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Guto Miguel derruba Kyrgios na morte súbita do UTS Rio

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Equipe Atleta Pro
Guto Miguel ataca a bola durante a partida contra Nick Kyrgios no UTS Rio, no Maracanãzinho

O Maracanãzinho estava cheio quando Guto Miguel entrou em quadra na noite desta quinta-feira (16) para a estreia no UTS Rio. Do outro lado da rede, Nick Kyrgios, 31 anos, um jogador que já venceu Djokovic, Nadal e Federer, e que há quatro anos disputou a final de Wimbledon. Do lado brasileiro, um garoto de 17 anos que, três dias antes, estava jogando a chave juvenil de Wimbledon.

Quarenta minutos depois, o garoto tinha ganhado. Guto venceu por 3 a 2 em quartos, com a decisão na morte súbita, e o ginásio veio abaixo.

Como foi o jogo: 2 a 0, reação e morte súbita

Guto começou como quem não tinha lido o currículo do adversário. Levou o primeiro quarto por 21 a 12 e o segundo por 15 a 10, impondo intensidade e tirando o australiano do lugar de conforto.

Kyrgios ajustou. Venceu o terceiro quarto por 16 a 13 e o quarto por 21 a 15, empatando a partida em 2 a 2 e levando o jogo para o desempate.

Na morte súbita do UTS, leva quem faz dois pontos seguidos. Guto fez os dois logo de cara: 2 a 0, jogo encerrado, 3 a 2 no placar de quartos.

“Incrível. Foi um jogo duro. Acho que comecei com boa intensidade, mas o Nick encontrou um jeito de tirar meu ritmo. No fim, acho que a vitória poderia ter ido para qualquer um dos lados mas, graças a Deus, veio para mim”, disse Guto depois da partida.

Guto Miguel comemora com o dedo levantado a vitória sobre Nick Kyrgios na estreia do UTS Rio
Guto Miguel comemora a vitória sobre Nick Kyrgios na estreia do UTS Rio (Foto: UTS)

O que é o UTS e por que o formato muda o jogo

O UTS (Ultimate Tennis Showdown) é a liga criada por Patrick Mouratoglou, o treinador que passou dez anos ao lado de Serena Williams. A proposta é reescrever as regras do tênis para caber na atenção de quem cresceu no YouTube.

Não existe game nem set. A partida é dividida em quartos de oito minutos, com ponto corrido, e vence o jogo quem levar três quartos. Empatou em 2 a 2, vai para a morte súbita. Existem cartas-bônus que alteram a pontuação durante o jogo. E, principalmente, a torcida pode gritar durante o ponto, sem a exigência de silêncio que define o tênis tradicional.

Isso não é detalhe decorativo. O formato premia quem começa rápido, quem aguenta barulho e quem decide sob pressão de relógio. É um teste diferente do que o circuito profissional cobra, e foi exatamente nesse teste que o adolescente brasileiro passou.

“Cresci vendo ele jogar”

Antes do jogo, Guto não escondeu de quem estava falando.

“É uma oportunidade incrível de jogar aqui, com regras totalmente diferentes do que estou acostumado, só aproveitar em jogar com o Kyrgios, cresci vendo jogar”, disse o brasileiro à CNN.

E completou com uma frase que explica melhor a carreira dele do que qualquer estatística: “Quanto mais perto estiver desses caras, pode ser que chegue um pouco mais rápido. O ambiente te puxa a fazer coisas certas.”

Depois da derrota, Kyrgios não economizou. Durante o intervalo, classificou Guto como um talento incrível, elogiou o tênis elétrico do brasileiro e destacou a frieza do garoto nos momentos decisivos da partida.

Kyrgios também já foi o número 1 juvenil

Aqui está a parte que o placar não conta.

Na véspera do jogo, Kyrgios foi perguntado sobre enfrentar o líder do ranking juvenil mundial. A resposta dele foi uma janela para a própria história.

“Quando eu era juvenil, eu era o número 1 do mundo. Eu me sentia no topo do mundo”, disse o australiano.

Não é força de expressão. Kyrgios chegou ao número 1 juvenil da ITF em janeiro de 2013, no mesmo mês em que foi campeão de simples do Australian Open juvenil, batendo o compatriota Thanasi Kokkinakis na final. Era o nome mais quente da geração dele.

O que veio depois foi uma carreira grande e incompleta ao mesmo tempo. Kyrgios bateu os três maiores da história, virou o jogador mais imprevisível do circuito, chegou à final de Wimbledon em 2022 e nunca passou do 13º lugar do ranking, marca que alcançou em 2016. Lesões, escolhas e temperamento entraram na conta.

O número 1 juvenil não é um contrato assinado com o futuro. É uma linha de largada. Kyrgios sabe disso melhor do que ninguém, e foi justamente ele quem disse, antes de perder para o atual número 1 juvenil: “Lembro-me de ser aquele garoto jogando diante da torcida da casa, sem nada a perder.”

O ano que credencia Guto Miguel

A diferença entre Guto e a maioria das promessas é que ele já vem entregando fora do juvenil.

Nascido em Goianésia, no interior de Goiás, em fevereiro de 2009, o brasileiro fez em 2026 o ano que muda uma trajetória:

  • Roland Garros juvenil (junho): campeão de simples, o primeiro brasileiro a conseguir o feito.
  • Wimbledon juvenil (julho): campeão de duplas ao lado do esloveno Ziga Sesko, com 6/1 e 6/4 na final sobre os americanos Michael Antonius e Andrew Johnson. Foi apenas a segunda vez que um brasileiro ganhou a chave de duplas masculinas do juvenil de Wimbledon. A primeira foi em 2014, com Orlando Luz e Marcelo Zormann.
  • Challenger de Santos (maio): semifinal aos 17 anos, dois meses e 12 dias. Virou o sul-americano mais jovem em atividade a alcançar uma semi de Challenger, e o mais novo desde Juan Martín del Potro, em 2005.
  • Ranking profissional: o salto em Santos empurrou o brasileiro de perto do 1.036º lugar para a faixa dos 820, com melhor marca de 824º em 22 de junho.

O número do ranking ainda é pequeno. O ritmo da curva não é. E o UTS, ao colocar um top do circuito na frente dele, deu a Guto a informação que treino nenhum dá: ele já compete de igual para igual quando o ginásio está gritando.

O que vem agora no UTS Rio

O torneio vai até sábado (18), no Maracanãzinho, com oito jogadores em fase de grupos e mata-mata no fim.

Nesta sexta-feira (17), Guto encara o americano Brandon Nakashima às 18h. Na sequência, João Fonseca joga contra o holandês Tallon Griekspoor às 19h, e volta à quadra às 21h para enfrentar o próprio Kyrgios. No sábado, os quatro melhores da fase de grupos disputam as semifinais, com a final marcada para as 16h.

O sonho da casa é óbvio, e Guto tratou de segurar a bola.

“Está muito longe ainda para pensar nisso, tenho que ganhar meu jogo de amanhã. Mas, com certeza, seria um sonho jogar no Brasil com o João, na casa dele. Acho que a torcida seria um pouquinho maior para ele. Mas tudo bem, vamos tentar chegar na final primeiro.”

Sobre a noite de quinta, ele fez questão de dividir a conta com quem estava na arquibancada: “A atmosfera de jogar no Brasil para mim é sempre muito especial. Queria agradecer a torcida e o carinho de todos. Não só aqui, mas pelo que vocês vêm me tratando muito bem durante todo o ano. Vamos seguir trabalhando, que o torneio só começou.”

O que isso ensina sobre alta performance

Um torneio de exibição não vale ponto no ranking. Vale outra coisa: informação.

Guto entrou em quadra contra um jogador que ele assistia na TV quando era criança, num formato que ele nunca tinha jogado, com regras que ele não domina, diante da maior torcida da vida dele. Abriu 2 a 0. Levou a virada. E, no ponto em que o jogo inteiro cabia, fez os dois pontos seguidos.

A parte que interessa para qualquer atleta não é o talento, que é evidente. É a frase dele: “O ambiente te puxa a fazer coisas certas.” Guto não está esperando ficar bom para conviver com os melhores. Ele está convivendo com os melhores para ficar bom. A ordem dos fatores altera o produto, e a maioria das carreiras trava exatamente aí, esperando um nível que só chega depois da exposição.

O contraponto está do outro lado da rede. Kyrgios teve tudo o que Guto tem hoje, e mais. Foi número 1 juvenil, campeão de Slam juvenil, e virou um jogador capaz de bater qualquer um em qualquer dia. Chegou ao 13º lugar. O talento nunca foi o gargalo dele, e a distância entre o que ele podia ser e o que ele foi não se explica por golpe nenhum.

É a diferença entre ter o dom e construir a estrutura que sustenta o dom por dez anos: constância, corpo inteiro, cabeça no lugar, escolhas chatas repetidas em dias sem plateia. Nenhuma dessas coisas aparece num quarto de oito minutos no Maracanãzinho.

Guto Miguel ganhou a noite. O que ele faz com os próximos dez anos é uma pergunta que nem ele pode responder ainda. Mas quinta-feira ele deu a primeira resposta possível: quando o barulho aumentou e o jogo apertou, o garoto não piscou.

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