Em setembro de 1988, um menino de oito anos assistiu pela primeira vez à cerimônia de abertura de uma Olimpíada, a de Seul, e decidiu ali o que faria da vida. Quase quatro décadas depois, esse menino é primeiro-tenente da Polícia Militar do Estado de São Paulo, tem 46 anos e uma coleção de medalhas que atravessa quatro continentes de competição. O nome dele é Batista Ferreira Rodrigues Haddad, e a prova que ele escolheu, ou que o escolheu, é uma das mais brutais e menos compreendidas do atletismo: o lançamento de martelo.
A trajetória de Haddad contraria quase tudo o que se costuma repetir sobre carreira esportiva. Ele começou tarde, aos 20 anos, sem passar por nenhuma categoria de base. Nunca foi a promessa precoce. E foi justamente depois dos 35, a idade em que o discurso dominante manda o atleta parar, que ele encontrou o auge. Hoje, membro da Atleta Pro Academy, ele treina para o Campeonato Mundial Master de Atletismo, marcado para Daegu, na Coreia do Sul, entre 22 de agosto e 3 de setembro de 2026.

Um começo tardio que virou vantagem
No dia 7 de janeiro de 2000, Haddad entrou na pista de atletismo de Araraquara, no interior de São Paulo, para nunca mais sair. Testou várias provas até que uma delas respondeu diferente. No lançamento de martelo, uma esfera de metal presa a um cabo de aço que o atleta gira dentro de um círculo antes de arremessar, ele mostrou uma aptidão que não tinha em nenhuma outra. Ele chama a relação de “casamento perfeito”, e ela dura até hoje.
Por ter chegado tarde, aos 20 anos, ele pulou toda a base e caiu direto na categoria adulta. Disputou Jogos Regionais, Jogos Abertos do Interior do Estado de São Paulo, Campeonato Paulista Adulto e o Troféu Brasil de Atletismo, a elite nacional. Foram 17 medalhas em Jogos Regionais, seis em Jogos Abertos do Interior e presença em finais de Campeonato Estadual Adulto e do Troféu Brasil. O que parecia desvantagem, começar velho num esporte de base precoce, se revelou o contrário com o tempo. Sem o desgaste de dez anos de categoria de base nas costas, ele chegou aos 40 com corpo e cabeça para continuar competindo.
2015: o ano em que a carreira virou de vez
Havia um momento de incerteza. Depois de mais de uma década na categoria adulta, sem o mesmo horizonte que move um jovem atleta, Haddad estava em dúvida sobre o próprio futuro no esporte. A resposta veio de um lugar que ele ainda não conhecia: o atletismo master.
Em 2015 ele disputou o Campeonato Paulista Master pela primeira vez. Conquistou a medalha de ouro e estabeleceu o recorde paulista da categoria 35 a 39 anos. No ano seguinte, em 2016, defendeu a Seleção Paulista Master no seu primeiro Campeonato Brasileiro e sagrou-se campeão na mesma faixa etária. A porta que ele achava que estava se fechando era, na verdade, a entrada para a fase mais vitoriosa da vida dele.
A farda no pódio: os Jogos Mundiais das Polícias e Bombeiros
Em 2017, recém-declarado aspirante a oficial, Haddad descobriu a existência dos World Police and Fire Games, os Jogos Mundiais das Polícias e Bombeiros, que naquele ano aconteciam em Los Angeles. Com autorização do comandante do batalhão e um planejamento próprio, ele embarcou. Foi a primeira viagem internacional da vida dele e a primeira vez que vestiu a camisa do Brasil e da Polícia Militar em uma competição fora do país. Voltou com o bronze na categoria 35 a 39 anos.
A partir dali, virou presença constante. Foram cinco edições e cinco medalhas:
- 2017, Estados Unidos: bronze (35 a 39 anos)
- 2019, China: ouro (35 a 39 anos)
- 2022, Holanda: prata (40 a 44 anos)
- 2023, Canadá: bronze (40 a 44 anos)
- 2025, Estados Unidos: prata (45 a 49 anos)

Cada uma dessas medalhas foi conquistada representando ao mesmo tempo o esporte brasileiro e uma corporação de mais de 100 mil policiais militares. Foi também em 2017 que ele passou a disputar o lançamento do martelete, o martelo indoor, arremessado em ginásios do Hemisfério Norte por causa do inverno rigoroso. Duas provas, duas frentes de treino.
Do estádio de Málaga à pista de Daegu
No circuito civil, Haddad subiu para a elite mundial master e passou a colecionar finais de Mundial. A progressão dos resultados conta a história de um atleta que não parou de aprender a prova:
- 2018, Málaga (Espanha): 8º no martelo (35 a 39 anos)
- 2022, Tampere (Finlândia): 4º no martelete e 5º no martelo (40 a 44 anos)
- 2023, Torun (Polônia), indoor: bronze no martelo e 6º no martelete (40 a 44 anos)
- 2024, Gotemburgo (Suécia): 10º no martelo e 12º no martelete (40 a 44 anos)
- 2025, Gainesville (Estados Unidos), indoor: 4º no martelo e 6º no martelete (45 a 49 anos)

O bronze de Torun, em 2023, colocou Haddad no pódio de um Campeonato Mundial Master, o ponto mais alto de uma carreira construída fora dos holofotes. Agora o objetivo é Daegu. O Mundial Master de 2026 reúne, na Coreia do Sul, cerca de 11 mil atletas de mais de 90 países, todos com 35 anos ou mais, em dezenas de disciplinas. Haddad compete na categoria 45 a 49 anos, no martelo e no martelete.
Tricampeão sul-americano e uma régua que não para de subir
O currículo continental é o mais impressionante. Haddad é tricampeão sul-americano no lançamento de martelo, com ouro na Colômbia (2022), no Peru (2023) e no Chile (2025). No Chile, em 2025, somou também o título no martelete. Antes disso, já havia sido vice-campeão sul-americano na faixa 35 a 39 anos (Chile, 2017) e campeão do GP Mercosul na mesma categoria (Uruguai, 2019).
No Brasil, os números viram inventário: campeão brasileiro cinco vezes no martelo e quatro no martelete desde 2016, e campeão paulista nove vezes no martelo e sete no martelete desde 2015. A conquista mais recente é fresca. Em maio de 2026, no II Campeonato Iberoamericano Master de Lima, no Peru, ele foi vice-campeão na categoria 45 a 49 anos nas duas provas, o aquecimento perfeito, e no nível mais alto, para o Mundial de Daegu.
O que a trajetória de Haddad ensina sobre alta performance
A história do tenente Batista Haddad é um argumento contra uma das ideias mais teimosas do esporte amador: a de que existe uma idade certa para começar e uma idade certa para parar. Ele começou aos 20, sem base, e ganhou o primeiro grande título passados os 35. Aos 46, disputa Mundial. É a mesma lógica de longevidade que move outros atletas de alta performance, como Guilherme Malheiros, que fez do 30º lugar um recomeço.
O que sustenta uma carreira assim não é talento precoce, é método. Disciplina militar, consistência de treino ano após ano e o domínio técnico de um gesto que leva décadas para refinar. O martelo perdoa pouco: é força, timing e rotação em frações de segundo. Chegar ao pódio mundial nessa prova, na quinta década de vida, só acontece para quem trata o treino como profissão, mesmo sem se encaixar na definição legal de atleta profissional. O teto de Haddad nunca foi a idade. Sempre foi o próximo lançamento.
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