Duas brasileiras dividem o octógono na luta co-principal do UFC Vegas 120 neste sábado, 8 de agosto, no Meta Apex, em Las Vegas. De um lado, Amanda Lemos, 39 anos, ex-desafiante ao cinturão do peso palha. Do outro, Alexia Thainara, 30 anos, que não perde uma luta desde 2019.
É o tipo de confronto que o MMA chama de encruzilhada: a veterana precisa da vitória para não afundar de vez no ranking, e a desafiante precisa dela para provar que o nome dela pertence ao topo da divisão.
A queda recente de Amanda Lemos
Lemos chegou ao ponto mais alto da carreira em agosto de 2023, quando disputou o cinturão dos palhas contra Zhang Weili. Perdeu, voltou ao pelotão e passou a viver o roteiro comum das ex-desafiantes: enfrentar sempre quem está subindo.
Nascida em Belém, no Pará, profissional desde 2014 e ex-campeã do Jungle Fight, ela é uma das nocauteadoras mais eficientes da história da divisão. São 8 vitórias por nocaute técnico entre os 15 triunfos, e 8 finalizações no primeiro round ao longo da carreira. O cartel atual é de 15 vitórias, 6 derrotas e 1 empate.
A trajetória tem ainda um capítulo que o cartel não mostra. Em 2018, Lemos aceitou uma suspensão de dois anos da Usada, a agência antidoping que atendia o UFC à época, depois que um exame fora de competição colhido em novembro de 2017 acusou estanozolol. A punição foi retroativa à data da coleta, e ela voltou a competir em dezembro de 2019, vencendo Miranda Granger por finalização técnica.
O problema, agora, é o presente. Depois de bater Iasmin Lucindo por decisão unânime em março de 2025, Lemos perdeu duas seguidas, também por decisão unânime: para Tatiana Suarez em setembro de 2025 e para Gillian Robertson em 14 de março de 2026.
As duas derrotas seguiram o mesmo padrão. Suarez e Robertson são grapplers, levaram a luta para o chão e controlaram a paraense por boa parte dos rounds. No duelo com Robertson, Lemos entrou como sexta colocada do ranking e viu a canadense somar a quinta vitória consecutiva em cima dela.
Uma terceira derrota seguida, aos 39 anos, tem custo diferente do que teria aos 30. O nocaute continua no arsenal, e ele resolve luta a qualquer idade. O que não perdoa é o roteiro repetido: se a luta for para o chão de novo, a conta do sábado já estará escrita.
Alexia Thainara e sete anos sem perder

Do outro lado está a carioca de Paracambi que treina em Minas Gerais, na equipe Ribas Family. Alexia “Burguesinha” Thainara tem cartel de 14 vitórias e 1 derrota, e essa única derrota é de 2019.
São 12 vitórias consecutivas, oito delas por finalização e quatro encerradas ainda no primeiro round. No UFC, ela está 3 a 0:
- Março de 2025: finalizou Molly McCann com um mata-leão no primeiro round, na estreia.
- Setembro de 2025: venceu Loma Lookboonmee por decisão, na Austrália.
- Março de 2026: bateu Bruna Brasil por decisão unânime, na abertura do UFC Seattle.
O duelo com Bruna Brasil tinha um significado extra. Foi exatamente a paranaense quem impôs a Alexia a única derrota da carreira, por finalização, em 2019, antes de qualquer uma das duas chegar ao UFC. Sete anos depois, a revanche fechou o ciclo.
Os números defensivos ajudam a explicar a sequência: 100% de aproveitamento na defesa de quedas e 60% de defesa de golpes significativos, segundo os dados do próprio UFC. Ela chega como uma das poucas atletas da divisão que ainda não foi levada ao chão contra a vontade, o que torna o confronto de estilos mais interessante do que o retrospecto recente sugere.
Vale registrar o contexto da luta: Alexia entrou no lugar de Denise Gomes, adversária originalmente marcada para Lemos, que precisou se retirar do card.
Um peso palha dominado por brasileiras
A divisão em que as duas brigam por posição é, hoje, a mais verde e amarela do UFC. O cinturão está com Mackenzie Dern, que venceu Virna Jandiroba no UFC 321, em outubro de 2025, e se tornou a quarta brasileira campeã na história da organização.
O ranking logo abaixo repete o padrão: Jandiroba, Denise Gomes, Tabatha Ricci, Jaqueline Amorim e Talita Alencar dividem o top 12 com Lemos e Alexia. A principal ameaça estrangeira ao cinturão é Zhang Weili, a mesma que venceu Lemos em 2023.
Na prática, quase toda luta relevante do peso palha em 2026 é um duelo entre compatriotas. Foi assim com Alexia contra Bruna Brasil em março, e é assim de novo no sábado.
Lemos era a sexta colocada quando enfrentou Robertson. Alexia era a 13ª antes de vencer Bruna Brasil e subiu na atualização seguinte. O sábado vale posição de fila: a vencedora entra na conversa por uma luta contra top 5 no fim do ano, e a perdedora volta ao meio da tabela, com a diferença de que Alexia tem nove anos a menos de estrada para reconstruir.
A luta principal: Gamrot contra o invicto do Apex
O card é encabeçado por um duelo de peso leve entre o polonês Mateusz Gamrot, oitavo do ranking, e o australiano Quillan Salkilld, décimo segundo, marcado para cinco rounds.
Gamrot é veterano de UFC desde 2020, tem cartel de 26 vitórias, 4 derrotas e 1 sem resultado, e vem de finalização em cima de Esteban Ribovics no UFC 327, em abril. São nove triunfos em 13 aparições na organização, seis deles antes do tempo.
Salkilld é o oposto em quilometragem. Chegou pelo Contender Series, tem 12 vitórias e 1 derrota, está invicto em cinco lutas no UFC e já acumulou quatro bônus de Performance da Noite, marca que quase nenhum lutador atinge tão cedo na carreira. Bônus, aliás, são hoje a parte mais transparente do que um lutador do UFC realmente leva para casa.
Onde assistir e horários
O evento acontece no Meta Apex, em Enterprise, Nevada, e é transmitido no Brasil pelo Paramount+, que detém a exclusividade do UFC no país desde 1º de janeiro de 2026.
| Etapa do evento | Horário (Brasília) | Transmissão |
|---|---|---|
| Pré-show | 17h | YouTube e Pluto TV |
| Card preliminar | 18h | Paramount+ |
| Card principal | 21h | Paramount+ |
Amanda Lemos x Alexia Thainara é a luta co-principal, o que na prática coloca o combate perto das 23h no horário de Brasília, imediatamente antes do confronto entre Gamrot e Salkilld.
Os outros brasileiros do card
O evento é um dos mais brasileiros do ano no Apex, com oito atletas do país em ação. Além das duas do co-main event:
- Diego Ferreira enfrenta Billy Quarantillo no peso leve, no card principal.
- Guilherme Pat encara Steven Asplund no peso pesado.
- Bruno Lopes mede forças com Diyar Nurgozhay no meio-pesado.
- José Montanha da Silva pega Louie Sutherland no peso pesado.
- Manoel Sousa enfrenta Richie Miranda no peso leve.
- Ravena Oliveira encara Juliana Miller no peso mosca feminino.
Cinco das seis lutas preliminares têm pelo menos um brasileiro no octógono. É a segunda vez em poucas semanas que a organização monta um card com peso brasileiro tão grande, depois do evento de Belgrado, que terminou com 12 das 14 lutas resolvidas antes do tempo.
O que isso ensina sobre alta performance
A luta de sábado coloca lado a lado dois relógios diferentes.
Amanda Lemos representa a atleta que já chegou ao teto, disputou o cinturão e agora administra uma carreira que exige adaptação. As duas derrotas recentes não vieram por falta de potência: vieram do mesmo buraco técnico, explorado por duas adversárias que leram o mesmo relatório. O poder de nocaute continua lá. O que precisa mudar é a resposta quando a luta sai do lugar onde ela é dominante.
Alexia Thainara representa o outro extremo. Sete anos sem perder não é sorte, é a soma de escolha de adversário, disciplina de campo de treino e um repertório de finalização que resolve luta antes de virar decisão. A pergunta que só o octógono responde é se essa sequência sobrevive ao primeiro teste contra alguém que já esteve em luta de cinturão.
Existe uma lição prática nisso para quem treina. Sequência longa de vitórias esconde o que ainda não foi testado. Derrota recente expõe exatamente onde está o furo. As duas informações valem, e nenhuma das duas decide sozinha o que acontece no sábado.
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