Enquanto o resto do grid da Fórmula 1 embarcava em voos para Singapura, Valtteri Bottas montou na bicicleta. O piloto da Cadillac saiu de Sepang, na Malásia, depois do GP do Bahrein do último domingo (4), e chegou à sede da próxima etapa na quarta-feira (7). Na conta do próprio piloto, foram 419,67 km.
O trajeto cruzou estradas de terra, plantações de palmeira e trechos de floresta à noite. No caminho, o finlandês de 37 anos viu uma cobra, uma píton, pulou um lagarto com a bike e foi perseguido por um cachorro. E garante que chega ao fim de semana mais preparado, não menos.
Uma ideia que começou como piada
A viagem nasceu de um comentário da companheira de Bottas, a ciclista australiana Tiffany Cromwell. “Acho que a Tiffany falou meio de brincadeira: ‘Você podia ir pedalando de lá, nem é tão longe’. E eu pensei: ‘Hum, talvez eu possa'”, contou o piloto à imprensa em Singapura, segundo a revista Racer.
A brincadeira virou planilha. Bottas checou a distância, as condições das estradas e os horários, e montou um plano para cada dia. A largada veio horas depois de um domingo frustrante em Sepang: ele rodou com pneus para pista seca no asfalto ainda úmido e abandonou a corrida vencida por Max Verstappen, como o portal mostrou na cobertura do GP do Bahrein.

Dia a dia: dois trechos de 161 km no meio da semana
Segundo os registros publicados por Bottas no Strava e reproduzidos pela Formula1.com e pela ESPN, a viagem foi dividida em quatro dias:
- Domingo: 56,6 km, de Kuala Lumpur a Port Dickson, em pouco mais de duas horas.
- Segunda: 161,9 km pelo litoral, passando por Malaca até Muar, em quase seis horas.
- Terça: 161 km até Kulai, já no sul da península, em mais de cinco horas.
- Quarta: cerca de 40 km de pedal leve até Singapura.
A distribuição não foi acaso. “Planejei que os dois dias maiores fossem segunda e terça, para não ficarem perto demais do fim de semana de corrida. Se eu fizesse um dia grande na quarta, isso já poderia comprometer um pouco a minha sexta em termos de recuperação”, explicou. Bottas pedalou sozinho, com um carro de apoio logo atrás.
Cobra, píton e a floresta à noite
O piloto descreveu a fauna com bom humor. “Vi algumas cobras, o que me preocupava um pouco, mas elas estavam bem tranquilas, só cuidando da vida delas”, disse. “Vi uma naja, uma píton cruzando o caminho na minha frente e aqueles lagartos grandes. Um estava na trilha e eu tive que pular com a bike, porque só vi no último segundo. Fui perseguido por um cachorro e fiquei preso atrás de um grupo de vacas numa trilha pequena.”
O momento mais marcante veio depois do pôr do sol. “O mais selvagem foi pedalar à noite na floresta. O barulho lá dentro… Aí a sua cabeça começa a imaginar o que tem lá fora. Mas você precisa seguir em frente. Pedalar com o farol ligado à noite foi a parte mais épica.”

Calor e fuso como preparação para Singapura
Os trechos noturnos tinham função. O GP de Singapura é a corrida noturna do calendário, e a programação da F1 na cidade segue o horário europeu, com as atividades começando no fim da tarde. Pedalar à noite ajudou Bottas a ajustar o relógio do corpo. O calor também entrou na conta: a organização classificou a etapa como “corrida de calor”, com previsão acima de 31 °C.
“Obviamente eu não faria isso se soubesse que ia prejudicar a minha performance”, disse. “A quantidade de suor nesses dias foi bem impressionante, mas você se acostuma ao calor quanto mais tempo passa nele.” Quem quiser acompanhar o fim de semana encontra canais e horários no guia de onde assistir ao GP de Singapura 2026. A corrida é no domingo (11).
Um ciclista de gravel no grid da F1
A bicicleta não é passatempo recente para Bottas. Ele disputa provas de gravel nas folgas da Fórmula 1, já correu o Mundial da modalidade em 2024 e se classificou por conta própria para a edição deste ano, marcada para o mesmo fim de semana do GP de Singapura. Não vai competir: o compromisso com a Cadillac vem primeiro. A viagem de 419 km foi, de certa forma, a sua prova particular.
Na chegada, resumiu a semana no Instagram: “Que aventura épica pelas estradas de terra menos percorridas. Mais por vir, em algum momento”.
O que a viagem de Bottas ensina sobre alta performance
O episódio parece extravagância de piloto, mas tem método. Primeiro, a carga foi distribuída pensando na recuperação: o volume pesado ficou longe do dia que importa, e o último trecho virou pedal regenerativo. É a lógica de qualquer periodização bem feita, em qualquer modalidade.
Segundo, a aventura serviu a um objetivo competitivo. Calor, umidade e horário noturno são exatamente as condições que o piloto encontra em Singapura. Bottas transformou o deslocamento entre duas corridas em aclimatação, com um critério claro: se atrapalhasse a performance, não faria.
Por fim, há a identidade além do resultado. Depois de um abandono no domingo, Bottas passou quatro dias fazendo o que gosta e chegou a Singapura com a cabeça limpa. Atleta que só existe dentro da pista sente mais cada fim de semana ruim. Quem tem outra paixão, tratada com a mesma seriedade, volta mais inteiro.
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