Ítalo Ferreira deixou Teahupo’o sem o troféu e com a lycra amarela de líder do mundo. A contradição aparente se resolve com uma conta simples: o brasileiro perdeu a semifinal do Outerknown Tahiti Pro para o havaiano Seth Moniz por 15.76 a 13.83, na quinta-feira, dia 13, mas o italiano Leonardo Fioravanti, que liderava o ranking desde junho, já tinha caído na segunda rodada, três dias antes.
O terceiro lugar valeu 6.085 pontos ao potiguar. A queda precoce rendeu 1.000 ao italiano. Ítalo entrou na etapa 85 pontos atrás e saiu dela 5.000 à frente. Restam cinco etapas no Championship Tour, e o título mundial só será decidido em dezembro, no Havaí.
Moniz esperou sete temporadas por uma vitória
Quem levou o troféu foi o havaiano que ninguém apontava. Seth Moniz, de 28 anos, venceu a primeira etapa de Championship Tour da carreira na sétima temporada no circuito, batendo o americano Griffin Colapinto na final por 18.17 a 14.67, com dois tubos avaliados em 9.07 e 9.10.
O caminho até lá foi o mais duro possível. Moniz eliminou seis adversários seguidos, entre eles o atual campeão mundial Yago Dora, na segunda rodada, por 15.97 a 14.33, e o próprio Ítalo, então número 1 do mundo, na semifinal.
“Essa semana inteira foi surreal. Surfe é um esporte muito difícil. Eu coloquei muito trabalho nisso e finalmente valeu a pena”, disse o havaiano depois da final.
A vitória fez Moniz subir 12 posições e chegar ao 19º lugar do ranking. Na chave feminina, a canadense Erin Brooks, de 19 anos, também conquistou a primeira etapa da carreira no CT, ao bater a israelense Anat Lelior por 17.20 a 16.33.

A conta que devolveu a liderança ao brasileiro
A troca na ponta do ranking não aconteceu na semifinal de Ítalo, e sim na segunda rodada de Fioravanti. O italiano chegou ao Taiti com 33.930 pontos e foi eliminado pelo marroquino Ramzi Boukhiam, ficando em 17º lugar. Somou os 1.000 pontos da colocação e parou em 34.930.
Ítalo desembarcou com 33.845, apenas 85 pontos atrás do líder. O terceiro lugar em Teahupo’o lhe rendeu 6.085 pontos e o levou a 39.930. A diferença de 85 pontos virou uma vantagem de exatos 5.000 em uma única etapa.
O ranking masculino ficou assim depois de sete das doze etapas:
| Pos. | Surfista | Pontos |
|---|---|---|
| 1 | Ítalo Ferreira (BRA) | 39.930 |
| 2 | Leonardo Fioravanti (ITA) | 34.930 |
| 3 | Yago Dora (BRA) | 33.950 |
| 4 | Miguel Pupo (BRA) | 30.450 |
| 5 | Gabriel Medina (BRA) | 28.610 |
| 6 | Ethan Ewing (AUS) | 28.575 |
| 7 | George Pittar (AUS) | 26.705 |
| 8 | Griffin Colapinto (EUA) | 26.290 |
Quatro dias sem entrar na água
O detalhe que a tabela não mostra é que Ítalo competiu machucado. Ele chegou ao Taiti com uma lesão nas costas sofrida poucos dias antes e passou a semana anterior à estreia fora d’água, assistindo aos outros surfarem.
“Precisava da prancha e de uma muleta. Faz parte, não ia abrir mão, ia tentar. Não surfei nos últimos quatro dias, fiquei assistindo a galera surfar. Fiz fisio, a dor continua, é bem localizada, na hora que agacha para colocar no tubo atrapalha, dói para ficar em pé na prancha”, contou o surfista.
A limitação é específica e cruel para o lugar em que ele estava competindo: agachar dentro do tubo é exatamente o gesto que Teahupo’o cobra em todas as ondas.
Mesmo assim, a campanha foi sólida. Ítalo estreou na segunda rodada contra o sul-africano Luke Thompson e venceu por 9.17 a 1.87. Nas oitavas, passou pelo japonês Connor O’Leary. Nas quartas, eliminou o australiano Ethan Ewing por 15.50 a 11.94, com notas de 8.33 e 7.17, na melhor bateria dele na etapa.
Campeão mundial em 2019 e ouro olímpico em Tóquio, Ítalo já tinha vencido em Teahupo’o em 2024, quando bateu John John Florence na final. Nesta temporada, venceu a etapa de Raglan, na Nova Zelândia, e foi vice em Punta Roca, em El Salvador, justamente para Fioravanti.

Quatro brasileiros entre os cinco primeiros do mundo
O Taiti não foi generoso com o resto da delegação, e ainda assim o Brasil terminou a etapa ocupando quatro das cinco primeiras posições do ranking mundial.
Yago Dora, atual campeão mundial, e Filipe Toledo, bicampeão, caíram na mesma segunda rodada e dividiram o 17º lugar, com 1.000 pontos cada. Filipe perdeu para Connor O’Leary por 4.06 a 1.63, em uma bateria de pouquíssimas ondas. Yago foi eliminado pelo futuro campeão da etapa.
Gabriel Medina, que tem dois títulos e seis finais em Teahupo’o, caiu para o mais improvável dos adversários: Kelly Slater, de 54 anos, na competição como convidado, venceu por 19.06 a 16.10 com notas de 9.73 e 9.33, doze anos depois da final que os dois fizeram no mesmo pico, em 2014.
Miguel Pupo chegou às oitavas de final e subiu para o quarto lugar do mundo. Samuel Pupo caiu na segunda rodada e aparece em nono.
O que ainda pode mudar até dezembro
A liderança de agosto vale menos do que parece, e o motivo é o novo formato da temporada. Em 2026, o título mundial não sai mais de um dia de finais entre cinco surfistas: ele é definido pelos nove melhores resultados de cada atleta ao longo das doze etapas.
A próxima parada é Cloudbreak, em Fiji, com janela de 25 de agosto a 4 de setembro. Depois vem Lower Trestles, na Califórnia, de 11 a 20 de setembro, e é ali que a temporada regular se encerra. Terminadas as nove primeiras etapas, o pelotão masculino é cortado de 36 para 24 surfistas, que seguem para Abu Dhabi, em outubro, e Peniche, em Portugal, entre outubro e novembro.
O ponto final é o Pipe Masters, no Havaí, de 8 a 20 de dezembro. A etapa distribui 15.000 pontos, 50% a mais do que uma etapa comum, e recebe todos os surfistas do circuito, inclusive os que ficaram fora do corte. Os oito primeiros do ranking entram com vantagem no chaveamento. Na prática, cinco mil pontos de folga em agosto não garantem nada em dezembro.
O que isso ensina sobre alta performance
Ítalo assumiu a liderança do mundo num dia em que perdeu. É o tipo de resultado que costuma ser lido como sorte, e não é.
O que colocou o brasileiro na ponta não foi a semifinal, foi a decisão tomada antes dela: entrar na água com dor nas costas, quatro dias sem treinar, quando desistir era uma opção defensável e teria custado a ele os mesmos 1.000 pontos que custaram a liderança a Fioravanti.
Em qualquer esporte com ranking acumulado, o cálculo é o mesmo. O atleta controla a presença e a régua mínima do próprio desempenho. Não controla a bateria do adversário, a série de ondas, a chave, o sorteio. Quem aparece machucado e entrega o terceiro lugar acumula mais do que quem espera a condição ideal para render o máximo.
Vale para o competidor profissional e vale para o amador que treina de manhã antes do trabalho: o resultado de temporada é feito muito mais dos dias medianos cumpridos do que dos dias perfeitos. Consistência não é um valor moral, é aritmética.
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