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Natália Silva vira a 1ª brasileira campeã peso-mosca do UFC

Natália Silva ergue os braços com o cinturão peso-mosca do UFC na cintura, no octógono do UFC 332, em Salt Lake City

Natália Silva é a nova campeã peso-mosca do UFC. A mineira de 29 anos venceu a chinesa Wang Cong por decisão unânime na luta principal do UFC 332, na noite de sábado (3), no Delta Center, em Salt Lake City, nos Estados Unidos, e ficou com o cinturão que estava vago desde a lesão de Valentina Shevchenko. Os juízes marcaram 48 a 47, 49 a 46 e 48 a 47.

Nenhuma brasileira tinha conquistado o título da categoria até 57 kg. Jennifer Maia, Jéssica Andrade e Taila Santos tentaram antes, e as três perderam para Shevchenko. Natália é a quarta campeã da divisão na história do UFC, depois de Nicco Montaño, da própria Shevchenko e de Alexa Grasso.

Como foi a luta: vantagem cedo e sufoco no fim

Natália dominou a primeira metade da luta. No primeiro round, controlou o centro do octógono com chutes baixos, acertou uma direita forte, segurou um chute de Wang para levá-la ao chão e terminou o assalto pressionando a chinesa na grade, com cotoveladas no clinch.

O momento mais forte veio no meio do segundo round. Um chute na cabeça derrubou Wang por um instante, o único knockdown da luta. A chinesa voltou de pé, mas Natália a levou de novo ao chão e passou boa parte do assalto por cima.

Daí em diante, a luta ficou mais apertada. O terceiro round foi equilibrado. No quarto, Wang aumentou o ritmo, e Natália respondeu com um chute rodado que machucou a adversária, segundo o relato lance a lance do site Sherdog. No quinto, o córner de Wang pediu o nocaute, e ela foi para cima: um gancho de esquerda balançou a brasileira, que se segurou no clinch até o gongo.

O cartão oficial mostra a luta inteira. Os três juízes deram os dois primeiros rounds para Natália e o último para Wang. Sal D’Amato viu a chinesa vencer também o terceiro, Mike Bell deu a ela o quarto, e Derek Cleary marcou 49 a 46, com quatro rounds para a brasileira. Pelas estatísticas oficiais reproduzidas pelo Yahoo Sports, Natália acertou 109 golpes significativos contra 98 e completou três quedas. Wang conectou mais golpes no total, 147 a 133.

“Foi apertada”, resumiu Dana White, presidente do UFC, na entrevista coletiva. “Acho que, quando a Wang voltar e assistir à luta, ela vai se odiar. Se ela tivesse acelerado um pouco antes, teria sido uma luta completamente diferente.”

Natália Silva, de punho erguido e com o rosto marcado, fala ao microfone do UFC no octógono do Delta Center depois de vencer Wang Cong
Natália Silva fala no octógono depois da vitória sobre Wang Cong no UFC 332. Foto: Jeff Bottari/Zuffa LLC

“Agora é o reinado da Natália Silva”

Com o cinturão na cintura, Natália respondeu no microfone a quem questionou a escolha da adversária. Wang, número 8 do ranking, ganhou a luta principal depois da lesão de Shevchenko, e parte do público e da imprensa achou pouco para uma disputa de título.

“Eu já esperava. A Cong é uma excelente atleta. Eu vi muita gente falando o porquê de ela estar aqui, e essa luta prova isso. Ela é merecedora, é uma grande striker”, disse, em português, na entrevista transmitida pelo UFC. “E agora, galera, é o início de uma nova era. Agora é o reinado da Natália Silva.”

Ela também falou das críticas que recebeu por encabeçar o card. “As pessoas sempre vão dizer que você não merece, que você não é bom o suficiente para algo. Eu enfrentei críticas por ser o main event desse card. Mas eu quero dizer para vocês: ninguém pode dizer se você merece ou não. Só vai lá e faz.”

Na coletiva, explicou por que o quinto round, o pior dela na luta, não a assustou. “Os meus sparrings simularam muito bem ela. Quando eu entrei para lutar, eu olhei para ela e falei assim: ‘Cara, eu já vivi isso'”, contou. “Eu gosto de lutar de forma inteligente, gosto de tocar, me mover. Mas, se precisar virar briga, vai virar briga. O que importa é eu sair com a vitória.”

Nove seguidas no UFC e 15 na carreira

A vitória levou o cartel de Natália a 21 vitórias, 5 derrotas e 1 empate. No UFC, ela tem 9 vitórias em 9 lutas. Segundo o UFC, a nona vitória seguida na organização iguala a marca de Shevchenko como a maior sequência da história do peso-mosca feminino.

Somando a carreira inteira, são 15 vitórias seguidas. A última derrota foi em dezembro de 2017, para Marina Rodriguez, ainda no circuito nacional. No caminho até o título, ela venceu três ex-campeãs do UFC: Jéssica Andrade, em 2024, Alexa Grasso, em 2025, e Rose Namajunas, em janeiro deste ano. A trajetória completa, de Pingo-d’Água até o topo do ranking, está na prévia que o Atleta Pro publicou antes da luta.

Com Natália, o Brasil volta a ter duas campeãs ao mesmo tempo no UFC. Mackenzie Dern, que o UFC Brasil inclui na lista de campeãs do país, tem o cinturão do peso-palha e o defendeu em agosto. O título de Natália chega duas semanas depois de Alexandre Pantoja perder para Joshua Van na revanche pelo cinturão peso-mosca masculino.

Natália Silva sorri com o cinturão de campeã do UFC no ombro enquanto tira foto com torcedores no Delta Center, em Salt Lake City
Natália Silva comemora com a torcida a conquista do cinturão peso-mosca. Foto: Cooper Neill/Zuffa LLC

Shevchenko avisa que volta, e Natália quer ser campeã ativa

A primeira mensagem para a nova campeã veio da ex-dona do cinturão. Shevchenko, que abriu mão do título em setembro e deve ficar fora até 2027, parabenizou Natália nas redes sociais e mandou um recado: “Mas não fique confortável demais. Mantenha ele aquecido, estou voltando em breve pelo meu cinturão.”

Dana White disse na coletiva que a brasileira deveria se manter ativa enquanto Shevchenko se recupera. Natália concorda. “O meu plano sempre foi ser uma campeã ativa. Eu não vejo por que você ser dona do cinturão e ficar com o cinturão guardado. Você tem que defender o título”, afirmou. “Eu nunca corri de luta.”

Ela preferiu não apontar a próxima adversária. “Agora não é o momento de eu citar nenhum nome, porque o momento agora é eu comemorar.” Dois caminhos aparecem no horizonte, segundo o site Cageside Press. Um é a revanche com Alexa Grasso, que Natália venceu no UFC 315, em maio de 2025. O outro sai da luta entre Erin Blanchfield e Jasmine Jasudavicius, marcada para 17 de outubro, em Edmonton, no Canadá. Jasudavicius foi a primeira adversária de Natália no UFC, em junho de 2022.

O cinturão também muda a conta do lado de fora do octógono. O UFC não divulga bolsas, e Natália não levou bônus no sábado: os quatro prêmios de Performance da Noite, de US$ 100 mil cada, foram para lutadores que venceram por nocaute, e não houve Luta da Noite. Pela tabela de patrocínio da Venum divulgada em 2021, a campeã recebe US$ 42 mil por luta, contra US$ 32 mil de uma desafiante. Para entender o resto da conta, vale ler quem são os lutadores mais bem pagos do UFC.

Uma noite de recordes de nocaute em Salt Lake City

A luta principal foi uma das três decisões numa noite de nocautes. Das 14 lutas do UFC 332, 11 terminaram por nocaute, a maior marca da história da organização num único evento, segundo o UFC. O recorde anterior era de nove. Nove desses nocautes saíram ainda no primeiro round, outro recorde: a marca anterior era de sete, segundo o Bleacher Report.

O chute de Natália no segundo round foi o 16º knockdown da noite, também o maior número num evento do UFC na era moderna, de acordo com o Yahoo Sports. Não confundir com outra marca recente: o recorde de lutas encerradas antes do tempo, que soma nocautes e finalizações, segue com o UFC Belgrado, de agosto, com 12 em 14 lutas.

Os bônus de Performance da Noite foram para Roman Kopylov, Imanol Rodriguez, Damian Pinas e o brasileiro Johnny Walker. O evento teve 16.492 pessoas no Delta Center e bilheteria de US$ 2,7 milhões.

Os outros brasileiros do card

Na luta coprincipal, Deiveson Figueiredo, ex-campeão peso-mosca, foi nocauteado pelo americano Payton Talbott aos 2min09 do primeiro round. Aos 38 anos, o paraense perdeu cinco das últimas seis lutas e tem cartel de 25 vitórias, 8 derrotas e 1 empate, segundo o Yahoo Sports. Talbott, que tinha vencido Henry Cejudo em dezembro, pediu Sean O’Malley no microfone: “Acabei de atropelar dois campeões seguidos. E eu quero outro.”

Johnny Walker estreou no peso-pesado com nocaute no primeiro round. Depois de resistir a um bom início do inglês Mick Parkin, encaixou uma joelhada no clinch aos 3min35 e levou um dos bônus de US$ 100 mil.

Johnny Walker comemora de olhos arregalados, com lata de energético na mão, enquanto o árbitro ergue o braço dele no octógono do UFC 332
Johnny Walker comemora o nocaute sobre Mick Parkin na estreia no peso-pesado. Foto: Jeff Bottari/Zuffa LLC

Rafael dos Anjos, de 41 anos, voltou depois de quase dois anos parado e perdeu por nocaute técnico para Alexander Hernandez aos 3min12 do segundo round, na 50ª luta da carreira. O ex-campeão peso-leve tirou as luvas ainda no octógono, gesto que no MMA costuma sinalizar aposentadoria, mas não teve microfone para confirmar. Depois, nas redes sociais, escreveu apenas que “a vida segue”, segundo o site Bloody Elbow.

No Brasil, o UFC 332 pode ser revisto no Paramount+, que tem a exclusividade do UFC no país. O guia com o card completo continua no ar em UFC 332: onde assistir Natália Silva x Wang Cong.

O que o cinturão de Natália ensina sobre alta performance

Natália passou meses se preparando para Shevchenko e teve cerca de um mês para mudar o plano quando a campeã se machucou. Na noite da luta, disse que nada do que Wang fez foi novidade, porque os parceiros de treino tinham reproduzido a adversária na academia. É o tipo de vantagem que não aparece no cartel: preparação específica, repetida até o momento real parecer um treino.

A resposta às críticas também diz muito. Natália não discutiu se merecia a luta principal nem culpou o casamento de lutas. Fez os quatro primeiros rounds bem o bastante para que o pior round dela, o quinto, não decidisse nada. Depois, com o cinturão na cintura, já falava em defender o título, e não em guardá-lo.

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Foto de Diogo Moraes
Diogo Moraes

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