No fim de 2025, em Dubai, Daniel 220v saiu de um barbeiro famoso e ligou para a mãe, eufórico: tinha cortado o cabelo com um cara de 550 mil seguidores no Instagram. Dielen não entendeu a empolgação. O filho, considerado o maior nome do jiu-jitsu infantil no mundo, tinha mais seguidores do que o barbeiro, e não tinha percebido.
Dielen mandou a mensagem preocupada para Nicholas Pasqualetto, treinador mental do menino. A resposta foi outra: “Isso é uma vitória pra nós”. A história abre uma das discussões do episódio 35 do No Topo Podcast, publicado na terça-feira (6), em que Nicholas e Diogo Moraes, sem convidado, debatem o que o esporte faz com uma criança e por que tantos atletas viram empresários.

O que o esporte ensina que a escola não ensina
Para Nicholas, a primeira lição é a derrota. “A escola não vai ensinar a perder”, disse. “O atleta vai perder muito mais do que ganhar até começar a ganhar.” A segunda é a hierarquia: crianças de 8 a 10 anos já treinam em equipes profissionais, com treinador, chefe de equipe e adultos em volta, num ambiente que a sala de aula não reproduz.
O exemplo veio de um ex-convidado do programa. Tomaz Gonçalves, campeão do Freio de Ouro 2026 com Leon Salvaje, disputou dias antes da gravação uma marcha de resistência de 140 quilômetros a cavalo. Ao lado dele estava a filha, Maria, de 12 anos, na primeira prova completa da carreira, numa distância feita para adultos e com chuva no domingo.
“Tu não pode pedir mais pro teu cavalo do que ele pode entregar, senão tu vai ficar sem cavalo no meio do caminho”, descreveu Nicholas. Estratégia, gestão de dor e decisão de continuar ou desistir. “Quando que uma criança que não tá no esporte vai viver isso? Quando ela não conseguir pular o anúncio do YouTube durante o desenho.”
Ele também criticou escolas que distribuem a mesma premiação a todos os alunos para ninguém se frustrar. “Vocês estão criando pessoas que não vão aguentar a vida real.”
Tirar o filho da escola pelo esporte?
Muitos dos atletas que Nicholas acompanha, entre 9 e 13 anos, faltam muito às aulas por causa de viagens e competições. Alguns estudam a distância, e um deles frequenta em Londres uma escola só para atletas. Mesmo assim, ele é direto: tirar o filho da escola para transformar o esporte na aposta da família, sem estrutura familiar e financeira, “é completamente errado, porque a chance de dar certo é mínima”.
O ensino a distância, na visão dele, só faz sentido quando o atleta já mostrou competência esportiva, comportamental e mental para dar conta da rotina, e a decisão passa por uma equipe multidisciplinar.
A posição tem origem pessoal. Aos 15 anos, piloto de motocross, Nicholas passou meses no Rio de Janeiro treinando e quase reprovou de ano. Na volta, decidiu prestar atenção total em aula, já que não teria tempo de estudar em casa, e passou a gostar de aprender. Quando surgiu a chance de morar no Rio para treinar o dia inteiro, propôs largar a escola. Os pais disseram não.
Pouco depois, uma situação com um treinador, que ele descreve como algo que “hoje seria crime”, desestruturou a carreira e parte da vida dele. “Eu não tinha acompanhamento mental”, contou. Há dez anos ele trabalha como treinador mental de atletas, a função que mais faltou para ele.
Jordan, Sinner e os vários esportes na infância
Quando Diogo perguntou sobre crianças que praticam várias modalidades sem mirar o alto rendimento, Nicholas foi categórico: “Eu acho esse o melhor caminho”. Jiu-jitsu, balé e natação desenvolvem habilidades diferentes, e uma soma à outra.
Os dois citaram dois casos. Michael Jordan se aposentou do basquete em outubro de 1993 e jogou a temporada de 1994 de beisebol pelo Birmingham Barons, da liga menor ligada ao Chicago White Sox: rebateu para média de .202 em 127 jogos. Voltou ao Chicago Bulls em março de 1995 e ganhou mais três títulos da NBA, de 1996 a 1998.

Jannik Sinner, que chegou ao número 1 do ranking da ATP, foi campeão italiano de slalom gigante aos 8 anos e vice-campeão nacional aos 12. Só aos 13 trocou o esqui pelo tênis e se mudou para Bordighera, para treinar com Riccardo Piatti. Em entrevista à Vogue, em 2024, explicou a escolha: no tênis dá para errar pontos e ainda vencer a partida.

A ciência vai na mesma direção. Uma revisão publicada na revista Science em dezembro de 2025, liderada pelo pesquisador alemão Arne Güllich, analisou a trajetória de 34.839 pessoas de nível mundial, entre medalhistas olímpicos, ganhadores do Nobel, enxadristas e compositores. Os melhores na juventude, em geral, não eram os mesmos que chegavam ao topo adultos, e os campeões costumavam ter praticado mais de uma disciplina. A recomendação de Güllich: “Não se especialize cedo demais em uma única disciplina”.
Nicholas aplica a regra em casa. A filha, Martina, vai começar no jiu-jitsu e na natação, e pode ir para o balé se quiser. “Ela vai fazer aquilo que ela quiser. Porém, é regra que ela tenha esporte na vida dela enquanto estiver debaixo do mesmo teto que eu.” A ressalva: se o objetivo virar competição, em algum momento é preciso escolher uma modalidade e deixar as outras como hobby.
O prodígio que não conta seguidores
Daniel 220v é a exceção que confirma a regra: só faz jiu-jitsu. Estuda a distância quando viaja, aprendeu inglês fluente sem curso e, segundo Nicholas, tem hoje mais de 600 mil seguidores. Dois anos atrás, contou Nicholas, o menino levou quase duas horas para entrar no ginásio do Brasileiro, de tanta gente pedindo foto. Já foi convidado por um sheik de Abu Dhabi para passar dois meses na casa da família ensinando jiu-jitsu ao filho dele.
Por isso a história do barbeiro foi comemorada. “Qual que é o meu principal objetivo com o Daniel? Manter ao máximo que eu posso a inocência dele, a infância dele viva”, disse Nicholas. Mesmo com o jiu-jitsu já sendo profissão, ele precisa continuar sendo a criança que ama o esporte. “Se ele perder isso, aí perdeu tudo.”
Nicholas citou estudos que mostram mais abandono do esporte, por volta dos 16 aos 18 anos, entre quem ganhou muito na infância do que entre quem subiu de forma gradual. Diogo lembrou o custo físico: Rafael Nadal foi diagnosticado aos 19 anos, em 2005, com a síndrome de Müller-Weiss, doença degenerativa num osso do pé que o médico Ernesto Maceira, que o tratou, associou ao treino intenso na infância.

O alto rendimento que não aparece na Olimpíada
Quem assiste à ginástica olímpica vê leveza. “Se essas pessoas acompanharem um treino de uma ginasta, elas choram”, disse Nicholas, que já acompanhou de perto o trabalho de mobilidade dessas atletas. O recado foi para os pais: se o filho está no alto rendimento e o treinador, com bom caráter e método, está cobrando, “é assim mesmo”.
O limite está na equipe multidisciplinar, que cuida da saúde física e mental para que nada se perca no caminho. “Lesão é inevitável na vida do atleta. Uma hora ou outra vai acontecer.”
Do esporte para a empresa
A segunda metade do episódio trata de quem levou a cabeça de atleta para os negócios. O primeiro sinal, segundo Nicholas, é o movimento de CEOs e executivos no triathlon e no Ironman, gente que aprendeu a nadar e voltou a pedalar já adulta porque percebeu que o esporte rende fora dele.
Diogo contou o caso de Adriano Buzaid, que correu a Fórmula 3 Inglesa contra pilotos que chegaram à Fórmula 1 e deixou a carreira internacional em 2010, sem orçamento para subir. De volta ao Brasil, fundou em 2011 a Gohobby, distribuidora de drones da DJI. Buzaid mandou a Diogo o livro de cultura que a empresa entrega a todo funcionário novo. “Dá pra ver que muita coisa veio do esporte”, disse Diogo. Adriano segue correndo, agora como amador.
Também entraram na lista Caio Lopes, campeão brasileiro da MX3 em 2026 e empresário, e Anderson Dick, cofundador da FuelTech, com rotina diária de sauna e banheira de gelo. Nicholas lembrou ainda uma conversa com o empresário Marcelo Toledo, que disse sonhar com uma empresa em que todos os colaboradores fossem atletas. O motivo: “Quem foi atleta não consegue ficar no mesmo lugar. Ele sabe que, se não estiver evoluindo, está regredindo.”
O conselho para pais e atletas
No fechamento, Nicholas deixou uma lista prática. Treinar muito e buscar competições difíceis, “porque é isso que vai te moldar”. Investir em conhecimento: seminários, aulas com atletas profissionais e mestres da modalidade. Ter um treinador que seja bom na modalidade e bom na vida. “A gente vê tantos exemplos no esporte de pessoas que têm títulos, mas não são boas pessoas.”
E, acima de tudo, lembrar quem escolheu o caminho. “O teu filho tem que querer, não é tu que tem que querer pelo teu filho. Se tu tiver empurrando teu filho para competir, tem alguma coisa errada.”
O que isso ensina sobre alta performance
O episódio junta três ideias que a Atleta Pro Academy defende. A primeira é que processo mais tempo é igual a resultado: Jordan, Sinner e a revisão da Science mostram que ser o melhor aos 10 anos não garante nada aos 25, e que variar cedo pode valer mais do que especializar cedo.
A segunda é que o atleta não é o resultado dele. O trabalho com Daniel 220v não mira mais seguidores nem mais medalhas, mira a criança que ama o jiu-jitsu, porque é ela que sustenta a carreira quando a pressão aumenta. A terceira é que ninguém precisa fazer esse caminho sozinho: a história de Nicholas no motocross mostra o que acontece com um talento sem acompanhamento.
Para quem é pai, a mensagem dos dois é simples: coloque o filho no esporte, deixe que ele escolha e cerque a jornada de gente preparada. Outros papos do programa estão na série de episódios do No Topo no portal.
Atleta ou pai de atleta? Você não precisa fazer esse caminho sozinho.
Na Atleta Pro Academy tem preparação mental, método para conquistar patrocínio e mentoria ao vivo toda segunda-feira, numa comunidade com mais de 6 mil atletas e pais de atletas.







