Quem passa o dia tomando decisões que mexem com dinheiro, equipes e clientes costuma ter dificuldade de achar um lugar onde a pressão seja real, mas controlada. Cada vez mais empresários e executivos têm encontrado esse lugar em um tapete de 10 metros por 10. Reportagens recentes no Brasil e nos Estados Unidos descrevem o jiu-jitsu como uma modalidade em ascensão entre líderes de negócios, de donos de rede de farmácias a CEOs de empresas de tecnologia. Do ponto de vista de um treinador mental de atletas, a pergunta interessante não é “por que está na moda”, e sim: o que o tatame entrega que a rotina de quem empreende não entrega?

Um artigo do Brazil Journal, sobre a trajetória do empresário e ex-campeão mundial Fábio Gurgel, cita cerca de 10 milhões de praticantes no mundo e crescimento de dois dígitos ao ano, números que vêm do relato e não de um levantamento independente. Já a Business Insider (2025) aponta que o esporte saiu do nicho, há cerca de 15 anos, para a prática mainstream, e cita executivos como Mark Zuckerberg, Dan Schulman (PayPal), Andrew Wilson (EA) e Elon Musk entre os adeptos, vários deles tendo começado depois dos 30 ou 40 anos. O que segue é uma leitura de performance mental sobre os motivos que esses relatos repetem.
1. Controle emocional sob pressão real
No jiu-jitsu, ficar preso debaixo de um oponente aciona o instinto de desespero. A técnica, porém, exige calma e raciocínio justamente nesse momento. O empresário Wladson Sidney, presidente da ADVB-CE e faixa-preta, resume em artigo a ideia de aprender a “respirar sob pressão”, comparando o tatame às pressões de concorrentes, prazos e processos nos negócios. Na prática, é um laboratório de regulação emocional: o atleta repete, centenas de vezes, a experiência de sentir o corpo pedir pânico e escolher responder com método.
2. Foco total e pausa das telas
Zuckerberg disse no podcast de Joe Rogan que, se você desvia a atenção por um segundo, acaba por baixo. A frase explica parte do apelo: durante o treino não há espaço para celular, e-mail ou reunião. Para quem vive fragmentado em notificações, uma hora de atenção completa tem valor próprio. Para o treinador mental, isso é treino de atenção plena em movimento.
3. Decisão e leitura de cenário, mesmo cansado
O esporte pede adaptação e resposta rápida com fadiga. Um erro de leitura vira uma finalização. Segundo a reportagem da Band, essa lógica se parece com a dos negócios, em que um erro pode custar um cliente ou um investimento. Sidney acrescenta um princípio: vence mais quem age por observação do que quem reage por impulso, e saber recuar estrategicamente faz parte do jogo, seja largando uma posição ruim no tatame, seja abrindo mão de um cliente ou de um investimento.

4. Humildade e hierarquia invertida
Na empresa, o executivo costuma ocupar o topo. No tatame, ele é faixa-branca e pode ser dominado por alguém mais jovem, menor ou de profissão bem diferente. A progressão de faixas leva anos, e ninguém compra faixa. Esse reset de ego é apontado como um dos maiores atrativos: o líder volta a ser aprendiz, o que melhora a escuta e a capacidade de receber feedback fora dali.
5. Feedback imediato e honesto
A técnica funciona ou não funciona. Não há desculpa, relatório maquiado ou reunião para discutir. Quem empreende convive com resultados lentos e ambíguos, então um ambiente em que a resposta aparece em segundos tem efeito de clareza. O gesto do “tap” (a batida que sinaliza desistência) ensina também algo valioso: reconhecer um limite a tempo é uma habilidade, não uma derrota.
6. Válvula de escape e saúde
Julio Marinho, gestor de uma rede de drogarias no Rio de Janeiro e faixa-azul, descreve o tatame como válvula de escape para uma rotina intensa e diz ter ganhado concentração, foco e disciplina. Ele treina cerca de uma hora por dia, e a reportagem registra que dorme menos de oito horas, o que é um lembrete de que o jiu-jitsu não substitui o cuidado com o descanso. Também há citações de melhora de condicionamento, redução do estresse e melhora do sono, que são benefícios plausíveis mas relatados, não medidos nessas reportagens. Lesões como entorses são possíveis, e Sidney conta que um problema cervical o afastou por seis meses; quem começa deve ter orientação profissional e avaliação médica.
7. Comunidade contra a solidão de quem lidera
Empreender costuma ser solitário. O treino em grupo cria vínculos baseados em respeito, com rituais como cumprimentar o parceiro e limpar o tatame, e reúne pessoas de níveis profissionais muito diferentes. Para o empresário, é uma rede de relações em que o status do crachá não vale nada.

Por que competir?
Competir é o passo seguinte para quem quer testar a mente sob pressão de verdade. A IBJJF organiza campeonatos para veteranos, e o Mundial Master é descrito como o maior do mundo para essa faixa etária; a edição de 2026, de 3 a 5 de setembro em Las Vegas, reuniu cerca de 6,6 mil atletas, segundo levantamento do site Let’s BJJ. Para o empresário amador, competir cria prazo, meta e exposição ao risco de perder em público, e é exatamente aí que a lição se aprofunda: preparar-se por meses, lidar com ansiedade pré-luta e aceitar o resultado. Competir também é uma escolha pessoal, não uma obrigação do esporte; muitos treinam a vida inteira sem subir em um pódio.
Como começar sem se ferir
Procure uma academia com professor graduado e cultura de treino seguro, informe lesões prévias, faça avaliação médica, comece em turmas iniciantes e combine a frequência com a sua rotina de sono. A progressão é lenta de propósito: o primeiro ano é para aprender a cair, escapar e sobreviver, não para vencer.
Leia também: Crescimento do jiu-jítsu no Brasil em 2026: o que está por trás da expansão · Roger Gracie: 10 títulos e nunca finalizado na carreira · Treinamento mental para atletas: o guia completo para competir sob pressão
Perguntas frequentes
Por que empresários estão praticando jiu-jitsu?
Porque o tatame oferece pressão real, mas controlada. Os motivos que se repetem são controle emocional sob pressão, foco total longe das telas, decisão mesmo cansado, humildade de voltar a ser faixa-branca, feedback imediato, válvula de escape e uma comunidade em que o status do crachá não vale nada.
Quais executivos famosos praticam jiu-jitsu?
A Business Insider cita Mark Zuckerberg, Dan Schulman, Andrew Wilson e Elon Musk entre os adeptos, vários deles tendo começado depois dos 30 ou 40 anos. No Brasil, reportagens mostram empresários e gestores que treinam diariamente.
O jiu-jitsu ajuda a controlar o estresse?
Praticantes relatam redução do estresse, melhora do sono, mais concentração e disciplina, mas são benefícios relatados, não medidos nessas reportagens. O treino também não substitui o cuidado com o descanso.
Dá para começar no jiu-jitsu depois dos 40 anos?
Sim. O caminho é procurar uma academia com professor graduado e cultura de treino seguro, informar lesões prévias, fazer avaliação médica e começar em turma iniciante. O primeiro ano é para aprender a cair, escapar e sobreviver, não para vencer.
Existe campeonato de jiu-jitsu para veteranos?
Sim. A IBJJF organiza campeonatos para veteranos, e o Mundial Master, em Las Vegas, é descrito como o maior do mundo para essa faixa etária. Competir cria prazo, meta e exposição ao risco de perder em público, mas é uma escolha pessoal, não uma obrigação do esporte.
Por Nicholas Pasqualetto, Treinador Mental de Atletas.
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