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Nescau vira parceiro oficial da NBA em acordo recorde da Nestlé

Luka Doncic, do Los Angeles Lakers, com a bola em jogo da NBA, ao lado do logotipo do Nescau, da Nestlé

O Nescau, achocolatado que nasceu no Brasil em 1932, vai virar parceiro oficial da NBA. A Nestlé anunciou na quarta-feira (7) um acordo plurianual com a liga norte-americana de basquete que coloca três das suas marcas, Nescau, Milo e Nesquik, ao lado da NBA em 21 mercados de quatro continentes, a partir de 1º de janeiro de 2027. O Brasil está na lista.

A própria Nestlé chama o negócio de a maior colaboração internacional de marca da sua história. O valor não foi divulgado. O que foi divulgado mostra onde o dinheiro vai trabalhar: no basquete de base, com ações nos programas de formação da liga para crianças e adolescentes, além de promoções nas embalagens e presença nos eventos da NBA fora dos Estados Unidos.

Luka Doncic, do Los Angeles Lakers, com a bola em jogo da NBA, ao lado do logotipo do Nescau, da Nestlé
Luka Doncic, do Lakers, contra o Cleveland Cavaliers em janeiro de 2026. Foto: Erik Drost (CC BY 4.0), Wikimedia Commons. Logotipo: Nescau/Nestlé

O que a Nestlé assinou com a NBA

O acordo transforma Milo, Nescau e Nesquik em “parceiros oficiais da NBA”. O comunicado da liga, publicado em Londres, lista os mercados em que a parceria começa a valer em janeiro de 2027:

ContinenteMercados
AméricasBrasil, Canadá, Colômbia, Estados Unidos e México
EuropaAlemanha, Espanha, França, Itália, Reino Unido e Turquia
ÁfricaGana e Nigéria
Ásia e OceaniaAustrália, Indonésia, Malásia, Nova Zelândia, Singapura, Tailândia e Vietnã

São 20 países na largada. O 21º, as Filipinas, entra em outubro de 2027. Por isso parte da imprensa fala em “20 mercados mais as Filipinas” e parte arredonda direto para 21: é o mesmo acordo.

O pacote tem três frentes:

  • Basquete de base: ativações em programas da NBA voltados à formação de jovens, como Jr. NBA/Jr. WNBA, NBA Basketball School, Jr. NBA/Jr. WNBA Coaches Academies, Her Time To Play e NBA 3X.
  • Eventos e fãs: presença nos jogos internacionais da temporada (NBA Global Games) e na NBA House, o espaço temático que a liga monta para torcedores.
  • Varejo: embalagens com a marca da NBA e promoções com ingressos para jogos, produtos oficiais e outros prêmios.

“Durante décadas, nossas marcas acreditaram no poder do esporte em revelar o melhor de cada pessoa”, disse Liberato Milo, vice-presidente sênior e líder da unidade de confeitaria e snacks da Nestlé, no comunicado. Em outro trecho, citado pela Exame, ele resume a ambição: “Junto com a NBA, usaremos o poder do basquete para nos conectar com consumidores em grande escala”.

Do lado da liga, Julie Morris, vice-presidente sênior de desenvolvimento comercial e mídia da NBA, disse que a ideia é aproveitar o alcance e a presença local da Nestlé em cada mercado para se conectar com os fãs de novas maneiras.

Como o Nescau entra no acordo

Cada uma das três marcas carrega a parceria onde é mais forte. O Milo, criado na Austrália nos anos 1930, domina Ásia, África e Oceania. O Nesquik é a marca da Nestlé na Europa e na América do Norte. E o Nescau é a porta de entrada no Brasil, que a Bloomberg descreve como um dos mercados internacionais mais importantes da NBA.

O Nescau é uma marca brasileira na origem. Foi lançado em 1932 com o nome de Nescáo, junção de Nestlé com “cacáo”, a grafia da época, e é desde então o líder de vendas entre os achocolatados em pó no país, segundo a própria empresa.

A relação com a NBA também não começa agora. Em 2018, a marca lançou latas colecionáveis com nove franquias da liga e deixou os consumidores escolherem a décima em votação on-line (o Phoenix Suns venceu). No mesmo ano, a promoção “Partiu NBA” sorteou viagens para assistir a um jogo em Orlando, com o pivô brasileiro Cristiano Felício como garoto-propaganda. Em 2019, o Nescau esteve na NBA House de São Paulo.

Aquelas foram ações pontuais. Na época, a Máquina do Esporte registrou que nem a liga nem a marca tratavam a relação como patrocínio. A diferença agora é o status: a partir de janeiro, o Nescau passa a ter o selo de parceiro oficial, com contrato de vários anos.

À Meio & Mensagem, Lara Miranda, diretora de marketing de bebidas familiares e cereais da Nestlé Brasil, disse que o compromisso com a NBA representa uma evolução da trajetória da marca no basquete. As ações específicas para o mercado brasileiro ainda não foram detalhadas.

Por que o Brasil pesa tanto para a NBA

Os números explicam a presença do Brasil na primeira leva. Uma pesquisa do Ibope divulgada em novembro de 2025 contou 57,6 milhões de pessoas que acompanham a NBA no país, o maior número desde 2017 e 4,8 milhões a mais que no ano anterior. Executivos da liga já falam em 58 milhões de fãs em 2026.

O público é jovem, e é aí que o acordo mira. Segundo o levantamento publicado pelo MKT Esportivo, a base de fãs jovens da NBA no Brasil triplicou em três anos. O varejo acompanha: o país tem 31 lojas oficiais da NBA, mais do que qualquer outro fora dos Estados Unidos, e a liga abriu em 2026 quiosques próprios em shoppings de São Paulo.

A temporada 2026/27 começa em 20 de outubro, e no Brasil os jogos passam na ESPN, no Disney+, no Prime Video e no NBA League Pass. O guia completo está em onde assistir à NBA 2026/27.

Jovens jogadores de basquete reunidos com treinadores no Basketball Without Borders, programa de base da NBA, em Istambul
Jovens no Basketball Without Borders, acampamento de base da NBA e da Fiba, em Istambul, em agosto de 2026. Foto: Zafer (CC BY-SA 4.0), Wikimedia Commons

O foco é a base: Jr. NBA, Jr. WNBA e 2,5 milhões de pessoas

A espinha do acordo é o basquete de formação. O Jr. NBA e o Jr. WNBA são os programas da liga para meninos e meninas, com clínicas, ligas escolares e material para treinadores. As Coaches Academies formam técnicos de base. O Her Time To Play é voltado às meninas, e o NBA 3X é o circuito de basquete 3×3 da liga.

A Nestlé colocou uma meta pública em cima disso. Segundo a imprensa suíça, o CEO Philipp Navratil divulgou o objetivo de levar 2,5 milhões de pessoas a se movimentar por meio dos programas de basquete ao longo de três anos. A Exame, citando executivos globais da empresa, fala em pelo menos 2,5 milhões de jovens alcançados.

No Brasil, o Nescau já tem estrutura própria nessa linha. A Liga Nescau é uma competição poliesportiva estudantil e gratuita para jovens de 7 a 17 anos, com o basquete entre as modalidades. Em 2024, a marca dobrou o investimento no projeto, para R$ 30 milhões entre 2023 e 2025, segundo a Máquina do Esporte. A pergunta que fica para 2027 é se os programas da NBA e a Liga Nescau vão andar juntos no país, o que a empresa ainda não informou.

Para o portal, que já mostrou como o esporte na infância formou nomes como Sinner e Jordan, é o trecho mais relevante do anúncio: dinheiro de marca global entrando na ponta da pirâmide, onde o atleta começa.

A estratégia da Nestlé: menos plataformas, maiores

O acordo com a NBA faz parte de uma mudança de rota. Segundo a Bloomberg, a Nestlé decidiu concentrar o marketing nas maiores marcas e em menos plataformas globais, só que maiores, para vender mais e atrair consumidores jovens.

O momento da empresa ajuda a entender a pressa. Em 23 de julho, a Nestlé divulgou os resultados do primeiro semestre e mostrou queda de volume na América do Norte: o crescimento interno real, indicador que mede quanto a empresa vende em quantidade, ficou em 0,6% negativo na região no segundo trimestre. As ações chegaram a cair 7,3% no dia, a maior queda desde 2020.

O CEO Philipp Navratil, que comanda a reestruturação, concentra a empresa em café, alimentos para pets, nutrição e alimentos e snacks, e vende o que considera fora do foco. A empresa acaba de acertar a venda do negócio de vitaminas e suplementos de massa para a Yellow Wood Partners por US$ 1 bilhão. A NBA, com os Estados Unidos e o Canadá na primeira leva, é uma aposta direta no mercado onde as vendas esfriaram.

O modelo já tinha sido testado no automobilismo. Em 11 de novembro de 2024, a Nestlé anunciou o KitKat como chocolate oficial da Fórmula 1, com estreia na temporada 2025. Na época, aquele era o maior acordo global de marca da empresa. Agora, a NBA passa à frente. No Brasil, o KitKat também patrocina Gabriel Bortoleto desde a estreia do piloto na F1, em 2025, e renovou o contrato para 2026.

As concorrentes fazem o mesmo movimento. A PepsiCo patrocina a Liga dos Campeões da Uefa, e a Unilever foi patrocinadora da última Copa do Mundo da Fifa. Para quem acompanha como LeBron James transformou patrocínio em patrimônio, a lógica é conhecida: as marcas pagam pela atenção de quem assiste, e a NBA tem cada vez mais dessa atenção fora dos Estados Unidos.

O ex-jogador da NBA Gary Payton orienta crianças em clínica de basquete do programa NBA Cares
Gary Payton, campeão da NBA e bicampeão olímpico, em clínica para crianças do programa NBA Cares, em 2012. Foto: Daniel Hughes/Força Aérea dos EUA (domínio público), Wikimedia Commons

O que o acordo ainda não responde

O anúncio deixou lacunas. A Nestlé não informou o valor, nem a duração exata do contrato, descrito só como plurianual. Também não detalhou quais programas serão ativados em cada país, nem quando as embalagens com a marca da NBA chegam às prateleiras brasileiras.

Outra dúvida é o papel dos jogadores. O comunicado fala em programas, eventos e promoções, sem citar atletas como embaixadores. No caso do KitKat na F1, a Nestlé combinou o acordo com a categoria e o patrocínio individual a Bortoleto no Brasil. Se o Nescau repetir a fórmula no basquete, há nomes brasileiros na NBA para isso, como Gui Santos, do Golden State Warriors, que nesta temporada vai receber um salário maior que o de LeBron James.

O que isso ensina sobre alta performance

A Nestlé não assinou com a NBA para aparecer na final. Assinou para estar na quadra da escola, no programa de iniciação e na clínica de fim de semana. É uma aposta de longo prazo: a marca quer acompanhar o jovem atleta desde o primeiro contato com o esporte.

Para o atleta, a leitura é parecida. As grandes marcas compram plataformas com audiência e com história, e o basquete de base passa a ser uma vitrine com dinheiro de verdade circulando. Quem está começando agora vai treinar em programas com patrocínio global, e quem entende cedo como funciona esse ecossistema chega mais preparado quando a primeira proposta aparecer.

Talento abre a porta, mas é o processo que sustenta a carreira, dentro e fora da quadra. Imagem, comportamento e constância contam tanto para um patrocinador quanto o número de pontos por jogo. O atleta é, também, uma empresa, e esse trabalho começa muito antes do contrato.

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Foto de Diogo Moraes
Diogo Moraes

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