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João Fonseca encerra 2026 sem defender Basileia e mira 2027

João Fonseca, de boné branco, olha para a arquibancada durante o Masters 1000 de Monte Carlo 2026

João Fonseca não joga mais torneios oficiais em 2026. No sábado (17), o tenista de 20 anos anunciou em vídeo nas redes sociais que está fora do ATP 500 da Basileia, onde defenderia o título conquistado no ano passado, e do Masters 1000 de Paris, os dois torneios que fechariam o calendário dele. O próximo jogo oficial do número 1 do Brasil fica para 2027.

A decisão é a suíte da pausa anunciada em 21 de setembro, quando ele abriu mão da gira asiática para tratar uma lesão abdominal. O plano era voltar em outubro. Não deu. Nesta semana, o ex-número 1 do mundo Andy Roddick resumiu o que espera do brasileiro no retorno: que ele use os meses parados para voltar mais forte fisicamente do que jamais esteve.

O que Fonseca disse

O comunicado foi curto e direto. “Como muitos acompanharam, optei por não disputar a gira asiática para focar 100% na minha recuperação. O objetivo era voltar a tempo de defender o título na Basileia e encerrar o ano no Masters 1000 de Paris”, disse o carioca.

Em seguida, veio a explicação. Junto com a equipe, ele concluiu que “ainda não está em condições ideais para competir no nível que gostaria” e que não havia motivo para apressar a volta. “Assim, decidimos priorizar a recuperação e focar no planejamento para 2027.”

O vídeo terminou com um agradecimento à torcida. “Obrigado pelo carinho e pela torcida de sempre ao longo de todo o ano. Nos vemos em breve, em quadra. Seguimos!”

Fonseca não detalhou o diagnóstico nem deu data de retorno. Também não falou da exibição contra Carlos Alcaraz marcada para 12 de dezembro, em São Paulo, que não vale ponto no ranking.

Um ano interrompido pelo corpo

O fim antecipado fecha uma temporada marcada por lesões em série. O roteiro começou ainda em janeiro: dores na lombar o tiraram dos ATP 250 de Brisbane e de Adelaide, na preparação para o Australian Open. Em Melbourne, ele caiu na estreia para o americano Eliot Spizzirri.

Em maio, um incômodo no punho direito o levou a desistir do ATP 500 de Hamburgo, às vésperas de Roland Garros. A lesão que encerrou o ano apareceu em agosto, no Masters 1000 de Cincinnati. Depois de vencer Botic van de Zandschulp na estreia, ele sentiu “um leve desconforto no lado esquerdo do abdômen” durante um treino e desistiu antes da partida de terceira rodada, contra o australiano Christopher O’Connell, em 18 de agosto.

João Fonseca bate forehand no Masters 1000 de Cincinnati 2026, último torneio antes da lesão abdominal
Fonseca em Cincinnati, em agosto: foi lá que a lesão abdominal apareceu. Foto: Divulgação/ATP Tour

O abdômen não se recuperou a tempo do US Open, e ele anunciou a desistência em 24 de agosto. O último jogo da temporada foi pela Copa Davis, em 18 de setembro, na Farmasi Arena, no Rio: virada sobre o suíço Dominic Stricker por 4/6, 6/3 e 6/2, no confronto que o Brasil fechou em 3 a 0 para garantir vaga nos Qualifiers de 2027. Três dias depois, veio o anúncio da pausa.

O Atleta Pro contou na época o que Fonseca disse ao parar e quais torneios ele perderia na Ásia. O texto falava em “dar um tempo para o meu corpo e para a minha cabeça”, ponto que o Treinador Mental de Atletas Nicholas Pasqualetto desenvolveu em análise sobre as pausas de Bia Haddad e de Fonseca.

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Quanto custa no ranking não defender Basileia

O título na Suíça foi o maior da carreira dele até aqui. Em 26 de outubro de 2025, Fonseca venceu o espanhol Alejandro Davidovich Fokina por 6/3 e 6/4 e se tornou o primeiro brasileiro campeão de um ATP 500 desde a criação da categoria, em 2009. O vice daquela final acabou de ganhar o próprio salto: Davidovich Fokina conquistou o Masters 1000 de Xangai no domingo (18).

O ranking da ATP soma os resultados das últimas 52 semanas. Sem jogar a Basileia de 2026, que vai de 24 de outubro a 1º de novembro, Fonseca perde os 500 pontos daquele título. Em Paris, saem mais 50, da segunda rodada alcançada em 2025.

Na lista oficial de segunda-feira (19), ele aparece em 28º, com 1.750 pontos. No ranking ao vivo publicado pelo site britânico Tennishead na terça-feira (21), já sem os pontos da Basileia, o brasileiro cai para 39º, com 1.250. A projeção da imprensa brasileira é de queda de 10 a 15 posições até o fim do ano, com risco de deixar o top 40, a depender dos resultados dos rivais.

O que 2026 deixou de bom

O ano sem título, depois das conquistas em Buenos Aires e na Basileia em 2025, não apaga os jogos que mostraram o teto do brasileiro. Pelo índice de vitórias e derrotas da ATP, ele encerra a temporada com 20 vitórias e 13 derrotas.

O ponto alto foi Roland Garros. Na terceira rodada, em 29 de maio, Fonseca perdia por dois sets a zero para Novak Djokovic, então número 4 do mundo, e virou para 4/6, 4/6, 6/3, 7/5 e 7/5, em 4 horas e 53 minutos. Virou o primeiro adolescente a derrotar o sérvio num Grand Slam. Nas oitavas, passou por Casper Ruud por 7/5, 7/6 (8), 5/7 e 6/2 e se tornou o primeiro brasileiro nas quartas de Paris desde Gustavo Kuerten, em 2004. Parou no tcheco Jakub Mensik, por 6/4, 6/3 e 7/6 (3).

João Fonseca cerra o punho e comemora ponto no Masters 1000 de Montreal 2026
Fonseca no Masters 1000 de Montreal, em agosto, onde chegou às oitavas. Foto: Divulgação/ATP Tour

Depois vieram a terceira rodada de Wimbledon e uma boa semana no Masters 1000 de Montreal, em agosto. Lá, ele bateu Stefanos Tsitsipas e Casper Ruud antes de cair nas oitavas para Ben Shelton. Uma semana depois, veio Cincinnati, e o abdômen travou a sequência.

O que Roddick quer ver em 2027

Andy Roddick tratou o assunto no episódio mais recente do podcast “Served with Andy Roddick”. O americano lembrou que fenômenos como Rafael Nadal e Carlos Alcaraz chegaram ao circuito com o corpo pronto muito cedo, e que isso ainda não aconteceu com o brasileiro.

“Ele precisa ficar fisicamente mais forte, para se mexer melhor saindo dos cantos. Ele tem toda a potência, tem tudo aquilo que é impossível criar e treinar”, disse Roddick. “A potência natural ele tem. Agora, o corpo precisa aguentar de 30 a 35 semanas por ano.”

Para o ex-número 1, o que acontece com Fonseca é uma progressão natural de jogador jovem, que sente o corpo depois de 18 meses de exigência física no circuito. “Espero que ele volte na Austrália e a gente olhe e diga: além de ter se recuperado, ele está forte. Quero poder ver o trabalho feito”, afirmou. E fechou: “Torço para que seja o melhor cenário, em que ele não está saudável e quer voltar com um físico que nunca teve antes.”

Roddick também citou o peso que o brasileiro carrega. “O Brasil tem muita sede, e talvez isso seja parte da pressão colocada sobre ele. Um país que já se acostumou a ter alguém no topo, com o Guga, quer essa sensação de novo, e quer muito para ele.”

O que muda para 2027

O primeiro grande compromisso do próximo ano é o Australian Open, que começa em 11 de janeiro com o qualificatório e tem a chave principal a partir de 17 de janeiro, em Melbourne. Com a queda prevista no ranking, Roddick já projeta que o brasileiro não deve entrar entre os cabeças de chave, o que abre a chance de cruzar com um favorito logo nas primeiras rodadas.

Entre o anúncio, em 17 de outubro, e o início do qualificatório em Melbourne, são 12 semanas sem jogo oficial. É esse intervalo que Roddick quer ver convertido em físico. A equipe de Fonseca não divulgou o calendário do começo do ano nem os torneios de preparação.

O que isso ensina sobre alta performance

Alta performance é sustentável, não é pico. Fonseca mostrou o pico em Roland Garros, com quase cinco horas de tênis contra Djokovic. O ano mostrou o outro lado: um corpo que ainda não aguenta 30 semanas de circuito no mesmo nível. Parar agora é escolher a carreira longa em vez dos pontos de dezembro.

Responsabilidade acima de justificativa. O comunicado não culpa calendário, piso nem azar. Ele diz o que estava sob controle do atleta e da equipe: o corpo ainda não está pronto, e não há pressa para voltar. É uma decisão que custa 550 pontos e que ele assumiu publicamente.

Processo mais tempo é igual a resultado. Talento, segundo o próprio Roddick, ele já tem de sobra. O que separa o Fonseca de 2026 do Fonseca que o Brasil espera é o trabalho invisível dos próximos dois meses, na academia e na fisioterapia, longe da quadra e das câmeras.

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Diogo Moraes

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