Numa etapa do Campeonato Brasileiro de Motocross, no primeiro ano de Caio Lopes na MX1, um comentário apareceu no chat da transmissão: “O Caio é muita mídia e pouco rolê”. Ele andava entre o quarto e o quinto lugar, raspando no pódio, numa das melhores corridas da temporada. “No primeiro momento, eu fiquei puto”, admite.
Anos depois, a frase está estampada em camiseta e adesivo, e o piloto do número 134 é campeão brasileiro da MX3 em 2026 e embaixador da Kawasaki. Em episódio publicado nesta terça-feira (29) no No Topo Podcast, com Diogo Moraes e Nicholas Pasqualetto, Caio contou como concilia pista, conteúdo e empresa. Parceiro de longa data da Atleta Pro, ele já deu mentoria aos atletas da Atleta Pro Academy.

O engenheiro que quase largou a moto
Caio anda de moto desde os três anos. Aos 33, soma três décadas de esporte, mas a carreira profissional começou tarde. O pai era entusiasta do off-road, não do motocross, e faltava dinheiro para um esporte caro. Só por volta de 2011 e 2012 ele passou a correr todo fim de semana.
A mãe nunca deixou que ele vivesse só da moto. Caio trabalhou em loja e em estoque, fez cursos e se formou em engenharia civil. “Minha mãe falava sempre: você tem que ter um plano B.” Entre 2014 e 2015, empregado numa empresa de engenharia e sem nenhuma conquista financeira no esporte, estava perto de desistir.
A virada, segundo ele, veio numa etapa única do Brasileiro de 2014, na categoria Nacional. Caio saiu de uma prova da faculdade na sexta-feira, pegou um avião, chegou praticamente sem dormir, correu no sábado e venceu. Depois da corrida, o chefe de uma equipe Honda quis saber quem ele era e o convidou para pilotar numa equipe satélite da marca em 2015. Ele terminou a faculdade, largou o emprego e passou a viver da moto.
“Blogueirinho” no paddock
A mídia entrou na história na mesma época, com o Instagram ganhando força no Brasil. Caio reparou num fenômeno em São Paulo: a turma do grau, que empina moto na rua, fechava patrocínio com marca grande de capacete sem ter título nem vitória. “Eu falei: tem coisa aí.” Aquela gente se comunicava bem e vendia produto pelo estilo de vida que mostrava.
A conta que ele fez foi de alcance. Um dia de rede social chegava a muito mais gente do que um resultado de pista, e ainda furava a bolha do motocross. Como ninguém no esporte fazia isso, os colegas passaram a chamá-lo de “blogueirinho”. Ele seguiu em frente, porque via ali uma saída para um mercado com poucas vagas em equipe e contratos de um ano, sem garantia do seguinte.
As referências vinham de fora. Caio cresceu vendo as fitas de freestyle que tiraram o motocross do nicho, na era em que Travis Pastrana virou marca, e depois Bubba’s World, a série de 2010 sobre a rotina de James “Bubba” Stewart, bicampeão do supercross americano. “Meu estilo em cima da moto foi sempre olhando como ele andava. Aprendi a técnica assistindo aos vídeos dele.”
Como a crítica virou produto
O “muita mídia, pouco rolê” nasceu de um descompasso. Caio publicava vídeos de treino com saltos e curvas raspando o guidão no chão, e o público concluía que ele brigaria pelo título da MX1. Só que ele treinava bem menos que os rivais da categoria, porque sempre teve outra atividade para pagar as contas: foi tatuador e teve loja. Para quem conhecia a rotina dele, o resultado era ótimo. Para quem só via os vídeos, parecia pouco.
Na segunda-feira seguinte à etapa, a briga entre fãs e críticos ainda rendia. Caio decidiu entrar na onda. No vídeo de resumo, abriu com o bordão: “Como sempre, foi muita mídia, pouco rolê”. O público gostou, e a frase virou camiseta, adesivo e produto na loja dele. “Fiz dinheiro em cima do cara.”
A lição, segundo ele, foi maior que a venda. A crítica mostrou que o conteúdo estava criando uma expectativa que ele não queria criar. Desde então, trata comentário negativo como informação. “Muitas vezes, o que você acha que é legal não é legal para o seu público.” E, em vez de reduzir a produção, aumentou.
Mostrar o treino enfraquece o atleta?
Os apresentadores levaram ao convidado a dúvida que trava muito atleta: exposição tira foco? Para Caio, é meia verdade. O atleta muito focado tende a enxergar qualquer distração como perda de rendimento, e alguns temem que falar mais nas redes derrube a imagem de durão que intimida o adversário. “Não tem nada a ver”, disse. Dá para mostrar a rotina sem entregar a receita do treino.
O apresentador lembrou o caso de Lucas Garcia, fisiculturista da Atleta Pro Academy que por anos evitou mostrar o físico antes das competições. Em 2026, ele passou a postar a preparação e terminou vice-campeão da 212 no Mr. Olympia.
Caio vê a rede social também como seguro para o fim da carreira. Muito piloto de ponta do Brasileiro é desconhecido fora do paddock. “Se o cara quiser dar uma aula para um trilheiro, o trilheiro não vai contratar, porque não sabe quem ele é.”
Patrocínio não se pede, se vende
Muitos atletas procuram Caio com o mesmo pedido: “me ajuda a arrumar um patrocínio”. A resposta dele começa por outra pergunta. Que atleta você quer ser, e com que marca quer trabalhar? “Se você quer ser um atleta Red Bull, não adianta gerar um conteúdo em que você fala palavrão, se porta mal e se veste mal.”
Ele próprio mudou. No começo, vendia um estilo de vida mais “loucão”, com piercing, e percebeu que, mesmo com resultado na pista e nas redes, certas empresas não fechavam. Ajustou a comunicação ao público dessas marcas sem perder a essência. É o que o portal detalha em o que as marcas procuram num atleta patrocinado.
O segundo erro é vender só o sonho. “A empresa precisa vender para te patrocinar. Você precisa mostrar qual é o seu retorno.” Sonho, na conta dele, segura um apoiador por um ano, no máximo. Até pouco tempo atrás, era Caio quem batia na porta com o projeto pronto. Em 2026, pela primeira vez, as empresas vieram atrás dele. “Tem muito atleta com potencial deixando dinheiro no mercado, porque prefere se vitimizar falando que ninguém ajuda.”
Na distribuição, Caio estima que, para um atleta chegar às marcas, o Instagram pesa 70%, o YouTube 20% e as demais redes 10%. E prefere qualidade a volume. A grade principal do perfil ficou mais profissional no último ano, e o conteúdo descontraído, que engaja mais, foi para os stories. Dancinha de trend infla número, mas desvaloriza o atleta. Muitas marcas, lembra, já preferem contratar dez perfis de 100 mil seguidores a um de 1 milhão.

Sete anos até a Kawasaki
O contrato que mais simboliza a trajetória dele é o da Kawasaki. Em 2017, Caio foi trabalhar numa concessionária da marca. O primeiro contrato com a fábrica, como embaixador, só saiu no fim de 2024, para valer a partir de 2025. Nesse intervalo, conta, recusou propostas de outras montadoras que pagavam o dobro. “Eu falei: não vou. Vou ficar até entrar onde eu quero.”
Durante os sete anos, produziu conteúdo pensando no público que consome a marca, até ser notado. E escolheu a Kawasaki também por flexibilidade: uma fábrica que o deixaria continuar sendo o Caio Lopes. Com a KX450, venceu a categoria 30+ do World Vet Motocross Championships, em novembro de 2025, em Glen Helen, na Califórnia, e ajudou o Brasil a terminar em segundo no World Vet Nations, segundo a Kawasaki Brasil.

Em 2026 veio o título da MX3. Caio venceu a abertura, em Canelinha (SC), assumiu a liderança ao vencer de novo em Ponta Grossa (PR) e confirmou o campeonato por antecipação na rodada dupla de Santa Cruz do Capibaribe (PE), entre 31 de julho e 2 de agosto, com vitória nas quatro corridas do fim de semana. Para 2027, ele já assinou com outra empresa com quem sempre quis trabalhar, e que foi atrás dele. O nome só será divulgado em janeiro.

A empresa Caio Lopes
Fora da pista, Caio divide a vida em frentes de negócio. Tem um e-commerce com sócio, que vai ganhar uma loja itinerante nos eventos, mantém ações e sorteios para trazer público ao conteúdo e montou uma produtora que atende atletas e empresas e também grava o material dele. Neste mês, fechou o estúdio de tatuagem, que já não crescia e dividia energia demais. “Hoje eu posso escolher.”
O próximo projeto é uma imersão de fim de semana na rotina de piloto profissional, com quatro vagas por turma: café da manhã de atleta, alongamento, treino mental, pista, acerto de moto e recuperação. Serve para piloto e para quem nunca andou na terra. E abre espaço para patrocinador: os alunos vão dormir em colchões da Portobel, marca que o apoia, e o sono entra no conteúdo como parte da recuperação.
Arrumar a cama antes de ganhar corrida
Como tocar tudo isso sem se perder? “Organização. Você tem que ser extremamente organizado em tudo.” A manhã é sempre igual: escovar os dentes, arrumar a cama, leitura e devocional, café. O resto do dia é montado na noite anterior, com horário de refeição fixo e blocos que mudam conforme a agenda: treino de moto, treino físico, e das 14h às 16h resposta a patrocinadores. Se chove ou aparece reunião, o treino muda de horário. Para 2027, ele vai contratar um braço direito para o primeiro contato com as marcas.
“Se você não organiza o pequeno, nunca vai ser bom no grande”, resumiu. Cama arrumada, cozinha limpa, roupa passada: tudo aparece no vídeo e fala sobre o atleta. Com patrocinador, a regra é entregar mais do que combinou. Hoje há marcas com quem ele trabalha há anos sem contrato. “O que mais tem hoje é gente que não honra o que combina.”
Para os atletas de 12 a 14 anos que acompanham o No Topo, o conselho foi primeiro de caráter: ser uma pessoa boa e correta, com o livro de Provérbios como base para as decisões. Depois, evoluir sempre e já criar conteúdo. “Hoje é muito difícil ver uma criança profissional. As marcas gostam disso.”
Na pergunta que fecha todo episódio, sobre o que é estar no topo, Caio disse que já chegou lá: “É viver do que eu amo”.
O que isso ensina sobre alta performance
A trajetória de Caio Lopes é um caso de atleta que se trata como empresa, um dos princípios que a Atleta Pro Academy ensina. Ele separou os papéis de piloto, criador e empresário, mediu o que cada um entrega e cortou o que dividia energia demais, como o estúdio de tatuagem.
Três lições saem da conversa. A primeira é responder à crítica com ação: o comentário que o chamou de “muita mídia” virou produto e virou método para entender o próprio público. A segunda é que patrocínio é venda de retorno, não pedido de ajuda, como mostra o guia de como conseguir patrocínio esportivo. A terceira é que processo mais tempo é igual a resultado: sete anos de conteúdo coerente até a Kawasaki e mais de uma década de carreira profissional até o título brasileiro da MX3.
Nada disso dependeu de ser o piloto mais talentoso do grid. Dependeu de aparecer todo dia, como mostram outros episódios do No Topo.
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