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Hamilton chega a Monza na Ferrari F40 com o 44 gravado no motor

Lewis Hamilton de terno preto e sobretudo caramelo ao lado da Ferrari F40 vermelha no paddock de Monza

Nenhum carro entrou na pista, nenhum tempo foi cronometrado, e mesmo assim a quinta-feira de mídia do GP da Itália já tinha sua imagem do fim de semana. Lewis Hamilton parou na frente dos portões do paddock de Monza dirigindo uma Ferrari F40 vermelha, placa 44, e desceu de terno preto, sobretudo caramelo e boina, com mais de 30 graus marcando no termômetro e um carro sem ar-condicionado.

A cena não foi improviso. Foi a reencenação da primeira foto dele como piloto da Ferrari, em janeiro de 2025, quando apareceu em Maranello com o mesmo tipo de sobretudo e a mesma boina. A diferença é que desta vez o carro ao lado era dele.

A entrada que parou o paddock

O heptacampeão desceu do carro em silêncio, cercado por dezenas de fotógrafos que abandonaram a fila da entrada para cercar a traseira da F40. A placa amarela com o número 44 ficou no enquadramento de praticamente todas as fotos que circularam no mundo nas horas seguintes.

“Eu tive essa ideia: quero chegar neste estilo, deste jeito, para prestar homenagem a este esporte”, explicou Hamilton depois, sobre a escolha da roupa em pleno calor de setembro na Lombardia.

Sobre o significado do dia, ele foi direto: “É a melhor sensação ser um piloto da Ferrari. É uma honra e um privilégio chegar na Itália nesta corrida icônica com a equipe mais icônica e melhor do mundo.”

Hamilton posa ao lado da traseira da Ferrari F40 com placa 44 cercado por fotógrafos em Monza

69 km rodados em mais de 30 anos

A história do carro é a parte que explica por que a chegada virou assunto. Hamilton procurava uma F40 havia tempo, com um critério específico: quilometragem baixa.

“Eu estava procurando uma há um tempo e queria uma com pouca rodagem”, contou.

A que ele achou tinha 69 quilômetros no odômetro, pintura original e a porta do passageiro nunca aberta. O dono anterior comprou o carro, dirigiu de Maranello até a casa dele e estacionou. Nunca mais ligou. Foram mais de três décadas parada, juntando poeira em uma garagem.

“Esses carros são obras de arte e incrivelmente raros, então quando encontrei este, coberto de poeira depois de ficar mais de trinta anos parado em uma garagem, eu sabia que tinha que trazê-la para casa”, disse Hamilton. “Isso foi de verdade um sonho realizado.”

Comprado, veio o dilema que qualquer colecionador conhece. “O que você faz? Você mantém como peça de arte, deixa tudo empoeirado, ou pede para limparem?”

Ele escolheu usar. Mandou o carro para o departamento Classiche da Ferrari, em Maranello, onde engenheiros e mecânicos da própria fábrica fizeram a restauração completa.

O 44 que estava gravado no motor

Foi durante o desmonte que apareceu a coincidência que transformou a compra em história. Ao abrir o motor, os mecânicos encontraram o número 44 estampado no bloco. O mesmo número que Hamilton carrega no carro de Fórmula 1 desde 2014, o número com que ganhou seis dos sete títulos mundiais.

“Eu não conseguia acreditar. Eu falei: vocês sabiam? Vocês só podem estar mentindo”, contou o piloto.

O carro saiu da linha de montagem em Maranello no fim dos anos 1980, com o número gravado por motivo de controle interno de produção, décadas antes de o menino de Stevenage começar a correr de kart.

Traseira da Ferrari F40 de Lewis Hamilton com a placa amarela número 44

Por que a F40 é o carro mais mítico da Ferrari

A F40 foi apresentada em julho de 1987 para marcar os 40 anos da Ferrari, e é o último carro de rua aprovado pessoalmente por Enzo Ferrari, que morreu no ano seguinte. É esse detalhe, mais do que a ficha técnica, que faz o modelo ocupar o lugar que ocupa entre os colecionadores.

A ficha técnica também ajuda. Motor V8 2.9 litros biturbo montado atrás do piloto, 478 cv, 324 km/h de velocidade máxima. Foi o primeiro carro de produção a superar a barreira das 200 milhas por hora. Não tem ABS, não tem controle de tração, não tem direção hidráulica e não tem ar-condicionado. O interior é fibra de carbono aparente, com maçaneta de correia.

Foram 1.315 unidades produzidas entre 1987 e 1992. Exemplares com pouquíssima quilometragem e pintura original, como o de Hamilton, são raros mesmo dentro desse universo.

O contexto: 59 pontos atrás e uma atualização de motor

Fora do espetáculo, o fim de semana tem um problema concreto. Hamilton chega a Monza empatado com George Russell em 183 pontos, na segunda posição do campeonato, a 59 pontos do líder Kimi Antonelli, que soma 242. Lando Norris aparece em quarto, com 159.

Em junho, no GP de Barcelona-Catalunha, Hamilton conquistou a primeira vitória pela Ferrari e encerrou um jejum de 41 corridas da própria carreira, além de se tornar o piloto mais velho a vencer na Fórmula 1 em 56 anos, aos 41. Desde então, a equipe não voltou ao lugar mais alto do pódio.

A Ferrari levou para Monza uma atualização de motor. Hamilton fez a conta em público: a equipe está perdendo cerca de quatro décimos por volta, o que ele chamou de “um déficit enorme”. Sobre a peça nova, foi contido: “Tudo ajuda, tudo ajuda.”

Ainda assim, não abriu mão da confiança. “Eu continuo acreditando fortemente que temos o que é preciso para vencer”, afirmou. “Não é só uma coisa, tudo tem que fluir desde o começo.” Ele também apontou uma mudança interna: “Eu vejo um foco diferente este ano em relação ao ano passado.”

Monza tem história de fundar mito na Fórmula 1, e o Brasil sabe disso melhor do que quase todo mundo: foi em circuitos assim que Emerson Fittipaldi virou o primeiro campeão brasileiro da categoria, em 1972, e foi na base da improvisação que Ayrton Senna venceu o GP do Brasil de 1991 com o câmbio quebrado.

O que isso ensina sobre alta performance

A F40 de Hamilton passou mais de trinta anos parada. Continuou sendo uma das máquinas mais bem construídas da história do automóvel esse tempo todo, e não entregou nada. Potencial guardado na garagem não vira resultado, vira poeira.

É o mesmo mecanismo que decide carreira esportiva. Talento não é destino, e não existe atleta que rende por estar equipado. Rende quem usa o que tem, todo dia, dentro de um processo. Atleta talentoso com processo ruim desperdiça o que recebeu. Atleta mediano com processo extraordinário constrói carreira longa.

A segunda leitura é sobre identidade. Aos 41 anos, com sete títulos e um jejum recente longo, Hamilton constrói algo que existe fora do resultado de domingo. A chegada em Monza não valeu ponto nenhum no campeonato, e mesmo assim foi o momento mais visto do fim de semana até aqui. O atleta que só existe enquanto o placar é favorável não sobrevive a uma temporada ruim, a uma lesão ou à aposentadoria.

E tem a parte menos romântica: nada daquilo foi acaso. A busca pelo carro certo levou tempo, a restauração passou pela fábrica, a roupa repetia uma foto de janeiro de 2025 e a placa levava o número. Chegada icônica é planejamento executado, não sorte.

Talento parado não vira resultado. Processo vira.

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Foto de Diogo Moraes
Diogo Moraes

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