“Depois eu faço.” “Hoje não é o meu melhor dia.” “Preciso estar mais preparado.” Todo atleta já usou uma dessas frases para adiar um treino, uma conversa com o treinador ou um ajuste que sabe que precisa fazer. A leitura mais comum é que falta disciplina.
Para o psicólogo Luiz Wigderowitz, mentor da Atleta Pro Academy, essa leitura costuma estar errada. No vídeo “Atleta, como vencer a procrastinação e treinar todos os dias”, publicado no canal da Atleta Pro Academy, ele trata a procrastinação como um comportamento de autoproteção, “muito além da preguiça”. E mostra por que o atleta que adia hoje paga com juros amanhã.
Preguiça e evitação não são a mesma coisa
A primeira distinção que Wigderowitz propõe é entre preguiça e evitação. Preguiça é o adiamento de quem está cansado ou simplesmente não quer fazer algo naquele momento. Evitação é outra coisa: é fugir de uma tarefa porque ela representa algum tipo de ameaça.
O psicólogo pede um exercício de honestidade. Se o atleta está de fato esgotado, descansar é o correto. Mas, quando o cansaço não explica o adiamento, o que está em jogo é a evitação, e ela não se resolve com mais cobrança.
A mente adia para proteger
Wigderowitz parte de um princípio: a principal função da mente é proteger, seja de ameaças grandes ou pequenas. Quanto maior a ameaça que a mente enxerga numa situação, maior a tendência de evitar aquilo.
Aqui entra o conceito que ele chama de significado psicológico: o nível de importância que o atleta dá ao que acontece com ele e ao que precisa fazer depois. Uma sessão de treino técnico, uma prova-teste ou uma avaliação física podem carregar um significado enorme. É o treino que vai mostrar se o atleta evoluiu ou não. Quanto mais pesado esse significado, maior a vontade de empurrar para depois.
Por isso, segundo ele, a atitude que parece falta de disciplina muitas vezes é “uma tentativa ainda inconsciente de reduzir um desconforto” que o atleta ainda não entende com clareza.
A pesquisa acadêmica vai na mesma direção. Em um artigo de 2013 na revista Social and Personality Psychology Compass, os psicólogos Fuschia Sirois e Timothy Pychyl descrevem a procrastinação como uma falha de autorregulação ligada ao reparo do humor de curto prazo. Diante de uma tarefa aversiva, a pessoa adia para se livrar da emoção negativa naquele instante. O alívio dura pouco, e a conta chega depois, em forma de pressão de tempo, culpa e ansiedade.
O que é adiado hoje volta amanhã com mais peso
É exatamente esse o ponto central do vídeo. “O que você evita hoje volta amanhã com mais peso ainda”, afirma Wigderowitz. A procrastinação não elimina a ameaça. Só empurra o confronto com o medo mais para frente.
Para o atleta, isso tem custo concreto. O fundamento técnico que não foi corrigido na pré-temporada aparece na competição. A conversa difícil com o treinador que foi adiada vira um mês de treino desalinhado.
Oscilação emocional: o atleta refém do último resultado
Da evitação nasce o que Wigderowitz chama de oscilação emocional. É o atleta que num dia acredita que vai conquistar tudo e no outro sente que não faz nada direito. Uma competição excelente leva a autoconfiança lá em cima; um erro no dia seguinte destrói a percepção de competência.
O resultado, segundo o psicólogo, é que o atleta passa a depender do placar para saber como deve se sentir. “Isso é um problema de autorregulação emocional e tem muito a ver com a procrastinação”, diz.
A consequência prática é direta: “Nenhum atleta de alto rendimento pode depender exclusivamente do estado emocional para executar”, seja um treino simples e repetitivo, seja uma decisão importante em prova. O tema conversa com outro ponto que o Atleta Pro já explorou, o de como o atleta constrói e recupera a autoconfiança.
Nomear a emoção antes de executar
A saída proposta por Wigderowitz começa por dar nome ao que se sente. Ele separa dois conceitos: emoção é o que vem na hora em que algo acontece; sentimento é o que o atleta carrega depois.

Na prática, a regulação aparece em frases que reconhecem a emoção sem entregar a ela o controle da próxima ação. Os exemplos que ele dá no vídeo:
- “Estou inseguro, mas vou executar o meu melhor dentro do que treinei.”
- “Estou frustrado com o erro, mas qual é o próximo movimento?”
- “Estou ansioso, mas consigo tomar boas decisões e vou em frente.”
“A estabilidade emocional não significa ausência de emoções e sentimentos”, resume. Significa não permitir que cada uma delas assuma a execução seguinte.
A neurociência dá sustentação à ideia. Um estudo da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), liderado por Matthew Lieberman e publicado em 2007 na Psychological Science, mostrou por ressonância magnética que rotular a emoção em palavras reduz a atividade da amígdala, região ligada às respostas de ameaça, e aumenta a atividade de uma área do córtex pré-frontal. Para quem compete, a lógica é a mesma de controlar a ansiedade antes da competição: reconhecer primeiro, executar depois.
Por que o mesmo erro volta na hora decisiva
Wigderowitz aponta um dos sinais mais evidentes de procrastinação: o atleta continua cometendo os mesmos erros. Ele sabe o que está fazendo errado, o treinador já falou, ele mesmo já percebeu. Promete que na próxima será diferente e, na hora decisiva, faz exatamente a mesma coisa.
A explicação está numa diferença que o psicólogo considera fundamental: ter treinado e saber o que fazer não garante fazer sob pressão. O comportamento pode estar automatizado por muita repetição, mas, quando a pressão sobe e o ambiente fica hostil, o atleta pode voltar ao padrão mais inseguro da própria mente.
Por isso, dizer “não vou mais repetir isso” é, nas palavras dele, “absolutamente insuficiente”. A mudança de comportamento começa quando o atleta consegue responder a três perguntas:
- Em que momento o erro aparece?
- Qual estado emocional vem antes desse momento?
- Qual é a resposta automática quando essa hora chega?
A sabotagem que aparece antes de subir de nível
O trecho final do vídeo trata de um padrão que muitos treinadores reconhecem. Toda vez que o atleta está prestes a subir de nível, alguma coisa acontece. Ele muda de objetivo, desrespeita a estratégia combinada, encontra justificativas “muito racionais e lógicas”, perde intensidade no treino e na competição. E começa a se perguntar se realmente quer aquilo.
Wigderowitz explica que evoluir não é só ganhar medalha e troféu. “Evoluir também significa abandonar uma versão sua que te trouxe até aqui”, mas que é menor do que a versão necessária para as próximas conquistas. Isso gera um conflito interno entre o que o atleta deseja conscientemente e o que o seu sistema mental considera seguro para a identidade e o valor dele como pessoa.
O que isso ensina sobre alta performance
A procrastinação no esporte raramente é um problema de agenda. É um problema de significado e de emoção, e tratá-la como falta de força de vontade só aumenta a cobrança sem mexer na causa.
A leitura de Wigderowitz devolve ao atleta o que está sob controle dele:
- Separar cansaço de evitação. Descanso é parte do processo; fuga não é.
- Parar de medir o próprio valor pelo último resultado. Derrota é evento, não identidade.
- Nomear a emoção e decidir a próxima ação mesmo com ela presente.
- Mapear o erro repetido: o momento, a emoção que vem antes e a resposta automática.
- Reconhecer a autossabotagem quando ela aparece justamente na véspera do salto.
Nenhum desses passos depende de talento. Dependem de processo, repetido todo dia. Para aprofundar o tema, o guia completo de treinamento mental para atletas reúne as principais ferramentas da psicologia do esporte, e o texto sobre como superar a derrota no esporte trata do dia seguinte ao resultado ruim.
Quer treinar a mente com quem acompanha atletas de verdade?
Na Atleta Pro Academy, mentores como o psicólogo Luiz Wigderowitz trabalham a estrutura mental de atletas que competem em alto nível.






