Daniel Tomelin ganhou a primeira moto aos cinco anos e meio, em Ponta Grossa, no interior do Paraná. Onze anos depois, o piloto de 16 anos tem data marcada com a principal porta de entrada da motovelocidade mundial: foi convidado para a seletiva da Red Bull MotoGP Rookies Cup, que acontece de 5 a 7 de outubro no Circuito Mike G Guadix, na região de Granada, na Espanha.
Em jogo está uma vaga no grid de 2027 da categoria que revelou Pedro Acosta, Joan Mir, Brad Binder e Johann Zarco. É o mesmo degrau que o brasileiro Diogo Moreira, hoje na MotoGP pela LCR Honda, subiu em 2021.
“Receber esse convite representa mais um passo na minha trajetória, construída com dedicação, desafios e muito treino”, disse Daniel ao D’Ponta News. “Minha expectativa é dar o meu melhor durante a seletiva, mostrar minha evolução nas pistas e conquistar uma vaga na Red Bull MotoGP Rookies Cup para 2027.”
Daniel é membro da Atleta Pro Academy.

O que é a Red Bull MotoGP Rookies Cup
A Rookies Cup foi criada pela Red Bull em 2007 como campeonato de formação para pilotos adolescentes. As corridas acontecem nos fins de semana de MotoGP na Europa, no mesmo paddock dos pilotos que os garotos assistem pela TV.
A regra que define a categoria é a igualdade de equipamento. Desde 2013, todos correm com a mesma KTM RC 250 R, moto de quatro tempos e 250 cc, a mesma base técnica da Moto3. Antes disso, o grid usava uma KTM de 125 cc e dois tempos. Com moto idêntica para todo mundo, a diferença de tempo de volta fica por conta do piloto.
O retrospecto explica o peso do convite. Até 2026, 30 ex-Rookies conquistaram pelo menos um título mundial, somando MotoGP, Moto2, Moto3, Superbike e Supersport. Alguns nomes:
- Johann Zarco: primeiro campeão da Rookies Cup, em 2007, e depois bicampeão mundial de Moto2.
- Brad Binder: passou pela Rookies Cup em 2009 e foi campeão mundial de Moto3 em 2016.
- Joan Mir: correu a Rookies Cup em 2013 e 2014, foi campeão de Moto3 em 2017 e campeão da MotoGP em 2020.
- Pedro Acosta: campeão da Rookies Cup em 2020, campeão de Moto3 em 2021 no ano de estreia e campeão de Moto2 em 2023. Neste ano, venceu pela primeira vez na MotoGP, no GP da Áustria.
Os campeões mais recentes da Rookies Cup foram o colombiano David Alonso (2021) e os espanhóis José Antonio Rueda (2022), Ángel Piqueras (2023), Álvaro Carpe (2024) e Brian Uriarte (2025).
Como funciona a seletiva de Guadix
A seletiva não é uma corrida. Durante três dias, os convidados andam na pista sob o olho de uma comissão de seleção. Tempo de volta conta, mas não decide sozinho: a comissão também avalia a evolução do piloto ao longo dos dias, a forma de trabalhar e o potencial de crescimento.
A concorrência é global. Na edição de 2025, também em Guadix, 112 pilotos de 38 países foram avaliados, e 56 chegaram ao último dia. Peter Clifford, diretor de desenvolvimento de pilotos da Rookies Cup, disse na época que cerca de oito novos pilotos seriam chamados para o grid de 2026. Ou seja, menos de um em cada dez convidados sai de Guadix com vaga.
Chegar até lá já é filtro. O convite depende de uma inscrição prévia, analisada pela organização a partir dos resultados e da trajetória de cada candidato ao longo da temporada.

Do velocross ao asfalto
A trajetória de Daniel começou na terra. Depois da primeira moto, aos cinco anos e meio, ele passou a competir aos oito, no velocross. Aos dez, migrou para o motocross e chegou a disputar etapas do Campeonato Brasileiro da modalidade.
A virada para a motovelocidade se consolidou em 2024, quando ele correu o calendário completo das duas categorias escola da Yamaha no mesmo ano. “Fui o primeiro e único piloto a fazer a YZ 125 e a R15, que são as duas categorias escolas da Yamaha, e fazer o campeonato completo no ano de 2024”, contou ao portal aRede. Na mesma temporada, terminou em 10º lugar no Campeonato Latino-Americano de Motovelocidade, na categoria R15 bLU cRU.
Em 2025 vieram os primeiros títulos no asfalto:
- Campeão da categoria Pro Open da Copa SC de Motovelocidade;
- Campeão da categoria GP300 do Campeonato Paranaense de Motovelocidade;
- 3º lugar geral na categoria GP 400 do Campeonato Catarinense de Motovelocidade.
“Hoje a prioridade mesmo é o asfalto. Tô me dedicando mais na motovelocidade”, resumiu o piloto.
A rotina de um piloto de 16 anos
Fora das provas, Daniel treina durante a semana em kartódromos e faz preparação física em academia. Um fim de semana de competição ocupa de quinta a domingo, com reconhecimento de pista, treinos livres, classificação e corrida.
A conta com a escola fecha à noite. Aluno do segundo ano do ensino médio, ele cursa aulas noturnas e parte do conteúdo online para não perder o calendário de provas.
Em entrevista publicada em 22 de setembro, oito dias antes do anúncio do convite, Daniel desconversou quando o assunto foi o próximo passo. “A gente tem uma viagem para a Europa logo, mas só isso que eu posso falar. Novidades depois vão vir.” Sobre o futuro, foi direto: “Pra ser sincero, não penso em outra coisa. Me imagino com a moto ou na moto.”

O caminho que Diogo Moreira percorreu
O Brasil já tem um exemplo recente do que a Rookies Cup pode abrir. Diogo Moreira disputou a categoria em 2021, somou quatro pódios nas cinco primeiras corridas e terminou o campeonato em sexto lugar. O desempenho rendeu o convite para o Mundial de Moto3 no ano seguinte.
Quatro temporadas depois, Moreira foi campeão mundial de Moto2 em 2025, o primeiro brasileiro a conquistar um título em qualquer categoria do Mundial de Motovelocidade. Em 2026 estreou na MotoGP pela LCR Honda, o primeiro brasileiro no grid principal desde Alex Barros, em 2007. O portal acompanha a temporada dele no guia dos pilotos da MotoGP 2026 e na prévia do GP do Japão.
O detalhe que importa para quem vai a Guadix: Moreira não foi campeão da Rookies Cup. Terminou em sexto. A categoria serve de vitrine, e o que acontece depois dela depende da evolução do piloto nas temporadas seguintes.
O que Daniel leva para a Espanha
No comunicado em que anunciou o convite, Daniel dividiu o momento com quem o apoia. “Essa conquista também pertence às marcas que acreditam em mim. O apoio da Atleta Pro é fundamental para que eu possa continuar treinando, competindo e buscando oportunidades desse nível.”
A missão em Guadix é específica: mostrar, em três dias e com uma moto que não é a dele, que tem velocidade e capacidade de evoluir sessão após sessão. O resultado da seletiva costuma ser divulgado pela organização nas semanas seguintes ao evento.
O que isso ensina sobre alta performance
O convite é consequência de processo. Daniel não chegou a Guadix por um fim de semana inspirado. Foram onze anos de moto, passagem pela terra, duas categorias escola num mesmo ano e títulos estaduais antes de a porta internacional abrir.
A seletiva mede o que não aparece na tabela de tempos. A comissão observa como o piloto evolui, trabalha e responde ao que acontece na pista. Para o atleta jovem, isso significa que o treino da semana, a forma de ouvir a equipe e de corrigir um erro contam tanto quanto a volta rápida.
O resultado é evento, não sentença. Com cerca de oito vagas para mais de uma centena de candidatos, a maioria dos convidados volta para casa sem lugar no grid, e muitos deles seguem carreira. Diogo Moreira terminou a Rookies Cup em sexto e virou campeão do mundo quatro anos depois. Para Daniel, a vaga seria um atalho de experiência. A carreira continua sendo construída do mesmo jeito que o trouxe até aqui.
Daniel Tomelin faz parte da Atleta Pro Academy
Conheça o ambiente onde atletas de várias modalidades tratam a carreira como processo, dentro e fora da competição.







