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Brawn GP: a equipe que a Honda jogou fora e venceu tudo em 2009

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Jenson Button pilotando o carro da Brawn GP no GP da China de 2009

Em dezembro de 2008, a Honda anunciou que estava fora da Fórmula 1. A crise financeira global tinha chegado, e manter uma equipe de ponta virou luxo indefensável para uma montadora que vendia carros de rua. Centenas de engenheiros em Brackley, na Inglaterra, receberam a notícia de que talvez não tivessem emprego na temporada seguinte. O carro de 2009 já estava quase pronto. Faltava só uma coisa: alguém disposto a assumir o prejuízo.

Onze meses depois, esse mesmo carro tinha vencido os dois campeonatos mundiais da Fórmula 1. A equipe se chamava Brawn GP, existiu por uma única temporada, e escreveu a maior história de azarão que o esporte a motor já viu. Este é o guia completo de como aconteceu.

O que foi a Brawn GP?

A Brawn GP foi uma equipe de Fórmula 1 que disputou apenas a temporada de 2009 e venceu, logo em sua estreia, o Mundial de Pilotos (com Jenson Button) e o Mundial de Construtores. Ela nasceu das cinzas da equipe Honda: quando a montadora japonesa deixou o esporte, o diretor técnico Ross Brawn liderou uma compra da estrutura e deu o próprio sobrenome ao time.

Nenhuma equipe na história tinha ganhado o Mundial de Construtores em seu primeiro ano de vida. A Brawn GP ganhou. E, no fim daquela mesma temporada, deixou de existir como marca independente. Foi comprada pela Mercedes-Benz e virou o embrião da equipe que dominaria a década seguinte. Uma temporada, dois títulos, e o desaparecimento. Poucas histórias no esporte são tão improváveis.

Como a Honda abandonou a F1 e vendeu a Brawn GP por 1 libra

Quando a Honda decidiu sair, tinha dois caminhos, e os dois eram caros. Fechar a equipe significava demitir cerca de 700 funcionários e pagar rescisões estimadas em torno de 100 milhões de dólares. Vender era mais barato, desde que aparecesse comprador. Não apareceu nenhum grande grupo. Apareceu Ross Brawn.

O acordo entrou para a lenda pelo valor simbólico: a estrutura foi transferida por 1 libra esterlina. Na prática, foi uma compra de gestão (o chamado management buyout) liderada por Brawn e pelo executivo Nick Fry, com a própria Honda ajudando a financiar a transição para não arcar com o custo maior de simplesmente encerrar tudo. O ativo mais valioso do esporte a motor naquele momento estava dentro do que uma montadora tinha decidido jogar no lixo.

Brawn enxergou o que os outros não viram por um motivo simples: ele conhecia o carro por dentro. O projeto de 2009 já estava avançado, e trazia uma solução aerodinâmica que mudaria a temporada. Faltava um detalhe crítico: motor. A Honda levou o dela embora. A equipe fechou um acordo de última hora para usar motores Mercedes, e essa decisão, segundo o próprio Nick Fry, respondeu por cerca de metade do salto de desempenho do carro.

Ross Brawn: do aprendiz de mecânico ao cérebro dos 7 títulos de Schumacher

Para entender por que Brawn apostou onde ninguém apostava, é preciso olhar de onde ele veio. Ross Brawn não começou como estrategista de terno. Começou como aprendiz de mecânico num centro de pesquisa nuclear britânico, o laboratório da autoridade de energia atômica em Harwell, onde se qualificou como mecânico de instrumentação. O chão de fábrica veio antes da prancheta.

Ross Brawn supervisiona projetista em estação de CAD na Benetton em 1994
Ross Brawn, o engenheiro que começou no chão de fábrica, acompanhando o projeto na Benetton em 1994.

Nos anos 1970 ele entrou na Fórmula 1 pela porta dos fundos, como operador de fresadora na Williams. Subiu por dentro: túnel de vento, aerodinâmica, projeto. Virou projetista-chefe da Arrows em 1986 e, no início dos anos 1990, assumiu como diretor técnico da Benetton. Foi ali que a parceria mais vitoriosa da história do esporte começou a se formar.

Todos os sete títulos mundiais de Michael Schumacher tiveram Ross Brawn no comando técnico. Dois pela Benetton, cinco pela Ferrari. Entre 1999 e 2004, a Ferrari venceu seis Mundiais de Construtores seguidos, e em 2004 chegou a ganhar 15 das 18 corridas da temporada. Brawn era o homem que transformava talento e engenharia em resultado repetível.

Fase da carreiraPeríodoO que conquistou
Aprendiz de mecânico (Harwell)Anos 1970Formação de chão de fábrica
Williams (operador e projeto)A partir dos anos 1970Subida técnica na F1
Projetista-chefe da Arrows1986Primeiro grande cargo de projeto
Diretor técnico da BenettonAnos 19902 títulos de pilotos com Schumacher
Diretor técnico da Ferrari1997 a 20065 pilotos e 6 construtores seguidos
Dono e chefe da Brawn GP20092 títulos na única temporada

Quando a Honda saiu, Brawn não estava olhando um problema de gestão. Estava olhando um carro que ele entendia parafuso por parafuso. Foi mecânico antes de ser estrategista, e isso fez toda a diferença.

O BGP 001 e o difusor duplo: a brecha que ninguém mais enxergou

O carro da Brawn GP se chamava BGP 001, e seu segredo estava embaixo, na traseira: um difusor duplo. O difusor é a peça que acelera o ar que passa sob o carro e gera boa parte da força que o cola no chão nas curvas. A equipe leu o novo regulamento de 2009 e encontrou uma brecha que permitia um difusor com um segundo andar, mais eficiente que o dos rivais.

A Brawn não foi a única a enxergar a brecha: Williams e Toyota exploraram a mesma interpretação. As demais equipes protestaram, alegando que a solução era ilegal. Em abril de 2009, a FIA (a federação que regula o esporte) declarou o difusor duplo legal. A vantagem estava validada, e a Brawn largou na frente enquanto os rivais corriam atrás para copiar.

O resultado dessa vantagem técnica somada ao motor Mercedes foi avassalador no começo. Mas vantagem em corrida tem prazo de validade, e é aí que a história fica interessante.

A temporada 2009: Button, Barrichello e os dois títulos

Jenson Button abriu 2009 de forma arrasadora: venceu seis das sete primeiras corridas. Parecia caminhada. Do lado de dentro do box, o clima era outro, porque todo mundo sabia que os rivais iam alcançar o difusor duplo, e alcançaram. Depois daquela sequência, Button não venceu mais nenhuma prova no ano. A Red Bull, com Sebastian Vettel e o projetista Adrian Newey, dominou a segunda metade. Chegou forte, mas chegou tarde.

Carro BGP 001 da Brawn GP com os números de Jenson Button e Rubens Barrichello
O BGP 001 da Brawn GP, com os números 22 (Button) e 23 (Barrichello), dupla campeã em 2009.

O brasileiro Rubens Barrichello, companheiro de Button, teve papel decisivo na reta final. Enquanto Button administrava a vantagem construída no início, Barrichello venceu duas corridas (na Europa e na Itália) e segurou pontos preciosos para o time. No total, a Brawn GP venceu oito das dezessete corridas da temporada. Button confirmou o título de pilotos, e a equipe garantiu o de construtores.

Números da Brawn GP em 2009
Corridas na temporada17
Vitórias da equipe8
Vitórias de Jenson Button6 (das 7 primeiras)
Vitórias de Rubens Barrichello2
Títulos conquistados2 (Pilotos e Construtores)
Temporadas de existência1

A leitura da temporada é uma aula de gestão de vantagem: a Brawn ganhou o campeonato na largada, construindo uma dianteira tão grande no começo que o domínio alheio no fim não foi suficiente para tirar o título. Quem constrói margem cedo aguenta a pressão depois.

Por que a Brawn GP durou uma temporada e virou Mercedes

Ganhar tudo não garantiu futuro. Uma equipe campeã custa caro para tocar, e a Brawn GP tinha vencido praticamente sem patrocinador master, com um orçamento apertado e um time enxuto que operava no limite. Sustentar aquilo por conta própria em 2010 era arriscado.

No fim de 2009, a Mercedes-Benz, que já fornecia os motores, comprou o controle da equipe. A Brawn GP virou Mercedes GP. Ross Brawn seguiu no comando nos primeiros anos e ajudou a montar a base do que se tornaria a máquina mais dominante da história recente da Fórmula 1, a estrutura que, já sob a liderança de outros nomes, venceria oito títulos de construtores seguidos entre 2014 e 2021. A mesma fábrica em Brackley que a Honda quis abandonar é hoje o coração da equipe que ainda briga pelo Mundial.

Ou seja: a “equipe descartada” não só venceu o que ninguém esperava como se transformou na dinastia seguinte do esporte. Vale a pena conhecer também a história de Toto Wolff, o homem que comprou parte dessa mesma estrutura e a levou ao topo. Os três chassis campeões de 2009, aliás, voltaram a se reunir anos depois no Goodwood Festival of Speed, o maior encontro de carros históricos do mundo.

O que a Brawn GP ensina sobre alta performance

A história da Brawn GP parece sorte, mas quase nada nela foi sorte. Ela guarda três lições que valem para qualquer atleta ou treinador que busca resultado de verdade.

A primeira: o domínio técnico vem antes da estratégia. Ross Brawn viu valor onde os outros viram prejuízo porque conhecia o carro por dentro, resultado de anos no chão de fábrica. No esporte é igual. O atleta que entende o próprio corpo, a própria mecânica de movimento e os próprios números é quem toma a decisão certa sob pressão. Estratégia sem domínio do básico é chute.

A segunda: construir margem cedo é o que segura a pressão depois. A Brawn ganhou o título nas sete primeiras corridas e resistiu ao domínio alheio na reta final porque tinha caixa de pontos guardada. Na preparação de um atleta, é a mesma lógica: a base construída na pré-temporada é o que sustenta o desempenho quando a fadiga chega e os adversários evoluem.

A terceira: a vantagem está nos detalhes que os outros ignoram. O difusor duplo era uma leitura fina de regulamento, ganho de milímetros que virou vantagem de temporada. Alta performance se constrói assim, no acúmulo de pequenos ganhos que ninguém mais teve disciplina de procurar. A Brawn GP não teve mais dinheiro que os rivais. Teve mais atenção.

Perguntas frequentes sobre a Brawn GP

Quem comprou a Brawn GP e por quanto?

Ross Brawn, então diretor técnico da equipe Honda, liderou a compra da estrutura por 1 libra esterlina simbólica, quando a Honda deixou a Fórmula 1 no fim de 2008.

A Brawn GP virou qual equipe?

No fim de 2009, a Brawn GP foi comprada pela Mercedes-Benz e passou a se chamar Mercedes GP a partir de 2010, base da atual equipe Mercedes de Fórmula 1.

Que motor a Brawn GP usava em 2009?

Motor Mercedes-Benz. A Honda levou seu próprio motor ao sair, e a equipe fechou um acordo de fornecimento com a Mercedes pouco antes da temporada.

A Brawn GP realmente venceu os dois títulos em 2009?

Sim. Jenson Button foi campeão de pilotos e a Brawn GP foi campeã de construtores, na única temporada de existência da equipe, algo inédito na história da Fórmula 1.

Quem eram os pilotos da Brawn GP?

Jenson Button e o brasileiro Rubens Barrichello. Button venceu seis corridas e Barrichello, duas, somando as oito vitórias da equipe no ano.

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