Dez dias atrás, o número parecia intocável. O Alpe d’Huez era a última montanha grande do ciclismo onde os anos 1990 ainda mandavam, o único lugar em que ninguém da era moderna tinha chegado perto de Marco Pantani. Nesta sexta-feira (24), na etapa 19 do Tour de France, Tadej Pogačar subiu as 21 curvas em 35 minutos e 27 segundos e encerrou a discussão.
Foi mais rápido que qualquer marca do italiano, em qualquer cronometragem, por mais de um minuto. A montanha que resistia havia 31 anos caiu num dia de sol, com o esloveno de amarelo e o público fechando o corredor.

35min27s, e a régua que dá o tamanho do feito
A subida oficial do Alpe d’Huez tem 13,8 km a 8,1% de inclinação média. Pogačar cravou 35min27s ali, a uma média de 23,2 km/h e um VAM (metros verticais por hora) na casa dos 1.880. A equipe UAE Team Emirates registrou 35min26s no comunicado oficial, um segundo de diferença que depende de onde exatamente se aperta o cronômetro.
A referência que ele apagou tem uma história confusa, e vale separar as coisas. O tempo de Pantani mais citado por tabelas históricas e pelo L’Équipe é 36min40s, de 12 de julho de 1995. Outras compilações registram 36min50s para a mesma subida. Já o famoso “37min35s de 1997” é medido sobre 14,5 km, a partir de um ponto mais baixo da estrada, e não serve de comparação direta.
A margem, portanto, fica entre 1min13s e 1min23s, dependendo da fonte. O que não muda é o essencial: Pogačar passou por baixo de todas as versões do recorde. E fez isso com os três melhores tempos da história da montanha pertencendo, até esta sexta, ao mesmo homem: Pantani em 1995, 1997 e 1994.
O Atleta Pro publicou no dia 14 de julho uma análise apostando que a marca sobreviveria a este Tour. A conta que sustentava a aposta era simples: em 2022, Pogačar tinha subido o Alpe em 39min08s, quase dois minutos e meio atrás do italiano. Recuperar isso em quatro anos parecia fora de escala. Não estava.

Como a etapa foi ganha: ataque a 12 km do alto
A etapa 19 saiu de Gap com 128 km, o Col Bayard, o Col du Noyer (7,2 km a 8,5%) e o Col d’Ornon no cardápio antes do pé da montanha. Uma fuga numerosa abriu mais de quatro minutos e chegou ao Alpe com margem confortável.
Pogačar atacou a 12 km do topo, se apoiando no trabalho do companheiro de equipe Felix Großschartner, e naquele momento tinha três minutos de desvantagem para a frente da corrida. A 8,5 km do alto, a diferença já era pouco mais de dois minutos. A 3 km, menos de um. Ele alcançou o francês Lenny Martinez a 2,7 km da linha, andou junto e disparou de vez a 800 metros.
Martinez, da Bahrain Victorious, terminou a 6 segundos. Richard Carapaz, que tinha vencido a etapa 18 na véspera, chegou em terceiro, a 9 segundos, e assumiu a camisa de bolinhas de melhor escalador com 91 pontos contra 90 do próprio Pogačar. O mexicano Isaac del Toro, companheiro de equipe do líder, foi o sétimo, a 2min41s.
É a quinta vitória de etapa de Pogačar neste Tour e a 26ª da carreira dele na prova, a nove do recorde de Mark Cavendish. Foi também apenas a segunda vez na história que o dono da camisa amarela venceu no Alpe d’Huez. A primeira tinha sido Geraint Thomas, em 2018.
“É muito legal vencer aqui em cima, e a atmosfera foi uma loucura na subida inteira”, disse o esloveno na chegada. “Foi graças ao time inteiro que eu consegui.”
Perto de 7 watts por quilo durante 35 minutos
Análises de potência publicadas logo após a etapa estimam que Pogačar sustentou algo próximo de 6,99 watts por quilo de peso corporal ao longo da subida. É estimativa, não leitura oficial de medidor, porque as equipes não divulgam os arquivos. Mas o número conversa bem com o que ele já entregou antes.
No Plateau de Beille, em 2024, subiu 39min30s a cerca de 7 W/kg. No Mont Ventoux, em 2025, quando derrubou o recorde de Iban Mayo, ficou perto de 6,4 a 6,5 W/kg por quase uma hora. Ou seja: no Alpe d’Huez ele repetiu o patamar mais alto do próprio repertório, numa subida onde nunca tinha se aproximado disso.
Antes da etapa, simulações da revista alemã TOUR calculavam que 440 watts médios levariam Pogačar a 35min59s, algo em torno de 6,7 W/kg, e classificavam o cenário como otimista. Ele chegou 32 segundos abaixo dessa projeção.
O próprio ciclista tratou o assunto como consequência natural do momento do esporte. “Também acho que já era hora”, afirmou. “Se você olha as médias de velocidade no pelotão e o quanto a gente anda rápido hoje, dá pra ver o quanto esse esporte evoluiu nos últimos cinco anos. É bom ver que estamos andando tão rápido, inclusive nas subidas.” Sobre o recorde em si, foi direto: “Eu não sei qual era o tempo do Pantani, para ser honesto. Ouvi que quebrei, então estou feliz.”

A sombra dos anos 1990 continua na conversa
Não dá para contar essa história sem o contexto que a produziu. Os tempos de Pantani foram cravados no auge da era da EPO, e a UCI só passou a ter um teste para o hormônio em 2000. O italiano foi expulso do Giro d’Italia de 1999 quando liderava a prova, após um exame acusar hematócrito de 52%, acima do limite de 50%. Investigações posteriores do Ministério Público de Forlì apontaram irregularidades na coleta, ele negou até o fim e morreu em 2004, aos 34 anos, sem julgamento definitivo. O quarto melhor tempo histórico da montanha, os 37min36s de Lance Armstrong em 2004, pertence a um corredor que teve os sete títulos do Tour cassados por doping.
É esse passado que faz qualquer marca nova no Alpe d’Huez nascer sob suspeita, e a pergunta apareceu de novo nesta sexta. A resposta mais equilibrada do pelotão veio do ex-ciclista Tom Dumoulin: “Espero que tudo seja completamente justo e, por ora, é isso que devemos presumir. Não há razão nem evidência nenhuma que sugira o contrário.”
Há uma diferença estrutural entre as duas eras que costuma sumir da discussão. Os tempos dos anos 1990 são cronômetro puro, sem nenhum dado fisiológico por trás. Os de hoje são produzidos sob passaporte biológico, com controles fora de competição e potência mensurável. O número de 1995 não pode ser auditado. O de 2026 pode.
O Tour está decidido, mas o Alpe d’Huez tem mais um capítulo
Na classificação geral, Pogačar soma 67h53min00s e abre 7min11s para Remco Evenepoel. Del Toro é o terceiro, a 9min42s. É a maior vantagem que o esloveno já teve em qualquer um dos cinco Tours que disputou como candidato ao título, ainda que a margem se explique em parte pela ausência de Jonas Vingegaard nesta edição.
Faltam duas etapas. E o Tour de 2026 fez algo inédito: colocou o Alpe d’Huez como chegada em dois dias seguidos. Neste sábado (25), a etapa 20 sai de Bourg-d’Oisans com 170,9 km e mais de 5.000 metros de altimetria, passando pelo Col de la Croix de Fer (24 km a 5,2%), Col du Télégraphe (11,9 km a 7,1%) e Col du Galibier (17,7 km a 6,9%) antes de subir ao Alpe pelo Col de Sarenne, e não pelas 21 curvas clássicas.
Ninguém vai atacar recorde nenhum ali. Com o Galibier nas pernas, a etapa rainha é sobre sobreviver, não sobre cronômetro. Mas ela é a última chance real de mexer no pódio, e a briga pela camisa de bolinhas entre Carapaz e Pogačar está a um ponto de distância.
O que isso ensina sobre alta performance
O dado mais instrutivo do dia não é a comparação com Pantani. É a comparação de Pogačar com ele mesmo. Em 2022, na mesma montanha, ele subiu em 39min08s. Nesta sexta, 35min27s. São 3 minutos e 41 segundos de melhora em quatro anos, num atleta que já era o melhor do mundo em 2022.
Isso desmonta uma crença comum entre atletas e treinadores: a de que, chegando ao topo, só sobra manutenção. Não sobra. O que muda na margem da elite é a soma de coisas pequenas e sistemáticas, alimentação em corrida, controle de peso na janela certa, equipamento, calendário, escolha de quando gastar. Nenhuma delas isolada explica quase quatro minutos. Todas juntas, sim.
A segunda lição é sobre ler número. Comparar marcas de eras diferentes sem olhar o contexto que as produziu é análise ruim, e vale nos dois sentidos: serve para não canonizar um tempo de 1995 e serve para não desqualificar um de 2026 por reflexo. O cronômetro é honesto sobre o tempo e mudo sobre todo o resto. Quem treina performance de verdade aprende a perguntar o que veio antes do número.
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