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Do escritório ao tatame: por que empresários escolhem o jiu-jitsu

Dois adultos de kimono branco treinam uma raspagem de jiu-jitsu em uma academia com janelões

Quem passa o dia tomando decisões que mexem com dinheiro, equipes e clientes costuma ter dificuldade de achar um lugar onde a pressão seja real, mas controlada. Cada vez mais empresários e executivos têm encontrado esse lugar em um tapete de 10 metros por 10. Reportagens recentes no Brasil e nos Estados Unidos descrevem o jiu-jitsu como uma modalidade em ascensão entre líderes de negócios, de donos de rede de farmácias a CEOs de empresas de tecnologia. Do ponto de vista de um treinador mental de atletas, a pergunta interessante não é “por que está na moda”, e sim: o que o tatame entrega que a rotina de quem empreende não entrega?

Dois adultos de kimono branco treinam uma raspagem de jiu-jitsu em uma academia com janelões
Treino de jiu-jitsu entre adultos: pressão real, mas controlada. Foto: Senior Airman Kevin Long/U.S. Air Force (domínio público), via Wikimedia Commons

Um artigo do Brazil Journal, sobre a trajetória do empresário e ex-campeão mundial Fábio Gurgel, cita cerca de 10 milhões de praticantes no mundo e crescimento de dois dígitos ao ano, números que vêm do relato e não de um levantamento independente. Já a Business Insider (2025) aponta que o esporte saiu do nicho, há cerca de 15 anos, para a prática mainstream, e cita executivos como Mark Zuckerberg, Dan Schulman (PayPal), Andrew Wilson (EA) e Elon Musk entre os adeptos, vários deles tendo começado depois dos 30 ou 40 anos. O que segue é uma leitura de performance mental sobre os motivos que esses relatos repetem.

1. Controle emocional sob pressão real

No jiu-jitsu, ficar preso debaixo de um oponente aciona o instinto de desespero. A técnica, porém, exige calma e raciocínio justamente nesse momento. O empresário Wladson Sidney, presidente da ADVB-CE e faixa-preta, resume em artigo a ideia de aprender a “respirar sob pressão”, comparando o tatame às pressões de concorrentes, prazos e processos nos negócios. Na prática, é um laboratório de regulação emocional: o atleta repete, centenas de vezes, a experiência de sentir o corpo pedir pânico e escolher responder com método.

2. Foco total e pausa das telas

Zuckerberg disse no podcast de Joe Rogan que, se você desvia a atenção por um segundo, acaba por baixo. A frase explica parte do apelo: durante o treino não há espaço para celular, e-mail ou reunião. Para quem vive fragmentado em notificações, uma hora de atenção completa tem valor próprio. Para o treinador mental, isso é treino de atenção plena em movimento.

3. Decisão e leitura de cenário, mesmo cansado

O esporte pede adaptação e resposta rápida com fadiga. Um erro de leitura vira uma finalização. Segundo a reportagem da Band, essa lógica se parece com a dos negócios, em que um erro pode custar um cliente ou um investimento. Sidney acrescenta um princípio: vence mais quem age por observação do que quem reage por impulso, e saber recuar estrategicamente faz parte do jogo, seja largando uma posição ruim no tatame, seja abrindo mão de um cliente ou de um investimento.

Faixa coral veterano de cabelo grisalho rola com um aluno de kimono azul em uma academia de jiu-jitsu
Um faixa coral veterano treina com um aluno: no tatame, idade e cargo não decidem. Foto: Sgt. Jose Lora/U.S. Army (domínio público), via Wikimedia Commons

4. Humildade e hierarquia invertida

Na empresa, o executivo costuma ocupar o topo. No tatame, ele é faixa-branca e pode ser dominado por alguém mais jovem, menor ou de profissão bem diferente. A progressão de faixas leva anos, e ninguém compra faixa. Esse reset de ego é apontado como um dos maiores atrativos: o líder volta a ser aprendiz, o que melhora a escuta e a capacidade de receber feedback fora dali.

5. Feedback imediato e honesto

A técnica funciona ou não funciona. Não há desculpa, relatório maquiado ou reunião para discutir. Quem empreende convive com resultados lentos e ambíguos, então um ambiente em que a resposta aparece em segundos tem efeito de clareza. O gesto do “tap” (a batida que sinaliza desistência) ensina também algo valioso: reconhecer um limite a tempo é uma habilidade, não uma derrota.

6. Válvula de escape e saúde

Julio Marinho, gestor de uma rede de drogarias no Rio de Janeiro e faixa-azul, descreve o tatame como válvula de escape para uma rotina intensa e diz ter ganhado concentração, foco e disciplina. Ele treina cerca de uma hora por dia, e a reportagem registra que dorme menos de oito horas, o que é um lembrete de que o jiu-jitsu não substitui o cuidado com o descanso. Também há citações de melhora de condicionamento, redução do estresse e melhora do sono, que são benefícios plausíveis mas relatados, não medidos nessas reportagens. Lesões como entorses são possíveis, e Sidney conta que um problema cervical o afastou por seis meses; quem começa deve ter orientação profissional e avaliação médica.

7. Comunidade contra a solidão de quem lidera

Empreender costuma ser solitário. O treino em grupo cria vínculos baseados em respeito, com rituais como cumprimentar o parceiro e limpar o tatame, e reúne pessoas de níveis profissionais muito diferentes. Para o empresário, é uma rede de relações em que o status do crachá não vale nada.

Dois atletas adultos de kimono disputam uma luta em um torneio de jiu-jitsu ao ar livre
Torneio adulto de jiu-jitsu em Darwin, na Austrália. Foto: Staff Sgt. Jose O. Nava/U.S. Marine Corps (domínio público), via Wikimedia Commons

Por que competir?

Competir é o passo seguinte para quem quer testar a mente sob pressão de verdade. A IBJJF organiza campeonatos para veteranos, e o Mundial Master é descrito como o maior do mundo para essa faixa etária; a edição de 2026, de 3 a 5 de setembro em Las Vegas, reuniu cerca de 6,6 mil atletas, segundo levantamento do site Let’s BJJ. Para o empresário amador, competir cria prazo, meta e exposição ao risco de perder em público, e é exatamente aí que a lição se aprofunda: preparar-se por meses, lidar com ansiedade pré-luta e aceitar o resultado. Competir também é uma escolha pessoal, não uma obrigação do esporte; muitos treinam a vida inteira sem subir em um pódio.

Como começar sem se ferir

Procure uma academia com professor graduado e cultura de treino seguro, informe lesões prévias, faça avaliação médica, comece em turmas iniciantes e combine a frequência com a sua rotina de sono. A progressão é lenta de propósito: o primeiro ano é para aprender a cair, escapar e sobreviver, não para vencer.

Leia também: Crescimento do jiu-jítsu no Brasil em 2026: o que está por trás da expansão · Roger Gracie: 10 títulos e nunca finalizado na carreira · Treinamento mental para atletas: o guia completo para competir sob pressão

Perguntas frequentes

Por que empresários estão praticando jiu-jitsu?

Porque o tatame oferece pressão real, mas controlada. Os motivos que se repetem são controle emocional sob pressão, foco total longe das telas, decisão mesmo cansado, humildade de voltar a ser faixa-branca, feedback imediato, válvula de escape e uma comunidade em que o status do crachá não vale nada.

Quais executivos famosos praticam jiu-jitsu?

A Business Insider cita Mark Zuckerberg, Dan Schulman, Andrew Wilson e Elon Musk entre os adeptos, vários deles tendo começado depois dos 30 ou 40 anos. No Brasil, reportagens mostram empresários e gestores que treinam diariamente.

O jiu-jitsu ajuda a controlar o estresse?

Praticantes relatam redução do estresse, melhora do sono, mais concentração e disciplina, mas são benefícios relatados, não medidos nessas reportagens. O treino também não substitui o cuidado com o descanso.

Dá para começar no jiu-jitsu depois dos 40 anos?

Sim. O caminho é procurar uma academia com professor graduado e cultura de treino seguro, informar lesões prévias, fazer avaliação médica e começar em turma iniciante. O primeiro ano é para aprender a cair, escapar e sobreviver, não para vencer.

Existe campeonato de jiu-jitsu para veteranos?

Sim. A IBJJF organiza campeonatos para veteranos, e o Mundial Master, em Las Vegas, é descrito como o maior do mundo para essa faixa etária. Competir cria prazo, meta e exposição ao risco de perder em público, mas é uma escolha pessoal, não uma obrigação do esporte.

Por Nicholas Pasqualetto, Treinador Mental de Atletas.

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