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Messi decide a Copa no estádio onde desistiu da seleção

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Lionel Messi com a camisa 10 da Argentina antes de partida da Copa do Mundo de 2026

O corredor do MetLife Stadium estava tomado de jornalistas quando Lionel Messi passou, na noite de 26 de junho de 2016, com os olhos vermelhos e a medalha de vice no bolso. Ele tinha acabado de bater um pênalti por cima do travessão na final da Copa América Centenário, visto o Chile levantar a taça pela segunda vez seguida e perdido a terceira decisão em três anos com a camisa da Argentina. Parou diante dos microfones e disse a frase que congelou o futebol argentino: “Ya está. Se terminó para mí la Selección.”

Neste domingo (19), às 16h de Brasília, Messi volta a pisar naquele gramado. Não para se despedir, mas para disputar a final da Copa do Mundo de 2026 contra a Espanha, no mesmo MetLife Stadium, em East Rutherford, Nova Jersey, dez anos e 23 dias depois da noite em que decidiu que não jogaria mais pela seleção.

A noite em que Messi desistiu

O jogo terminou 0 a 0 depois de 120 minutos, diante de 82.076 pessoas, o maior público para uma partida de futebol na história de Nova Jersey. Nos pênaltis, o Chile venceu por 4 a 2. Messi foi o primeiro batedor argentino e mandou a bola para a arquibancada.

Era a quarta final perdida por ele pela seleção principal, somando a Copa América de 2007, a Copa do Mundo de 2014 e as Copas América de 2015 e 2016. Três delas em três anos consecutivos. Na zona mista, ainda com a camisa suada, ele não terceirizou a conta.

“É uma tristeza grande o que voltou a acontecer com a gente. Ainda por cima sou eu que erro o pênalti”, disse. E completou: “Já tentei muito, dói mais em mim do que em qualquer um não conseguir ser campeão com a Argentina.”

Messi e Lautaro Martínez abraçados comemoram gol da Argentina contra o Egito na Copa do Mundo de 2026
Messi e Lautaro Martínez em Argentina x Egito, pelas oitavas da Copa de 2026. Foto: Bryan Berlin (CC BY-SA 4.0)

Dois meses depois, ele voltou atrás

A aposentadoria durou 47 dias. Em 12 de agosto de 2016, Messi anunciou que voltaria à seleção. Não houve pronunciamento grandioso nem reinvenção tática. Houve retorno, e depois cinco anos de nada.

O intervalo entre a renúncia e o primeiro título é a parte que costuma sumir da história. Messi voltou em 2016 e só levantou uma taça pela Argentina em julho de 2021, na Copa América do Maracanã. Foram cinco anos jogando sob a acusação de que não servia para decisão.

O que ele ganhou depois de quase parar

Desde que voltou atrás, Messi conquistou quatro títulos com a seleção argentina: a Copa América de 2021, a Finalíssima de 2022 contra a Itália, a Copa do Mundo do Catar em 2022 e a Copa América de 2024.

Os números individuais acompanharam. Messi é hoje o maior artilheiro da história das Copas do Mundo, com 21 gols em seis edições, e também o maior garçom do torneio em todos os tempos. Ele ultrapassou Pelé em participações diretas em gols em Copas e deixou para trás a marca de 16 gols do alemão Miroslav Klose, que havia igualado na estreia desta edição.

Vale registrar o detalhe: o hat-trick contra a Argélia, em 16 de junho de 2026, que o colocou ao lado de Klose, aconteceu exatamente 20 anos depois do primeiro gol dele em Copas, contra Sérvia e Montenegro, em 2006.

Aos 39 anos, o artilheiro da Copa

Messi chega à final aos 39 anos liderando a disputa pela Chuteira de Ouro, com 8 gols e 4 assistências no torneio. É a melhor campanha individual dele em uma Copa do Mundo.

A Argentina venceu os sete jogos que disputou: 3 a 0 na Argélia, 2 a 0 na Áustria, 3 a 1 na Jordânia, 3 a 2 em Cabo Verde na prorrogação, 3 a 2 no Egito, 3 a 1 na Suíça também na prorrogação e 2 a 1 na Inglaterra. Marcou 19 gols e sofreu 7.

Foi uma campanha de sufoco, não de passeio. Contra a Inglaterra, na semifinal em Atlanta, a Argentina esteve perdendo até os 40 minutos do segundo tempo, quando Enzo Fernández empatou após assistência de Messi, e Lautaro Martínez virou nos acréscimos.

Lionel Messi de perfil durante jogo da Argentina na Copa do Mundo de 2026
Messi aos 39 anos, na melhor campanha individual dele em Copas. Foto: Bryan Berlin (CC BY-SA 4.0)

Um feito que não acontece há 64 anos

Se vencer no domingo, a Argentina se torna a terceira seleção da história a conquistar duas Copas do Mundo consecutivas. Antes dela, só a Itália, em 1934 e 1938, e o Brasil, em 1958 e 1962. Nenhuma seleção repetiu o título mundial desde o time de Pelé e Garrincha no Chile, 64 anos atrás.

Seria também o tetracampeonato argentino, somando 1978, 1986, 2022 e 2026, e colocaria o país a uma conquista da Alemanha e da Itália, que têm quatro cada.

Messi tratou o assunto sem cerimônia depois da vitória sobre a Inglaterra. “Jogar a quinta final, outra final de Copa do Mundo, duas seguidas. É uma loucura”, disse. Ele lembrou que o grupo passou por um processo difícil e que a seleção vem entregando o máximo ao torcedor argentino ao longo de todo o ciclo.

A Espanha que só levou um gol em sete jogos

Do outro lado está o time mais sólido da competição. A Espanha empatou em 0 a 0 com Cabo Verde na estreia e depois venceu seis jogos seguidos: 4 a 0 na Arábia Saudita, 1 a 0 no Uruguai, 3 a 0 na Áustria, 1 a 0 em Portugal, 2 a 1 na Bélgica e 2 a 0 na França, com gols de Mikel Oyarzabal, de pênalti, e Pedro Porro.

São 13 gols marcados e apenas 1 sofrido em sete partidas. Nenhuma outra seleção do torneio chegou perto disso.

Curiosamente, o jogador mais esperado do time espanhol é o que menos apareceu no placar. Lamine Yamal esteve em campo nas sete partidas e marcou um único gol, contra a Arábia Saudita, com 17 finalizações e 10 no alvo. O xG dele no torneio é de 1,51, o que significa que a produção de chances existiu e a conversão não veio.

A final terá arbitragem do esloveno Slavko Vinčić, e vale a maior premiação da história do torneio. Antes dela, neste sábado (18), às 18h de Brasília, França e Inglaterra disputam o terceiro lugar no Hard Rock Stadium, em Miami.

O que isso ensina sobre alta performance

A história do MetLife costuma ser contada como destino ou poesia. Ela é mais útil lida como processo.

Em junho de 2016, Messi tomou uma decisão de carreira no pior momento possível para tomar qualquer decisão: minutos depois de uma derrota, com o corpo em pico de cortisol e a autocrítica no volume máximo. É o estado mental em que o atleta menos consegue avaliar a própria trajetória, e é justamente quando a maioria dos anúncios de aposentadoria acontece.

O que salvou a carreira internacional dele não foi ter sido mais forte naquela noite. Foi ter tido 47 dias. O intervalo entre a emoção e a execução da decisão é onde a carreira se decide, e esse intervalo é treinável: adiar deliberadamente qualquer escolha estrutural para 72 horas depois do jogo é um protocolo simples que treinadores de elite aplicam com atletas em fim de temporada.

O segundo ponto é o custo de retornar. Messi voltou em 2016 e passou cinco anos sem título, carregando o rótulo de quem não decide. A recompensa não veio como confirmação rápida da escolha certa. Veio meia década depois. Quem só consegue sustentar uma decisão enquanto ela dá retorno visível não sustenta uma carreira longa.

Domingo, aos 39 anos, ele volta ao mesmo gramado como maior artilheiro da história das Copas. Independente do placar, o dado que fica é anterior à final: a diferença entre a carreira que acabou em 2016 e a que chega aqui foram 47 dias de silêncio.

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