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Porsche com motor de Ferrari: os 400 cv que ninguém foi conferir

Foto de Equipe Atleta Pro
Equipe Atleta Pro
Porsche 911 SC 1978 vermelho com o cofre traseiro aberto mostrando o V8 F136 italiano instalado no lugar do motor boxer

Em junho, um Porsche 911 SC de 1978 apareceu no paddock da Formula DRIFT em Connecticut com um V8 italiano no lugar do boxer de seis cilindros refrigerado a ar. O apelido pegou na hora: Porrari.

Nos dias seguintes, meia dúzia de veículos internacionais publicou a mesma frase sobre o carro, com as mesmas três informações: 400 cavalos, virabrequim plano, motor de Ferrari. Duas delas não sobrevivem a uma checagem. E sobre a terceira, o próprio construtor do carro admite que não sabe.

Um 911 de 1978 com um coração italiano

Jimmy Oakes é engenheiro e criador de conteúdo, tem cerca de 585 mil inscritos no YouTube e uma oficina em Connecticut. Ele não é piloto da Formula DRIFT, ao contrário do que a proximidade com o evento sugere. O Porrari foi revelado entre 18 e 20 de junho de 2026, no Stafford Motor Speedway, dentro do estande da ENEOS, a marca de óleo que banca o projeto.

O carro é um 911 SC 1978 desmontado até o osso. Saiu o boxer 3.0 de seis cilindros. Entrou um V8 aspirado da família F136.

Perfil do Porsche 911 SC 1978 do projeto Porrari na oficina de Jimmy Oakes, com pintura vermelha, rodas RAYS e teto de fibra de carbono
O 911 SC 1978 na oficina de Oakes, em Connecticut. Foto: Jimmy Oakes / Oakes Garage

O motor é da Ferrari, mas saiu de um Maserati

Aqui começa a parte que exige precisão. O F136 é uma família de motores V8 a 90 graus desenvolvida em conjunto por Ferrari e Maserati, e produzida pela Ferrari. Nesse sentido, chamar de “motor de Ferrari” não é mentira: a Ferrari projetou e fabricou.

Mas o motor específico que está dentro do Porrari não veio de uma Ferrari. Veio de um Maserati Quattroporte 2007. O próprio Oakes diz isso na câmera, ao explicar que teve de simplificar o sistema de arrefecimento “bem elaborado que ele tinha dentro do Maserati Quattroporte de onde saiu”.

E a variante muda tudo.

O detalhe que a imprensa inteira errou

Todos os textos publicados sobre o carro descrevem o motor como “V8 de virabrequim plano”, o famoso flat plane. É a assinatura técnica da Ferrari, e é o que faz um V8 italiano gritar agudo até a zona vermelha em vez de roncar grave como um V8 americano.

O problema: o Quattroporte 2007 usa a variante F136 UC, de 4.244 cm³ e 390 cavalos, com virabrequim cross-plane. Dentro da família F136, só as versões Ferrari são flat plane. Todas as versões Maserati e a da Alfa Romeo 8C são cross-plane. O flat plane não é um detalhe de ficha técnica, é justamente a peça que produz o som pelo qual as pessoas reconhecem uma Ferrari.

Detalhe do V8 F136 no cofre traseiro do Porsche 911, com as oito trombetas dos corpos de borboleta individuais e o coletor de escape em inox
O V8 F136 no cofre traseiro, com as oito trombetas dos corpos de borboleta individuais adaptados do BMW M3. Foto: Jimmy Oakes / Oakes Garage

O contraste fica claro quando se compara com outro swap que a Atleta Pro já cobriu. O Toyota 86 com motor de Ferrari do Ryan Tuerck usa o V8 de uma 458 Italia acidentada: F136 na versão Ferrari, flat plane de verdade, girando a 9.000 rpm. Esse é um motor de Ferrari no sentido pleno. O do Porrari é um motor construído pela Ferrari, na configuração que a Ferrari reservou para a Maserati.

A informação errada tem origem rastreável: ela aparece no comunicado de imprensa da ENEOS e foi reproduzida sem verificação por cada veículo que pegou a pauta.

O que o próprio construtor diz sobre os 400 cv

No dia 10 de julho, Oakes levou o carro ao dinamômetro e publicou a sessão inteira no canal. O trecho mais revelador não é o número. É o que ele fala antes de ligar o motor.

Ao estimar quanto o carro faria, Oakes diz que recebeu números de potência de várias pessoas e que eles “parecem estar por todo lado”. Ele então raciocina em voz alta: olha para o motor, comenta que a cilindrada “é um 4.2” e chuta que o carro deve entregar por volta de 336 cavalos na roda.

Ou seja: o homem que montou o carro não trabalha com 400 cavalos. Ele trabalha com uma estimativa que ele mesmo classifica como incerta, ancorada na cilindrada correta do Quattroporte, e não na do F430.

O dia de dyno que não saiu como planejado

A sessão foi dura. O carro apresentou vazamento de vácuo, superaqueceu e ficou com o comando variável sem funcionar. A equipe conseguiu completar uma passada de dinamômetro, mas não um acerto limpo o suficiente para cravar um número definitivo.

O balanço de Oakes no fim do vídeo é honesto ao ponto do desconforto: “um pouco de coração partido, não está perfeito”, diz ele, antes de emendar que o dia rendeu bons resultados mesmo assim, porque a curva do comando ficou onde ele queria e o chassi respondeu bem.

Vale dizer o óbvio: Oakes não está escondendo nada. Ele filma o erro, o retrabalho e a lista de pendências. Quem simplificou a história não foi ele.

Um Porsche costurado com peças de meio mundo

A engenharia do carro é genuinamente impressionante, e é isso que torna a simplificação ainda mais injusta com o projeto.

O V8 italiano foi casado a um câmbio de Porsche 996 por uma campana da Kennedy Engineered Products. Os corpos de borboleta individuais vieram do V8 S65 do BMW M3 E90/E92, com adaptadores e trombetas desenhados e impressos em 3D sob medida. O teto original deu lugar a uma pele de fibra de carbono. Os freios são pinças Brembo de quatro pistões de Porsche Boxster. A suspensão é Stance, as rodas são RAYS de 17 polegadas, 9,5 na frente e 10,5 atrás, e o tanque é um Radium de dez galões.

É alemão, italiano, japonês e americano no mesmo carro, feito com solda e esmerilhadeira em cima de um elevador. Como o próprio Oakes resume, o build não foi sobre pegar o caminho fácil.

Por que “Porrari” incomoda

Colocar um motor da Ferrari dentro de um Porsche mexe com a rivalidade mais antiga do automobilismo esportivo. Não é só marca contra marca: são duas filosofias opostas de engenharia. Porsche construiu identidade sobre o motor traseiro refrigerado a ar e a entrega linear. Ferrari construiu a dela sobre o V8 aspirado que sobe de giro como um instrumento.

O Porrari não é blasfêmia porque mistura as duas. É interessante justamente porque expõe o quanto a identidade de um carro mora em detalhes que quase ninguém audita. Como o formato de um virabrequim.

O que o Porrari ensina sobre alta performance

A distância entre 400 cavalos e 336 cavalos na roda é, em parte, apenas perda de transmissão. Mas a distância entre “400 cavalos de virabrequim plano” e “não sei, os números estão por todo lado” é outra coisa. É a distância entre o release e a medição.

Todo atleta convive com essa mesma distância. O número que se repete na entrevista, o tempo que se conta na roda de amigos, a carga que se diz levantar: nada disso é dado. Dado é o que sobrevive ao dinamômetro, ao cronômetro, ao teste de esforço. O resto é comunicado de imprensa.

O que Oakes faz de mais valioso não é o swap. É subir no dyno sabendo que pode dar errado, filmar o vazamento de vácuo e dizer “não está perfeito” com a câmera ligada. Atleta que só mede quando tem certeza de que vai gostar do resultado não está medindo. Está se aplaudindo.

O carro ainda vai voltar ao dinamômetro. O número real vai aparecer. E ele vai valer mais do que os 400 que já circularam o mundo, porque vai ter sido medido.

Leia também: o DeLorean com motor de Ferrari da FuelTech e a Toyota Supra com V10 de Fórmula 1 em Goodwood.

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