Em 2018, Tiago Kfouri morava em Dallas, tinha uma filha de dois meses e um canal que ainda era um negócio novo. O carro dele, um Volkswagen Gol 1991, tinha acabado de voltar do SEMA Show, em Las Vegas, o maior salão de carros customizados do mundo.
Oito anos depois, o TK comanda o Macchina, um dos maiores canais do universo automotivo brasileiro, com cerca de 600 mil inscritos no YouTube e mais de 500 mil seguidores no Instagram. Em episódio publicado em 22 de setembro no No Topo Podcast, com Diogo Moraes e Nicholas Pasqualetto, ele contou como a paixão por carro virou operação, com equipe, prazo e conta para fechar, e por que hoje mede sucesso em tempo, não em dinheiro.
Uma live de celular do outro lado da rua
O canal existe desde 2011, mas o primeiro vídeo só foi ao ar em agosto de 2017. Antes disso, TK tocava com o amigo Daniel o Carros de Colecionadores, site criado em 2003, numa época sem rede social nem grupo de WhatsApp, que depois virou uma página no Facebook com mais de 400 mil seguidores.
A virada foi num domingo de manhã, no sul da Flórida. A mulher dele voltou do supermercado avisando que havia um encontro de carros do outro lado da rua, no estacionamento da arena do Florida Panthers, time de hóquei da NHL. “Eu nunca vi tanto carro esportivo na minha vida”, contou. Ele abriu uma live no Facebook pelo celular e chegou a mais de mil pessoas assistindo ao mesmo tempo.
Uma ou duas semanas depois, repetiu a dose no YouTube, agora com um estabilizador da DJI e microfone de lapela. Passou de 3 mil espectadores simultâneos. “Ali eu entendi que o carro é muito mais legal em vídeo”, disse. “Quando você põe som, ronco, reação.”
O Gol que foi morar nos Estados Unidos
TK comprou o Gol GLR 1991 em 2010, do primeiro dono. Quando se mudou para os Estados Unidos, em 2015, vendeu os outros carros e guardou só ele. No fim de 2017, começou a websérie que documentou a restauração e a ida do carro para o Texas. Foi ali que o canal decolou: os episódios passavam de 100 mil visualizações no primeiro dia, quando o canal tinha pouco mais de 100 mil inscritos.
“Era uma história que só eu podia contar”, disse. Levar um carro popular brasileiro para os Estados Unidos era assunto inédito. Segundo ele, o Gol foi o primeiro carro que a transportadora levou para lá. Anos depois, a empresa já tinha embarcado mais de 200.
Em outubro de 2018, o Gol foi exposto no SEMA Show. Os americanos paravam na frente dele sem entender o motor longitudinal com tração dianteira, configuração que não existe por lá. Com mais de 15 milhões de visualizações somadas, o GLR ganhou o apelido de carro mais visto do Brasil.

Seis meses voando no escuro
A pergunta que interessa a qualquer atleta que quer construir audiência veio de Nicholas: como era a consistência antes da primeira viralização? TK respondeu com um prazo. “Os seis primeiros meses são muito difíceis. Você está voando no escuro. Não sabe quem é a sua audiência, se eles estão gostando, como eles estão se relacionando.”
A receita dele tem poucos ingredientes. Compromisso com dia e horário (“poder falar toda quarta-feira tem vídeo novo aqui no canal”), história com começo, meio e fim, e um microfone decente. “Compra um microfone bom, usa o teu celular e desenrola. O único jeito de aprender a fazer é com o avião voando.”

Ele também explicou por que canal irregular afasta público. Quem entra e vê um vídeo de seis meses atrás, outro de quatro meses e outro de um mês desiste de acompanhar. E deu um conselho de título que vale para qualquer nicho: quanto mais específico o tema, menor o público que ele alcança. “Os problemas que comprar um carro importado antigo te traz” fala com muito mais gente do que “quebrou o câmbio da minha Chevrolet Lumina 1991”.
Hoje, mais de 50% da audiência do Macchina assiste pela televisão, e a maior parte tem entre 25 e 44 anos. “Dá para dizer que a gente tem um programa de televisão”, disse. Pai e filho assistem juntos, e ele trata isso como a principal vitória do canal.

Um almoço que virou o canal da FuelTech
A aproximação com Anderson Dick, fundador da FuelTech, começou pelo carro. Por volta de 2011, montando o GLR, TK chegou a procurar a marca atrás de apoio para a injeção eletrônica. A amizade veio em 2018. TK tinha acabado de comprar um Corvette Z06, e Anderson, que morava na região de Atlanta, o convidou para conhecer a empresa e levar o carro a uma oficina especializada em motores V8 ali perto.
TK foi rodando, cerca de 1.250 km de Dallas até Atlanta num dia só. Gravou um tour pela fábrica e o Corvette de Anderson, que já passava dos 1.000 cavalos. Num almoço em Ball Ground, cidade da sede americana da FuelTech, contou que ainda batalhava para fazer o canal acontecer. Anderson devolveu com uma pergunta: por que ele não fazia vídeo para a FuelTech?
Foi o começo do canal da FuelTech. Desde então, TK guiou mais de 300 carros e gravou cerca de 350 vídeos para a marca, num quadro semanal que segue até hoje. “Amanhã mesmo a gente tem gravação. Quatro carros no mesmo dia”, disse.

A troca também correu no sentido contrário. Anderson publicou o primeiro vídeo do próprio canal durante a pandemia, depois que TK o incentivou a postar um material que tinha gravado com a Ferrari dele. TK confessa que duvidava: achava o amigo reservado demais para ser o rosto da empresa. “No final eu estava errado.” A primeira dica que deu foi nunca esquecer de se apresentar no começo de cada vídeo, porque todo dia chega gente nova. “Depois ele decolou de um jeito que hoje em dia é ele que me dá aula.”
No ano passado, os dois atravessaram os Estados Unidos no DeLorean com motor de Ferrari da FuelTech: 3.200 km até Las Vegas, para o SEMA Show 2025.

O piloto que mostrou a derrota
Antes do canal, TK já circulava pelo automobilismo. Trabalhou dois anos como comissário no GP Brasil de Fórmula 1 e montou o primeiro carro de track day em 2009. “O track day me tirou da arquibancada e me colocou do lado de dentro da pista”, disse. “Aquele Tiago que achava que dirigia bem viu que o buraco é muito mais embaixo.”
Em 2021, de volta ao Brasil, estreou na Copa HB20 dividindo o carro com outro piloto. Depois correu na NASCAR Brasil e fez duas temporadas de rali, as últimas como dono de equipe, até parar no meio de 2025 para acompanhar a chegada do segundo filho. Não saiu do esporte: tem uma moto de arrancada e um carro de track day em montagem.
A primeira corrida na Copa HB20, em Curitiba, virou lição de preparação mental. TK conta que passou cerca de 15 carros na largada e chegou a liderar. “Eu não tive preparo mental para me colocar numa posição de primeiro lugar e focar na minha corrida. Comecei a guiar mais olhando no retrovisor, pensando no cara que estava chegando, do que olhando para frente.” Terminou em segundo.
Depois disso, passou a usar um método que atribui a Roberto Pupo Moreno, ex-piloto de Fórmula 1: pensar em só três coisas a cada curva, como chegar, como contornar e como sair. No rali, onde não dá para decorar o trajeto, a mesma lógica vira foco total na navegação. “A partir do momento que eu penso em quantos quilômetros faltam, eu estou tirando o meu foco. E já não estou sendo o melhor que eu posso.”
TK mostrou tudo isso para a audiência, inclusive o que deu errado. Ele critica a cobertura de piloto que posta a quinta-feira de treino e some no domingo, quando termina em 15º. “Automobilismo é muito mais frustração do que vitória. Pega a estatística de qualquer piloto.” O retorno, admite, foi o pior do canal: o público prefere vê-lo mexendo no Gol na garagem a largando numa corrida de NASCAR. Ele manteve mesmo assim.
A semana que cabe na família
TK voltou dos Estados Unidos em 2021 por uma soma de motivos: a filha recém-nascida em plena pandemia, o negócio crescendo no Brasil, o processo do green card que impedia a família de sair do país e a mãe em tratamento de saúde. Anos depois, o nascimento do filho Lucas, com complicações no parto, o fez rever o calendário inteiro.
Ele só decidiu falar publicamente sobre isso depois de assistir ao vídeo em que Lito Sousa, do canal Aviões e Músicas, conta o diagnóstico de uma doença sem cura. “A gente nunca sabe o que passa na vida de cada um. A internet cria essa coisa de que tudo dá certo, tudo é sucesso, e muitas vezes as pessoas não enxergam o esforço por trás.”
“Quando você começa a fazer sucesso, você começa a ser muito desejado em muitos lugares, e a tendência natural é querer curtir esse momento”, disse. Evento, lançamento, convite de marca. TK recusou mais de uma viagem à China oferecida por montadoras. “Não vou ficar 10, 15 dias fora para gerar conteúdo para eles. Prefiro viajar com a minha família, nem que seja para uma cidade aqui do lado.”
Hoje a semana dele tem desenho fixo. Segunda é dia de reunião interna e do Vaga Reservada, o podcast ao vivo. Terça, quarta e quinta são de gravação. Sexta é o dia coringa, para almoçar com a esposa enquanto as crianças estão na escola ou para cobrir imprevisto. As exceções são escolhidas a dedo: primeiro ano de categoria grande no Brasil, como a MotoGP em Goiânia, onde foi convidado da KTM. “Não sei se vai ter a segunda, então eu quero garantir a primeira.”
Também deixou de fazer avaliação de carro zero-quilômetro para se concentrar nas séries que fizeram o canal crescer. “O tempo é escasso. Eu não consigo comprar mais horas no meu dia.”
Canjica, Calvete e 4.000 km até o SEMA
Os próximos meses do Macchina se dividem entre Brasil e Estados Unidos. Aqui, duas séries. Uma acompanha um Volkswagen Touareg 2011 blindado e o custo de manter um carro de luxo com 15 anos de uso. A outra é o Canjica, um Gol CL 1995 comprado por R$ 10.500 para mostrar quanto custa de verdade um projeto completo. A primeira fase fechou em R$ 78.940, contando o carro, e o motor aspirado agora recebe pistão e biela novos para rodar a etanol.

Nos Estados Unidos, o projeto é o Calvete, um Corvette 1984 comprado barato e em estado ruim. O apelido veio da pintura, que escorreu como cal na primeira lavagem. Carro abundante por lá: a geração C4 do Corvette, fabricada de 1984 a 1996, somou 358.180 unidades, o tipo de oferta que TK já mostrou ao explicar como clássico americano chega à garagem brasileira.
O plano é rodar com ele até Orlando do jeito que está, fazer uma revisão completa de freio, suspensão, buchas e bomba d’água, voltar a Atlanta em outubro e, de lá, seguir da sede americana da FuelTech até Las Vegas, de novo para o SEMA Show. Somados os trechos, são cerca de 4.000 km, mais do que a distância entre São Paulo e Belém.
O que é chegar no topo
No fim, veio a pergunta que fecha todo episódio do No Topo. TK não falou em inscrito nem em faturamento. “É você ser realizado com aquilo que você faz e com aquilo que você vive. Não é quanto dinheiro você tem, porque isso não diz nada. A gente vê a quantidade de milionários com depressão, sozinhos, sem amigo, sem família.”
Ele se considera lá: trabalha com o que gosta, tem a família por perto, amigos em quem confia e autonomia para escolher o que fazer dentro do universo que ama. O próximo objetivo é estabilidade para depois dos 50. E o legado, que ele descreve como o acervo que os filhos vão herdar. “Eles vão ter o canal lá, um monte de coisa que vão poder ver e saber quem era o pai deles.”

O que isso ensina sobre alta performance
A trajetória de TK repete, fora das pistas, uma conta que vale para qualquer atleta: processo somado a tempo. Os seis meses voando no escuro, o vídeo de toda quarta-feira, o quadro semanal que já passa de 350 episódios. Nada disso depende de talento raro. Depende de aparecer toda semana, como mostram outros episódios do No Topo.
Três lições saem da conversa. A primeira é mostrar o processo inteiro, inclusive a derrota: o atleta que só posta pódio perde a parte da história que mais aproxima o público. A segunda é que foco se treina com método simples, como o de Pupo Moreno (chegar, contornar, sair), e não com força de vontade. A terceira é que prioridade tem data. TK parou de correr para acompanhar a chegada do filho, não abandonou o automobilismo e escolhe a dedo as exceções que valem um fim de semana fora de casa.
E há um ponto para quem depende de patrocínio: a parceria com a FuelTech nasceu de conteúdo, não de proposta comercial. Anderson viu o trabalho antes de fazer o convite.
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