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Lucas Garcia, o engenheiro que virou top 3 do Olympia: a arte de falhar

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Equipe Atleta Pro
Lucas Garcia, fisiculturista brasileiro IFBB Pro 212, em pose de duplo bíceps frontal no palco do Mr. Olympia

Aos 29 anos, o paulistano Lucas Garcia fez em outubro de 2025 o que nenhum estreante brasileiro tinha feito na categoria 212 do Mr. Olympia: subiu ao pódio do palco mais duro do fisiculturismo mundial logo na primeira vez que pisou nele. Terminou em terceiro, atrás apenas do tricampeão Keone Pearson e do ex-campeão Shaun Clarida.

Um ano antes, ele mal conseguia treinar. Um problema renal quase o tirou do esporte, patrocinadores sumiram e a internet já o dava como aposentado. O que ele fez com esse tombo virou o método que ele mesmo resume numa frase: a arte de falhar.

A estreia que já nasceu pódio

A categoria 212 reúne os fisiculturistas que competem até 212 libras, cerca de 96 kg. É um limite que transforma a disputa num jogo de precisão milimétrica: não há espaço para volume bruto, vence quem entrega a melhor combinação de simetria, densidade e definição no dia exato da prova.

No dia 10 de outubro de 2025, no Resorts World Theatre, em Las Vegas, Keone Pearson confirmou o favoritismo e faturou o tricampeonato, embolsando 50 mil dólares. Shaun Clarida, ex-campeão, ficou com a prata e 20 mil dólares. Lucas Garcia completou o pódio e levou 12 mil dólares, à frente de nomes calejados como o turco Nihat Kaya e o americano Courage Opara. Os dois primeiros somam vários Olympias de bagagem. Garcia os enfrentou na estreia e, mesmo assim, se manteve entre os três melhores do planeta.

Um esporte que se ganha do pescoço para cima

No podcast No Topo, que abre esta reportagem, Garcia desmonta a ideia de que fisiculturismo é só músculo.

“Quando você vê aquele corpo imenso, a parte do físico é fácil, é fácil de construir. O problema é daqui para cima. É um esporte 99% mental. Precisa ter uma mente muito centrada para ter a disciplina de fazer o que precisa ser feito.”

A disciplina, para ele, é quase mecânica: acordar, saber o que tem de ser feito e executar, sem depender da vontade do dia. “Se você for parar para pensar ou fizer o que tiver vontade, vai oscilar cada dia de um jeito, então não vai fazer.” Foi essa mentalidade que ele passou a testar quando tudo começou a dar errado.

O engenheiro que fez as contas antes de arriscar

Antes do palco, veio a planilha. Formado em engenharia, Lucas trabalhou na área a partir de 2014 e só foi competir em 2019, primeiro como amador, por hobby. Foi campeão paulista e brasileiro logo no início, tirou o cartão profissional da IFBB em 2022 e, aí sim, sentou para decidir a vida no papel.

“Coloquei no papel o quanto eu faturava com o fisiculturismo, com patrocínio e com as consultorias, e comparei com o meu salário de engenheiro. Quando vi que as contas batiam, falei: vou parar de trabalhar na empresa.”

A conta fechava, mas havia um custo escondido. O estresse do trânsito e da rotina de trabalho em São Paulo era incompatível com o nível de recuperação que a elite exige. “Não dá para competir com um cara que está dormindo o dia inteiro focado nisso”, resume. Mesmo assim, a aposta foi calculada, não cega.

“Nunca saí pensando: se der errado, eu volto a trabalhar. Meu pensamento era: agora eu vou.”

O conselho que ele dá a quem sonha viver do esporte segue a mesma lógica fria: nunca largar tudo de uma vez, manter uma renda paralela até o fisiculturismo se sustentar sozinho. “É caro convênio, é caro suplemento, é caro mercado. Ver 20 caras vivendo disso no Brasil não quer dizer que todo mundo vive.”

O susto renal e a palavra combustível

O teste de verdade chegou no fim de 2024. Depois de duas derrotas seguidas no circuito profissional, um check-up de rotina apontou uma sobrecarga renal em estágio inicial, resultado do consumo elevado de proteína somado a medicações. A recuperação levou cerca de seis meses. No meio do caminho, ele perdeu patrocinador e, por dentro, começou a duvidar de si.

Do lado de fora, a internet foi ainda mais dura. Os canais de fisiculturismo espalharam a notícia da doença, muitos já o tratavam como aposentado, e os comentários negativos se acumularam. A reação dele virou método.

“Posso definir com uma palavra o que foi ler todos aqueles comentários negativos: combustível. Eu tirei print de um por um. Guardei tudo, porque falei: eu vou provar que essas pessoas estão erradas.”

Quando conquistou a vaga para o Olympia, publicou um único desses prints, o suficiente para o recado. Um amigo próximo, também fisiculturista, mandou a real: tira a onda uma vez e para, foca em andar para a frente. Ele nunca mais postou outro. A dúvida sobre a saúde e sobre o próprio potencial existiu, mas não parou o trabalho de um dia sequer. “A dúvida não me parou. Eu continuei com a curiosidade de ver se era ou não era.”

Seis semanas antes, um músculo rompido

Como se o rim não bastasse, a seis semanas do campeonato que valia a vaga olímpica Garcia sofreu um rompimento no posterior da coxa. Ficou praticamente sem treinar pernas, mancava, tinha dificuldade até para dirigir. Voltou aos poucos, com estímulos leves e restrição de fluxo, e mandou ao treinador uma foto da coxa roxa com uma frase: isso aqui não vai me parar.

Não parou. Foi desse campeonato, machucado, que saiu a classificação para Las Vegas.

A arte de falhar, nas palavras dele

É no fim da conversa que Garcia dá nome ao que sustenta toda a trajetória.

“Os grandes atletas do mundo, de todos os esportes, têm uma arte: a arte de falhar. Quando alguma coisa acontece, você falha, você perde, você se machuca, na hora óbvio que vai ficar triste, frustrado. Mas depois que o sangue esfria e a cabeça esfria, você raciocina. Eu já sei que, quando algo assim acontece, é porque coisa boa está vindo. Antes de melhorar, piora.”

A lógica atravessa tudo o que ele conta. Cada queda, para ele, é um teste de quem quer mesmo. “As coisas vão dar errado, sempre vão dar errado antes de dar certo. Não é se você vai cair, é que você vai cair. Você só não sabe quando. E essas quedas são para provar que você quer de verdade. Se você quer, levanta e volta melhor.” Falhar, nessa leitura, não é o oposto de vencer. É a matéria-prima da vitória.

O perigo que mora depois da conquista

O tombo mais silencioso não veio de uma derrota, e sim de uma vitória. Ao garantir as vagas para o Olympia, depois de quase dez meses de dieta restrita, Garcia se viu sem chão. Tinha batido a meta que perseguia desde os 24 anos, chegar ao Olympia antes dos 30, e o cérebro, exausto, travou.

“Cheguei para o meu treinador e falei: cara, não estou com vontade de competir no Olympia. Por mim, eu descansaria agora.”

O treinador não cedeu. Mandou continuar fazendo o trabalho todo dia, porque na hora de pisar no palco e ver a dimensão daquilo o sangue ferveria de novo. Deu certo. Foi ali que Garcia entendeu o Olympia como uma escada, um degrau por ano: “Fui terceiro, minha meta é ser segundo, depois campeão.” A conquista, sem uma nova meta logo atrás, seria o convite mais fácil para descer.

A próxima temporada já mira alto. Para quem quer acompanhar o calendário, a Atleta Pro reuniu tudo sobre onde assistir ao Mr. Olympia 2026 e também sobre a etapa nacional, o Mr. Olympia Brasil 2026 em São Paulo.

Eu perdi para dois

Perguntado sobre o tamanho do feito, Garcia recusa o troféu de terceiro melhor do mundo com uma frase que resume a mentalidade inteira.

“Eu não consigo olhar um terceiro lugar e pensar que sou o terceiro do mundo. Na minha cabeça, eu perdi para dois. Eu não ganhei de todo mundo que está atrás. Então eu não sou o terceiro melhor do mundo, eu perdi para dois. E eu não quero mais perder.”

Para 2026, o alvo é claro e sem falsa modéstia: brigar de igual para igual com Keone Pearson. “Esse ano eu não sou nada, estou zerado igual a todo mundo. Tenho que buscar de novo. Sendo realista, tenho condições de incomodar, de ser segundo e, com um erro do campeão, até ganhar.” Desde que desceu do palco em Las Vegas, ele já conta as semanas rumo ao próximo.

O que isso ensina sobre alta performance

A história de Lucas Garcia é um lembrete de que resultado de ponta não nasce de um acerto isolado, e sim de uma coleção de erros bem lidos. O atleta que encara a derrota, a crítica ou a lesão como veredicto final trava. O que as transforma em diagnóstico evolui.

Vale para o palco do Olympia e vale para qualquer prova, treino ou meta. Medir onde faltou, ajustar o que dá para ajustar e voltar mais preparado é o mecanismo mais previsível de progresso que o esporte conhece. Garcia só levou esse princípio ao extremo. O pódio de Las Vegas foi a prova de que a arte de falhar, quando bem executada, tem cara de vitória.

Perguntas frequentes sobre Lucas Garcia

Quem é Lucas Garcia, o fisiculturista?

Lucas Garcia é um fisiculturista brasileiro, natural de São Paulo, que compete na categoria 212 da IFBB Pro League. Engenheiro de formação, largou a carreira para viver do esporte e, em 2025, terminou em terceiro no Mr. Olympia logo na estreia.

Qual foi a colocação de Lucas Garcia no Mr. Olympia 2025?

Lucas Garcia ficou em terceiro lugar na categoria 212 do Mr. Olympia 2025, disputado em 10 de outubro de 2025, em Las Vegas. O campeão foi Keone Pearson, seguido por Shaun Clarida. Foi a estreia de Garcia no evento.

Quantos anos tem Lucas Garcia e de onde ele é?

Lucas Garcia tem 29 anos e é de São Paulo. Começou na musculação ainda adolescente, competiu como amador a partir de 2019 e se profissionalizou na IFBB em 2022.

Como Lucas Garcia se classificou para o Mr. Olympia?

Garcia garantiu a vaga ao vencer dois torneios profissionais da categoria 212 em 2025, o Tampa Pro e o Texas Pro, meses depois de se recuperar de uma sobrecarga renal que quase encerrou sua carreira.

O que é a categoria 212 do Mr. Olympia?

A 212 é a divisão do Mr. Olympia para fisiculturistas que competem com até 212 libras, cerca de 96 kg. O limite de peso valoriza simetria, densidade e definição em vez de volume bruto.

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