido Theater, em Newport Beach, na Califórnia. Só que ganhar o prêmio e retomar o recorde mundial são duas coisas diferentes, e essa distinção é o ponto que quase ninguém está contando direito.

A onda: o Pico 1, a terceira da série e um piloto de 25 anos de estrada

Nazaré não é uma onda de sorte. É uma onda de leitura. O canhão submarino que corre em direção à Praia do Norte funciona como um funil que concentra a energia da ondulação e cospe paredes de altura desproporcional ao resto da costa portuguesa. Quem surfa ali não improvisa: escolhe o pico, escolhe a série e escolhe o ângulo de entrada.

Farol de Nazare lotado de espectadores enquanto uma onda gigante quebra na Praia do Norte
O farol de Nazaré, referência de escala do pico e ponto de observação da Praia do Norte. Foto: Wikimedia Commons, CC BY 2.0.

Koxa mirou a formação conhecida como Pico 1, mais perto do farol, e esperou a terceira onda do trem. A entrada foi de tow-in, rebocado por Vitor Faria, o piloto de jet ski que trabalha com ele há 25 anos. É a dupla mais longeva em atividade em Nazaré, e isso não é anedota: no big wave, o piloto decide onde e quando soltar o surfista, o que significa que metade da onda já foi surfada antes de o atleta largar a corda. Segundo o relato do próprio Koxa, ele precisou adaptar a trajetória por causa da velocidade da água, mais rápida do que o previsto na descida.

A sessão não foi durante uma competição. O Nazaré Big Wave Challenge, a etapa de tow surfing da WSL naquela temporada, tinha sido disputado seis dias antes, em 13 de dezembro, com vitória de outro brasileiro, Lucas “Chumbo” Chianca. A onda de Koxa veio num swell de free surf, o que é a regra no big wave: recorde não se marca em bateria, se marca quando o mar deixa.

De onde sai o número 29,15

A medição preliminar foi feita pelo cinegrafista e especialista em ondas gigantes Paulo Vinicius, que publicou em vídeo o passo a passo do método usado. O processo não é palpite: envolve calibrar a imagem com referências de escala conhecidas no enquadramento, corrigir a distorção da lente e do ângulo de câmera e projetar a medida da base ao topo da parede no instante correto da descida.

É esse trabalho que separa “onda gigante” de “onda mensurável”. Nazaré recebe centenas de ondas grandes por temporada, e quase nenhuma vira número, porque medir exige um registro em condições específicas, com ângulo, distância e referência adequados. Foi por isso que o próprio Koxa errou para menos ao estimar 27 ou 28 metros no calor do momento. Ninguém mede onda pelo susto.

Vale registrar o que ainda não é: 29,15 m é medição preliminar, não homologação. Enquanto o processo oficial não fecha, o número correto a usar é “estimativa”, e o recorde mundial segue com outro nome.

Jet ski minusculo diante da parede de espuma de uma onda gigante em Nazare, mostrando a escala do pico
A escala real do pico: um jet ski de resgate diante da parede de espuma na Praia do Norte. Foto: Walterpeitz, Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.

O recorde que Koxa teve e perdeu

Em 8 de novembro de 2017, Koxa surfou em Nazaré uma onda de 24,38 metros (80 pés) e superou os 78 pés que Garrett McNamara, seu mentor, tinha marcado no mesmo lugar em 2011. O reconhecimento veio em 30 de abril de 2018, no Big Wave Awards, e o brasileiro entrou para o Guinness World Records como autor da maior onda já surfada. Ele segurou o posto por cerca de cinco anos.

Perdeu para o alemão Sebastian Steudtner. A onda de Steudtner é de 29 de outubro de 2020, também em Nazaré, e foi homologada em 2022 com 26,21 metros (86 pés). É esse o recorde vigente hoje.

A biografia ajuda a entender o tamanho do que está em jogo. Rodrigo Augusto do Espírito Santo nasceu em Jundiaí, no interior de São Paulo, em 22 de setembro de 1979, e começou a surfar no Guarujá em 1988. A cerimônia da Califórnia acontece três dias antes de ele completar 47 anos. Se o número for confirmado, ele terá reaberto a disputa pelo recorde quase uma década depois de tê-lo conquistado pela primeira vez, numa modalidade em que a maioria dos atletas já saiu de cena bem antes disso.

A fila do recorde tem mais de um nome

Aqui está a parte que a cobertura em português costuma pular. Mesmo que a onda de Koxa seja confirmada em 29,15 metros, ela não entra numa fila vazia.

Steudtner tem uma onda pendente. Em 24 de fevereiro de 2024, o alemão surfou em Nazaré uma parede medida em 28,57 metros (93,73 pés) por um sistema de drone desenvolvido pela Porsche Engineering junto com a equipe dele. Se o Guinness ratificar essa, o próprio Steudtner supera o recorde que já detém, e o número a ser batido deixa de ser 26,21 e passa a ser 28,57. A margem de Koxa, nesse cenário, cai de quase três metros para menos de sessenta centímetros. Até esta publicação, a onda de 2024 seguia sem homologação oficial.

Ou seja: existem duas medições não homologadas acima do recorde vigente, feitas por metodologias diferentes, por equipes diferentes, esperando o mesmo carimbo.

Pessoa sozinha na falesia da Praia do Norte diante de uma onda gigante de Nazare em preto e branco
Nazaré recebe centenas de ondas grandes por temporada, e quase nenhuma vira número oficial. Foto: Wikimedia Commons, CC BY 3.0.

Quem carimba o recorde mudou de dono

E o carimbo trocou de mãos há pouco tempo. A WSL assumiu em 2022 o papel de verificadora oficial dos recordes de ondas gigantes, com o programa Big Wave Record Chase, e devolveu essa função ao Guinness World Records a partir de 13 de setembro de 2025, alegando foco estratégico em eventos ao vivo. Na temporada 2024/2025, sob a WSL, nenhum recorde novo foi validado.

A consequência prática é direta para a data de 19 de setembro: a gala do Big Wave Challenge premia a maior onda da temporada, não homologa recorde mundial. São dois trilhos separados. Koxa pode subir ao palco em Newport Beach como autor da maior onda do ano e ainda assim esperar meses pelo processo do Guinness, que é lento por natureza. Em 2017 e 2018, no caso dele mesmo, foram quase seis meses entre a onda e o reconhecimento.

Quem acompanha a modalidade já viu esse filme. Existe um vício antigo de anunciar recorde mundial toda vez que alguém desce uma parede grande em Nazaré, e a maioria desses anúncios nunca vira homologação.

Dois dos três finalistas são brasileiros

A categoria Maior Onda Masculina do Big Wave Challenge 2026 tem três nomes, e os três surfaram na Praia do Norte: Rodrigo Koxa, Lucas “Chumbo” Chianca e o francês Clement Roseyro. Ou seja, dois terços da disputa pela maior onda do ano do planeta são brasileiros.

Nazaré domina a premiação inteira. São dez indicações vindas da Praia do Norte, distribuídas em quatro categorias: Maior Onda Masculina, Maior Onda Feminina, Maior Remada Masculina e Wipeout do Ano, onde Chumbo também aparece. As indicações de Onda do Ano, masculina e feminina, fugiram do padrão e vieram de Teahupo’o e de Mullaghmore Head, na Irlanda.

O peso do Brasil nas ondas gigantes acompanha o momento do país no surfe de competição. Na mesma temporada, Ítalo Ferreira assumiu a liderança do Circuito Mundial da WSL, e o dinheiro em volta da modalidade cresceu a ponto de o Rio Pro bater o recorde de premiação da história do surfe.

O período de espera entre a onda e o veredito virou tema de um documentário curto, “Déjà Vu”, que acompanha os bastidores de Koxa nesses nove meses. O título é uma piada com a própria situação: o mesmo surfista, o mesmo pico, a mesma espera por um número que já valeu um recorde uma vez.

O que isso ensina sobre alta performance

Tem uma lição desconfortável nessa história, e ela não é sobre coragem.

Koxa surfou a onda em dezembro. O resultado sai em setembro. São nove meses em que o atleta não tem absolutamente nada sob controle: não pode treinar melhor, não pode reapresentar a performance, não pode influenciar a medição. O desempenho acabou no instante em que ele saiu da parede, e tudo o que veio depois é processo de terceiros.

É uma situação mais comum no esporte do que parece. O maratonista que corre a prova classificatória e espera o índice. O ciclista que cruza a linha e espera o comissário. O lutador que vence e espera o ranking. A competência que separa quem sustenta carreira de quem se desgasta não é performar sob pressão, é conviver com a espera sem que ela contamine o próximo ciclo de treino. Quem fica nove meses refém de um veredito perde nove meses de preparação.

A segunda lição é sobre método. A onda de Koxa não foi sorte de estar no lugar certo. Foi um pico escolhido, uma série contada, um piloto com 25 anos de leitura conjunta e uma trajetória corrigida em tempo real por causa da velocidade da água. O resultado espetacular é a ponta visível de uma preparação chata e repetitiva. No big wave isso é literal: erro de posicionamento não custa pontos, custa afogamento.

E a terceira é sobre longevidade. Aos 46 anos, numa modalidade que castiga o corpo, Koxa continuou na água tempo suficiente para estar presente no dia em que o mar entregou a onda da década. Não existe atalho para isso. Existe permanência. É a mesma lógica que sustenta Kelly Slater competindo aos 54 anos: o talento abre a porta, a permanência é que cobra o prêmio.

Longevidade no esporte não é sorte, é método.

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Foto de Diogo Moraes
Diogo Moraes

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