Em maio, no Drumsheds, em Londres, Guilherme Malheiros teve a pior competição da vida. Terminou a primeira etapa do World Fitness Project em 30º. Ele já sabia que ia dar errado antes de entrar: tinha virado pai havia pouco tempo, não tinha treinado direito, não tinha comido direito, não tinha bebido água direito. Foi assim mesmo, e o resultado apareceu no placar.
Cinco dias depois de o episódio ir ao ar, o brasileiro entra no SAP Center, em San Jose, para disputar os CrossFit Games de 2026. Entre aquele 30º lugar e a vaga nos Games existe uma história que Malheiros contou sem filtro no No Topo Podcast, e que tem menos a ver com treino do que a maioria dos atletas imagina.

“Não ser vítima”: a primeira coisa que ele respondeu
A pergunta que abriu o episódio foi direta: o que um atleta brasileiro precisa para se destacar entre os melhores do mundo? A resposta veio antes do fim da frase.
“Acredito que não ser vítima”, disse Malheiros.
Ele desenvolve o raciocínio sem romantismo. Os americanos jogaram futebol americano, basquete e beisebol, fazem treinamento de força desde criança e têm uma cultura esportiva que o Brasil não tem. Nada disso está em disputa. O ponto dele é outro: o que fazer com essa constatação.
“Se eu me apegar a isso, quem se ferra sou eu. Os caras continuam lá.”
A mentalidade que ele descreve é quase aritmética. “Eles são iguais a mim, eu sou igual a eles. Eles são homem também, eles vão cansar em alguma prova também, igual eu vou cansar.” Quando começou a treinar, seguindo a planilha do tricampeão brasileiro da época, já queria ser melhor do que o cara que escrevia a planilha.
E tem a diferença de objetivo, que ele considera decisiva. “Às vezes os atletas brasileiros querem classificar para o mundial. A minha mentalidade foi diferente: eu quero ganhar o mundial.” Segundo ele, isso sozinho já colocava a cabeça num outro lugar.
De Macaé a Cookeville: o dia em que ele virou o mais fraco da sala
Malheiros nasceu em Resende e começou a treinar em Macaé, no interior do Rio. Jogou basquete federado pelo time da cidade e queria a NBA. Foi o pai quem apontou o caminho: num esporte coletivo, você pode perder por culpa dos outros; num esporte individual, ganhou ou perdeu é você. Para um moleque competitivo daquele tamanho, o argumento fechou.
Em 2017, aos 17 anos, ficou em segundo nos Games na divisão teen e virou o primeiro brasileiro a subir no pódio da competição. Em 2021, terminou em sétimo entre os adultos, venceu três provas e assinou a melhor campanha de um latino-americano na história dos Games. Foi esse resultado que abriu a porta: naquele setembro, foi convidado a treinar no CrossFit Mayhem, em Cookeville, no Tennessee, a casa de Rich Froning, dono de dez títulos dos Games (quatro individuais e seis por equipe).
Chegou como o sétimo homem mais bem condicionado do mundo. E apanhou todo santo dia.
“Eu treinava numa semana o que eu costumava treinar num mês”, contou. O volume era outro, o grupo de treino era outro, e ele passou a perder para todo mundo na sala, homens e mulheres. Chorou em casa de cansaço. Num sábado, terminou o treino, estendeu um tapete do lado de fora do celeiro onde o time treina, deitou de barriga para baixo e ficou meia hora ali “só tentando existir”.
A frase que resume a mudança é a melhor do episódio inteiro:
“Quando eu saí do Brasil, eu era o mais inteligente da mesa. Quando eu cheguei aqui, eu era o mais burro da mesa.”
A saída foi parar de olhar o placar do dia. “Um dia eu vou ser bom. Eu só tenho que continuar treinando, e todo dia é um tijolinho.” Ele passou a postar o treino como quem assenta tijolo, um por vez.
Londres, o 30º lugar e a contagem regressiva
O plano para 2026 era concentrar tudo no World Fitness Project, o circuito que tenta profissionalizar o esporte pagando passagem, hotel e premiação melhor. Aí nasceu a filha, a vida mudou de eixo, e ele foi para Londres sabendo que ia se estourar. Estourou.
O 30º lugar veio junto com um problema contratual: por causa de patrocínio, se ele não disputasse os Games, sofreria um corte. A conta ficou simples e cruel. Ele voltou de viagem na segunda, correu na terça e na quarta já estava no box.
“Cara, eu tenho 36 dias para classificar para os Games.”
O que ele descreve a partir daí não é um plano de treino, é uma reconexão. Cortou rede social, se afastou de algumas pessoas, entrou no box, fez o trabalho e saiu. Voltou a beber água, dormir e comer direito. E, no meio da preparação, encontrou de novo o moleque de 17 anos que competia sem peso nenhum nas costas. “Cara, esse sou eu.”
Malheiros venceu a semifinal da América do Sul, fechando com vitória nas duas últimas provas, e carimbou a vaga em San Jose.
Ele credita parte do combustível a uma fonte que a maioria dos atletas prefere esconder: os haters. “Metas a cumprir, bocas a calar”, repete ao longo do episódio. Ele conta que Mat Fraser, pentacampeão, mantinha uma pasta só de prints de comentários negativos, e que ele e o coach já separaram os seus. “Queria deixar meu agradecimento público aqui a todos os meus haters. No fim das contas é carinho, porque ajuda.”
Nicholas Pasqualetto, que trabalha preparação mental de atletas, deu nome ao que aconteceu: ele perdeu a essência e a recuperou. “Quando a gente perde a essência, a gente perde tudo. Você pode até ganhar uma competição, mas se estiver distante da sua essência, até aquela vitória vai ser ruim.” Existem dois caminhos de volta, segundo ele: por propósito ou por necessidade. Malheiros voltou pela necessidade, do fundo do buraco, onde a única direção possível é para cima.
O jogo que quase nenhum atleta brasileiro joga
Aqui o episódio muda de assunto e fica mais valioso para quem não vai competir nos Games.
Em 2018, aos 18 anos, Malheiros se lesionou na lombar e usou o tempo parado para estudar Instagram, tráfego e marca digital, coisa que praticamente nenhum atleta estudava naquela época. Criou um grupo no Telegram compartilhando os treinos de fortalecimento que estava fazendo para se recuperar e juntou mais de 10 mil pessoas. Dali nasceu o Strong Base, produto digital que existe desde 2020 e que hoje passa de 25 mil alunos.
A lógica veio do pai, que é empreendedor: trabalhe para você mesmo. E veio também de uma percepção que ele resume com uma imagem difícil de esquecer. Na época, as marcas só queriam pagar atleta com produto.
“Não tem como comprar meu açaí com roupa.”
Ele começou a recusar permuta e a negociar dinheiro. Uma marca ofereceu 500 reais, ele pediu mil, fecharam mil. Deu retorno. Meses depois, a mesma marca pagava 5 mil. A diferença não foi o pódio, foi o retorno.
O enquadramento que reorganizou o Instagram dele veio de um agente de atletas: a empresa precisa saber o que está comprando quando olha o seu perfil. “Entro no teu perfil e fico perdido”, ouviu. A partir dali passou a tratar o Instagram como vitrine de atleta, com cerca de seis linhas editoriais definidas, sem meme solto e sem trend aleatória.
O trecho mais duro do episódio é sobre a ilusão do patrocínio fácil:
“Se você tivesse uma empresa, você não ia se patrocinar. Não é porque você é bonitinho que você tem que receber dinheiro. É porque você traz retorno, você é um ativo naquela empresa.”
E a resposta dele para a desculpa mais comum, a de que o atleta precisa focar no treino: “Você treina o quê, 5 horas por dia? Beleza. Tem outras 19 para fazer a parada.”
Sobre o atleta que se diz ruim de câmera, ele não faz concessão: “Tá bom. Então fica quebrado, sem dinheiro.”
“Instagram é posicionamento, YouTube é conexão”
A divisão de papéis que ele faz hoje entre as duas plataformas é o tipo de coisa que atleta nenhum ensina, porque quase nenhum pensou a respeito.
O Instagram, com 754 mil seguidores, é vitrine: existe para que marcas o encontrem e entendam em dois segundos que ali tem um atleta. O YouTube é onde ele vira gente. “As pessoas estão cansadas de ver só a gente levantando muito peso.” No canal, ele fala de medo, de nervosismo, da filha recém-nascida, porque é a vulnerabilidade que aproxima. “Ele levanta peso, mas não é um super-homem.”
O debate que ele levanta em seguida atravessa o esporte brasileiro inteiro: influenciadores fecham contratos maiores que atletas. Malheiros escuta isso desde 2018 e recusa a reclamação.
“Você pode não ser o melhor atleta do mundo, mas pode fazer mais dinheiro do que o melhor do mundo, porque você está se posicionando.”
A atenção, para ele, é a moeda, e reclamar dela não paga conta. Nenhum campeão mundial é patrocinado só por ser bom, argumenta: todos postam, todos fazem anúncio, todos vendem. O conselho prático fecha o raciocínio, e serve para quem tem 5 mil seguidores: mande mensagem para a marca, peça para experimentar o produto, aceite o cupom, acompanhe a conversão, estude o que é um bom gancho de vídeo, teste formato. “Não é difícil de aprender, é só querer aprender.”
O luto que tirou um ano da carreira
Malheiros classificou e competiu nos Games de 2024. Na primeira prova do primeiro dia, um amigo dele morreu. Lazar Đukić, sérvio de 28 anos, se afogou no lago Marine Creek, em Fort Worth, durante a prova de corrida e natação que abria o campeonato. Foi declarado morto às 10h24. A organização cancelou o resto do dia e decidiu seguir com a competição no dia seguinte.
Ele não teve como continuar competindo. E em 2025 escolheu não classificar, por discordar do que aconteceu e de como a empresa lidou com a morte.
“Não quero ser cúmplice”, disse.
É uma decisão que custou uma temporada inteira de um atleta no auge, e que boa parte do público interpretou como decadência. “A galera tem memória curta”, comentou, sem esconder o incômodo. Segundo ele, não foi falta de nível: foi escolha.
Os cinco minutos do pódio
No fim, Diogo Moraes perguntou o que significa chegar no topo. A resposta desmonta a própria pergunta.
Malheiros conta que, em 2024, fez uma preparação que aproveitou de ponta a ponta, chegou na semifinal e venceu. Subiu no pódio, e o pódio durou três, cinco minutos. Acabou. Segunda-feira normal para todo mundo.
“Se isso aqui fosse o que determinasse a minha felicidade, eu estava ferrado, porque foi rápido demais.”
O que sobrou não foi o troféu, foi a paz de saber que o trabalho devolve. Daí a definição dele de sucesso: “a paz de espírito de saber que tudo foi feito para que o objetivo fosse alcançado”. Se o objetivo veio ou não veio, muita coisa pode atrapalhar. O que não pode é ter faltado preparação.
“O primeiro lugar é ótimo, o 30º lugar é horrível. Mas se aquilo ali for o determinante da sua felicidade, não vai ser duradouro.”
E a frase que talvez seja a mais útil do episódio para qualquer atleta que já confundiu resultado com identidade:
“Você não é aquilo que você está fazendo. Você é você. Aquilo ali é o que você faz.”
O que isso ensina sobre alta performance
O episódio entrega três lições que sobrevivem fora do CrossFit.
A primeira é que ambiente é tecnologia. Malheiros não ficou melhor porque descobriu um método secreto no Tennessee. Ficou melhor porque passou a ser o pior da sala, e ser o pior da sala expõe buraco que o campeonato regional escondia. Piorou antes de melhorar, que é como funciona.
A segunda é que marca pessoal não é vaidade, é gestão de risco. Contrato acaba, lesão acontece, empresa quebra. O atleta que só tem o corpo tem um ativo com prazo de validade e nenhuma diversificação. O Strong Base nasceu de uma lesão na lombar, ou seja, exatamente do risco que ele estava tentando cobrir.
A terceira é a mais incômoda: o gargalo raramente é acesso. Malheiros aprendeu tráfego e edição com celular e internet, as mesmas ferramentas disponíveis para qualquer atleta com 5 mil seguidores hoje. O que trava, como ele repete do começo ao fim do episódio, é a decisão de não ser vítima da própria circunstância.
Os CrossFit Games de 2026 acontecem de 22 a 26 de julho, no SAP Center, em San Jose. Malheiros chega com a cabeça que ele mesmo descreve como a do garoto de 17 anos, quatro palavras de plano e nenhuma dúvida sobre qual é o trabalho.
Metas a cumprir, bocas a calar.
Assista ao episódio completo
Guilherme Malheiros no No Topo Podcast, com Diogo Moraes e Nicholas Pasqualetto.
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