Em agosto de 2026, o energético Dane-se faturou R$ 409,6 mil, o maior mês da sua história. O EBITDA ficou em R$ 1.889, ou 0,46% da receita. Foi o primeiro mês no azul, e a própria marca mostrou o número no Instagram, onde tem 634 mil seguidores.
O começo explica o caso. Antes de existir a primeira lata, o fundador Gregório Machado passou dois anos produzindo conteúdo para as redes. No perfil pessoal ele se apresenta como maratonista, com provas em Nova York, no Rio de Janeiro e em Porto Alegre, e como “futuro Ironman”. A marca seguiu a mesma lógica de um ciclo longo de treino: primeiro a base, depois o resultado.

Da praça de alimentação ao recomeço
A primeira empresa de Gregório foi a Pizza Makers, criada em dezembro de 2016 para as praças de alimentação dos shoppings. O cliente montava a própria pizza com mais de 30 ingredientes, e ela assava em até dois minutos.
A rede cresceu rápido. No fim de 2019 eram 13 lojas em operação, mais quatro já vendidas, e um faturamento de R$ 19 milhões no ano, segundo a Revista Shopping Centers.
Aí veio a pandemia. Com os shoppings fechados, a rede perdeu o faturamento, e Gregório foi procurar outro negócio. A Pizza Makers continua existindo e ainda aparece na bio dele.
A ideia veio de uma lata nos Estados Unidos
Em 2022, numa viagem aos Estados Unidos, Gregório viu água mineral vendida em lata. A referência era a Liquid Death, marca americana lançada em 2019 pelo publicitário Mike Cessario. Em março de 2024 ela foi avaliada em US$ 1,4 bilhão, vendendo água com estética de banda de heavy metal.
“Eu vi o case de Liquid Death e comecei com uma brincadeira no Instagram”, contou ele no Marketing Future Today.
A brincadeira era um perfil de um produto que ainda não existia. Segundo a Rede Food Service, em poucas semanas distribuidores já procuravam a marca. O nome também foi escolhido para chamar atenção: o primeiro pedido de registro era “Foda-se”, que não passou. “É um dane-se ao plástico, um dane-se de liberdade”, disse Gregório.
Dois anos de vídeo antes da primeira venda
Havia um motivo prático para testar antes. Fábrica de bebida trabalha com lote mínimo, e no caso da Dane-se o lote era de 200 mil unidades. Encomendar isso sem saber se alguém ia comprar era arriscado demais para quem estava recomeçando.
“Se for para entrar no mercado de gigantes, a única chance que eu tinha era ter um produto que chamasse mais atenção”, explicou.
Foram dois anos gravando antes do lançamento. Segundo o NeoFeed, o primeiro lote, de 3 mil latas, foi para a Amazon no fim de 2023 e acabou em poucas horas. Em maio de 2024 o perfil passou de 100 mil seguidores, 60 mil deles ganhos em uma única semana, de acordo com o AdNews. Em dezembro de 2024, um vídeo curto chamado “JUST DANE-SE” passou de 1,1 milhão de visualizações.

Da água ao energético
A água deu audiência, mas o crescimento veio de outro produto. Em junho de 2025 a Dane-se fez a pré-venda da primeira linha de energéticos, em dois sabores:
- Melancia: 5 kcal e zero açúcar.
- Manga Tropical: 15 kcal, com 2,4 g de açúcar vindo da fruta.
- Nos dois: cafeína natural do guaraná, vitaminas, nada de taurina nem açúcar refinado, e lata de 350 ml.
No primeiro mês, vendendo só pela internet, a linha faturou mais de R$ 100 mil, segundo a Giro News. O lançamento oficial foi em novembro de 2025, com mais de 1 milhão de latas. Em agosto de 2026 os energéticos já eram 85% da receita da empresa, de acordo com o Marketing Future Today.
| Quando | O que aconteceu |
|---|---|
| Dez/2016 | Nasce a Pizza Makers |
| 2019 | 13 lojas em operação e R$ 19 milhões de faturamento |
| 2022 | Gregório vê água em lata nos EUA e cria o perfil da marca |
| Fim de 2023 | Primeiro lote, de 3 mil latas, esgota na Amazon |
| Mai/2024 | 100 mil seguidores, 60 mil deles em uma semana |
| Jun/2025 | Pré-venda dos energéticos |
| Nov/2025 | Rebels Ventures compra 25% e o energético chega às lojas |
| Ago/2026 | R$ 409,6 mil de faturamento e primeiro EBITDA positivo |
| Set/2026 | Geladeira própria no Carrefour e 634 mil seguidores |
Os fundadores da Reserva entram no jogo
Em 18 de novembro de 2025, a Rebels Ventures comprou 25% da Dane-se. A Rebels é a gestora criada por Rony Meisler, Fernando Sigal, Jayme Nigri Moszkowicz e José Alberto Silva, os fundadores da Reserva. Os sócios da marca de roupas Baw, Bruno e Lucas Karra e Celso Ribeiro, entraram junto. O valor não foi revelado.
Quando Meisler conheceu Gregório, a marca tinha 60 mil seguidores. Na assinatura eram quase 330 mil. “Esse rapaz é meio doido, é empreendedor e tem a rebeldia que a gente gosta”, disse Meisler ao NeoFeed. Gregório explicou a escolha dos sócios assim: “Esses caras não são faladores. Eles foram lá e realmente fizeram.”
As metas anunciadas eram R$ 5 milhões de faturamento em 2025, R$ 40 milhões em 2026 e passar a Baly em 2029. Não é pouca coisa. Em dezembro de 2025, a Baly, de Santa Catarina, tinha 34,9% do volume de energéticos no Brasil, contra 30,3% da Monster, segundo dados da NielsenIQ e da Scanntech.
Bastidores abertos, números reais
O que a Dane-se vende, além da lata, é o próprio processo. O perfil mostra o faturamento do mês, os erros na negociação com o varejo e a chegada das geladeiras às lojas. “A gente criou nosso canal de entretenimento que é a vida real de um empresário. Eu acho que hoje em dia, a autenticidade vende e vende muito”, afirmou Gregório.
Em 9 de setembro, a marca explicou a estratégia numa legenda: “Hoje tem mais de 40 mil produtos numa gôndola de mercado. Sem marca e sem audiência, mesmo o produto bom passa despercebido.” E terminou com: “Marca abre a porta. Produto bom garante que ela não saia mais.”
Um dia antes, a Dane-se tinha postado a foto da sua geladeira no Carrefour, ao lado das da Monster e da Red Bull. “Tomamos muita porrada, e ainda estamos tomando. Mas ver nossa geladeira ao lado dos gigantes do energético não tem preço”, escreveu. Hoje a bio lista Carrefour e St. Marche, e anuncia Zaffari e Stok Center “em breve”.

A conta que ainda não fecha
O caso é bom e a conta ainda está longe do fim. Se agosto se repetir por 12 meses, dá cerca de R$ 4,9 milhões por ano, bem abaixo da meta de R$ 40 milhões anunciada para 2026. E um EBITDA de 0,46% quer dizer que qualquer mês ruim devolve a empresa ao vermelho.
Até esse ponto a própria marca expõe. Em vez de guardar o número até ele ficar bonito, a Dane-se mostrou o mês do empate como marco.
O que a Dane-se ensina sobre alta performance
Base antes do pico. Foram dois anos de conteúdo até a primeira venda, e quase três até o primeiro mês positivo. É o mesmo princípio de quem prepara uma maratona ou um Ironman: o resultado chega depois de um processo que quase ninguém vê.
Derrota é evento, não identidade. A pandemia tirou o faturamento de uma rede com 13 lojas. Gregório não parou, mudou de negócio e usou o que tinha aprendido sobre operação e varejo.
O atleta também é uma marca. A lógica que sustenta a Dane-se é a mesma de quem vive de patrocínio: audiência abre porta. Atletas já usam o Instagram como parte do treino para atrair marcas, e Nick Bare transformou a própria rotina numa empresa de suplementos. Postar é trabalho, feito todo dia.
Mostrar o número ruim gera confiança. A Dane-se publica o mês fraco junto com o recorde. Atleta que só mostra o pódio perde a chance de construir a mesma credibilidade.
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