Em julho de 2025, no Mont Ventoux, Tadej Pogačar fez o que muitos julgavam impossível: apagou um recorde que resistia havia mais de duas décadas, subindo o “Gigante da Provença” a quase 6,5 watts por quilo de peso durante quase uma hora. A mensagem parecia definitiva. A era moderna tinha, enfim, enterrado os fantasmas dos anos 1990.
Só que existe uma montanha onde o fantasma não se mexeu. No Alpe d’Huez, as 21 curvas que decidem Tours de France, o tempo mais rápido de todos os tempos ainda pertence a Marco Pantani, cravado em 12 de julho de 1995. Trinta e seis minutos e quarenta segundos. Passaram 31 anos e ninguém, nem Armstrong, nem Froome, nem o próprio Pogačar, chegou a dois minutos daquela marca. E em poucos dias, no fim de semana final do Tour de 2026, Pogačar terá duas chances de caçar o fantasma na própria montanha dele.

O número que não cai: 36 minutos e 40 segundos
Em 12 de julho de 1995, Pantani subiu os 13,8 km do Alpe d’Huez em 36min40s, tempo registrado pelo L’Équipe. Foi tão dominante que os três tempos mais rápidos da história da montanha são todos dele: 36min40s em 1995, 36min53s em 1997 e 37min15s na estreia, em 1994.
Existe uma confusão clássica com esse número, e vale esclarecer, porque a internet mistura tudo. O “37min35s de 1997” que muita gente cita é o tempo dele nos 14,5 km medidos a partir de um ponto mais baixo. Quando se cronometra a subida oficial de 13,8 km, a marca de 1995 (36min40s) é a mais rápida. Mesmo ponto de partida, mesma régua: Pantani na frente.
O que impressiona não é só o número, é a distância para o presente. O melhor tempo moderno no Alpe d’Huez é de 2022, quando Pogačar, Jonas Vingegaard e Geraint Thomas subiram juntos em 39min08s, a ascensão mais veloz desde Floyd Landis em 2006. Ou seja: a elite absoluta de hoje, com bicicletas mais leves e ciência de treino que Pantani nunca sonhou, ficou quase dois minutos e meio atrás de um homem que morreu em 2004.
| Tempo | Ciclista | Ano |
|---|---|---|
| 36min40s | Marco Pantani | 1995 |
| 36min53s | Marco Pantani | 1997 |
| 37min15s | Marco Pantani | 1994 |
| 37min36s | Lance Armstrong | 2004 |
| 37min40s | Jan Ullrich | 1997 |
| 39min08s | Pogačar, Vingegaard e Thomas | 2022 |
Tempos de subida do Alpe d’Huez (13,8 km). Fontes: L’Équipe, Sticky Bottle, climbing-records.com.
No Ventoux, o recorde caiu, e caiu feio
O Mont Ventoux conta a história oposta, e é aí que a comparação fica interessante. Em 21 de julho de 2025, na 16ª etapa do Tour, Pogačar subiu os 21,5 km do “Careca” em 54min30s, com Vingegaard dois segundos atrás, em 54min32s. Os dois pulverizaram o recorde de Iban Mayo, os 55min51s de 2004 que ninguém tocava havia 21 anos.
Para dimensionar: a melhor marca de Pantani no Ventoux, os 57min34s de 1994, ficou para trás. Naquele dia, é verdade, ele perseguia o fujão Eros Poli numa etapa que terminava do outro lado, em Carpentras, cenário diferente de uma chegada no alto. Mas o recado permanece. No Ventoux, os números da era Pantani foram batidos. No Alpe d’Huez, não. A mesma dupla que humilhou o cronômetro na Provença ficou a 2min28s do italiano nas 21 curvas.
Por que uma montanha caiu e a outra resiste? Parte é física da prova: subidas diferentes, vento, em que ponto da etapa a escalada acontece, quantos quilômetros de guerra vieram antes. Mas parte é uma pergunta que o esporte prefere não fazer em voz alta.
A pergunta incômoda: EPO, e por que comparar tempos é uma cilada
Não dá para colocar 1995 e 2025 na mesma planilha sem contexto, e quem faz isso está fazendo análise ruim. Os tempos de Pantani foram cravados no auge da era da EPO, o hormônio que multiplica os glóbulos vermelhos e tornou possíveis as escaladas daquela década. A UCI não tinha teste para EPO até o ano 2000. O pelotão da metade dos anos 1990 corria com um combustível que a federação simplesmente não conseguia medir.
Pantani foi engolido por essa história. Em 1999, liderava o Giro d’Italia por 5min38s com uma etapa de montanha por disputar quando um teste de sangue em Madonna di Campiglio acusou hematócrito de 52%, acima do limite de 50% da UCI, e ele foi expulso. Anos antes, em 1995, hospitalizado após uma queda na Milão-Turim, registrara 60,1%. São números que, no vocabulário da época, gritam manipulação sanguínea.
É preciso ser justo com o morto. Pantani negou até o fim, e o teste de 1999 é contestado: uma investigação do Ministério Público de Forlì e uma comissão parlamentar antimáfia italiana apontaram irregularidades graves na coleta e até a possibilidade de o resultado ter sido adulterado por membros da Camorra. Ele morreu em 2004, aos 34 anos, sem julgamento definitivo sobre aquele exame. O ponto aqui não é condenar o Pirata. É entender por que comparar cronômetro cru entre eras, sem olhar o que estava correndo nas veias do pelotão, é uma traição com os dois lados.

Watts não mentem: o que a potência revela
A era moderna trouxe uma testemunha que os anos 1990 não tinham: o medidor de potência. Hoje se sabe, com número, o que cada escalada custou. No Ventoux de 2025, Pogačar sustentou cerca de 6,4 watts por quilo e Vingegaard perto de 6,5 W/kg por quase uma hora, com um VAM (metros verticais por hora) na casa dos 1.730. São valores históricos, medidos, auditáveis, produzidos na era do passaporte biológico e de controles muito mais duros. É esse olhar de dado que uma nova geração de analistas trouxe para a prova, como mostramos no perfil de Felipe Fossati, o brasileiro que traduz o Tour de France com ciência.
E é justamente isso que torna o recorde do Alpe d’Huez tão perturbador. Os melhores do mundo, hoje, entregam potências monstruosas, verificadas por sensor, sob o regime antidoping mais rígido que o ciclismo já teve, e ainda assim não alcançam uma marca de 1995. Isso não diminui Pogačar. Ilumina o quão fora da curva foi aquela década. O recorde que sobrevive não é só um feito atlético. É um marcador histórico de um ciclismo que a ciência de hoje não consegue, e talvez não deva, reproduzir.
24 e 25 de julho: Pogačar terá duas chances
Aqui a história encontra o presente. O Tour de France de 2026, que começou em Barcelona no dia 4 de julho e termina em Paris no dia 26, reservou algo inédito: Alpe d’Huez em duas etapas seguidas, 19 e 20, no fim de semana final. É a primeira vez na história das Grandes Voltas que a montanha recebe chegadas em dias consecutivos. A corrida chega a esse ponto com Pogačar de amarelo e a decisão aberta, como contamos na análise da reta final nos Alpes.
A etapa 20, a “rainha”, cruza o Col du Galibier, a 2.631 metros o ponto mais alto de todo o Tour, antes de despejar o pelotão exausto nas 21 curvas. Com esse cardápio de escalada nas pernas, é improvável que o recorde caia ali: ninguém chega fresco ao pé do Alpe depois do Galibier. A chance real, se existir, mora na etapa 19, mais curta e explosiva, o tipo de dia em que um ataque de longe pode transformar a subida numa contrarrelógio individual disfarçada. Mesmo assim, são 2min28s de desvantagem para uma marca de 31 anos. O fantasma parte com folga.
O que isso ensina sobre alta performance
A lição para quem treina e para quem orienta atletas não é sobre ciclismo. É sobre leitura de dado. Comparar um número de hoje com um número de ontem sem olhar as condições que os produziram, o equipamento, a prova, o contexto e, sim, a farmácia, é o erro mais comum e mais caro de quem analisa performance. O cronômetro é honesto sobre o tempo e mudo sobre tudo o mais.
O sinal confiável não é a marca isolada, é a potência relativa medida com transparência: watts por quilo, sob controle, repetível. Foi o que permitiu à geração de Pogačar reescrever o Ventoux com credibilidade, e é o que expõe, no Alpe d’Huez, uma marca que talvez conte mais sobre a história do que sobre a fisiologia. Performance de verdade não é bater um número a qualquer custo. É construir um número que você possa explicar, e defender, à luz do dia.
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Perguntas frequentes
Qual é o recorde de subida do Alpe d’Huez?
36min40s, de Marco Pantani, em 1995, nos 13,8 km da subida oficial. É o tempo mais rápido já registrado na montanha.
Quem tem o recorde do Mont Ventoux?
Tadej Pogačar, com 54min30s em 2025, seguido por Jonas Vingegaard, dois segundos atrás. A dupla superou a marca de Iban Mayo, de 2004.
Pantani era mais rápido que Pogačar?
No Alpe d’Huez, sim, por cerca de 2min28s. No Mont Ventoux, não: Pogačar bateu a marca da era Pantani. A comparação depende da montanha e do contexto de cada época.
Por que o recorde do Alpe d’Huez não cai?
Pela diferença de perfil e de dinâmica de prova entre as edições, e principalmente pelo contexto da era da EPO nos anos 1990, quando não existia teste para o hormônio que potencializava as escaladas.
Quando o Tour de France 2026 sobe o Alpe d’Huez?
Nas etapas 19 e 20, dias 24 e 25 de julho, em chegadas consecutivas na montanha, algo inédito na história das Grandes Voltas.






