Richard Carapaz cruzou sozinho a linha de chegada em Orcières-Merlette com os braços abertos, na quinta-feira (23). Foram 45 segundos de vantagem sobre o segundo colocado, 185,2 quilômetros de etapa e um ataque disparado a 3,5 km do alto da última subida. A segunda vitória de etapa dele no Tour de France, a nona em Grandes Voltas, número que nenhum sul-americano alcançou antes.
Três meses antes, o equatoriano estava em casa, no Equador, se recuperando de uma cirurgia que o tirou do Giro d’Italia e que a própria equipe admitiu ter sido mais séria do que o previsto. A distância entre um ponto e outro é o que transforma essa etapa em algo maior que uma linha de resultado.

O ataque veio a 3,5 km do topo
A etapa 18 ligou Voiron a Orcières-Merlette, 185,2 quilômetros com chegada em uma rampa final de cerca de 7 km. Carapaz chegou aos pés dessa subida com mais cinco companheiros de fuga: Matteo Jorgenson (Visma | Lease a Bike), Mauro Schmid (Jayco AlUla), Valentin Paret-Peintre (Soudal Quick-Step), Tobias Halland Johannessen (Uno-X Mobility) e Raúl García Pierna (Movistar).
Ele atacou duas vezes. A segunda, a pouco mais de 3,5 km da linha, foi a que quebrou o grupo. No último quilômetro a vantagem já era de 37 segundos. Na chegada, 45 sobre Schmid, com Jorgenson em terceiro. Tempo do vencedor: 4h26min11s.
“Esta última subida era dura e se encaixava bem nas minhas características. Esperei o meu momento, e o melhor é que consegui aproveitar a vitória”, disse o equatoriano à Reuters depois da prova.
Foram 70 km de briga para a fuga sair, e 148 km na frente
A etapa levou quase 70 quilômetros para se desenhar. Foram mais de uma hora de ataques até que o grupo de seis conseguisse abrir espaço, e a partir dali a fuga liderou por cerca de 148 quilômetros, com vantagem que passou dos 8 minutos.
O pelotão dos favoritos não reagiu. Chegou mais de quatro minutos e meio atrás, sem mexer nada na briga pelo título. Tadej Pogačar segue de amarelo, com 4min32s sobre Remco Evenepoel e 6min51s sobre Isaac del Toro. Com a saída de Jonas Vingegaard, que quebrou a clavícula e abandonou o Tour, a corrida virou uma disputa por pódio, não por camisa amarela.
É justamente esse cenário que abre espaço para o tipo de dia que Carapaz construiu. Quando a geral está resolvida, a fuga vira o único palco que sobra.
De Playa Alta ao ouro olímpico
Para quem não acompanha ciclismo de perto, vale a régua. Carapaz tem 33 anos e nasceu em Playa Alta, uma comunidade rural da província de Carchi, no norte do Equador, colada na fronteira com a Colômbia. Chegou ao pelotão europeu pela Movistar, venceu o Giro d’Italia de 2019 e virou o primeiro equatoriano a ganhar uma Grande Volta.
Dois anos depois, em Tóquio, ganhou o ouro olímpico na prova de estrada. Passou pela Ineos Grenadiers e chegou à EF Education-EasyPost, onde já vestiu o amarelo no Tour, ganhou a montanha em 2024 e terminou o Giro de 2025 em terceiro, com uma etapa no bolso.
Nove vitórias de etapa em Grandes Voltas, distribuídas entre Giro, Tour e Vuelta. Nenhum sul-americano na história do ciclismo tem mais.
A cirurgia que apagou o meio da temporada
Depois da Volta a Catalunha, Carapaz passou por uma cirurgia no Equador para remoção de um cisto perineal. A EF Education-EasyPost afirmou de início que o Giro d’Italia não estava em risco. Não era verdade.
“A ferida da cirurgia era bastante grande, e a recuperação foi mais longa do que o previsto”, explicou Jon Greenwell, chefe médico da EF Pro Cycling, quando a equipe confirmou o corte. Carapaz, campeão do Giro em 2019 e primeiro equatoriano a vencer a corrida italiana, ficou de fora da prova que tinha escolhido como alvo da temporada.
O Tour virou o plano B. E o plano B começou mal: 17 etapas sem vitória, várias tentativas de fuga que não deram em nada. “Tínhamos tentado vencer várias vezes, mas não tinha sido possível”, resumiu ele.
Vale medir o tamanho do buraco. Uma cirurgia na virada de março para abril, com recuperação mais longa que a prevista, significa perder o bloco de treino mais importante do ano, aquele que constrói o motor para as três semanas de julho. Carapaz chegou à França com preparação improvisada, disputando as etapas alpinas contra ciclistas que tinham feito o calendário inteiro. Foi assim que ele venceu.

A camisa de bolinhas está a sete pontos
O efeito colateral da vitória é o mais interessante para o que ainda vem pela frente. Os pontos de montanha em Orcières-Merlette jogaram Carapaz para o terceiro lugar da classificação, com 63, atrás de Pogačar (70) e de Valentin Paret-Peintre (69). Sete pontos de diferença para o líder, com duas etapas de montanha ainda pela frente.
Carapaz conhece o terreno. Em 2024, ele levou a camisa de bolinhas para Nice, além do prêmio de combatividade e da primeira vitória de etapa de um equatoriano na história do Tour, em Superdévoluy. É o único equatoriano a ganhar uma classificação secundária de Grande Volta na França.
Nesta sexta-feira (24), a etapa 19 sai de Gap e termina no Alpe d’Huez, a subida mais famosa do ciclismo. É onde a briga pela montanha se resolve ou se enterra. Pogačar, que administra a corrida com frieza desde a primeira semana, ainda não venceu no Alpe d’Huez, e a UAE tem motivos de sobra para tentar.
No sábado (25), a etapa 20 termina no mesmo lugar. São 170,9 quilômetros de Bourg-d’Oisans ao Alpe d’Huez, com 5.450 metros de altimetria acumulada e Croix de Fer, Télégraphe, Galibier e Col de Sarenne no caminho. É a primeira vez desde 1979 que o Tour sobe o Alpe d’Huez em duas etapas seguidas.
O problema aritmético de Carapaz é esse. Para tirar a camisa de bolinhas, ele precisa que Pogačar deixe de pontuar nos cumes, e um Pogačar que quer a glória do Alpe d’Huez pontua em todos eles. A rota alternativa é entrar nas fugas dos dois últimos dias de montanha e recolher pontos nos cumes intermediários, o que exige repetir na sexta e no sábado o esforço que ele acabou de fazer na quinta. É o tipo de conta que só fecha para quem está com a perna muito boa, e a perna dele voltou tarde.
Na camisa verde, Mads Pedersen lidera com 477 pontos, à frente de Jasper Philipsen (445).
A EF Education-EasyPost esperou 18 etapas
Para a equipe americana, a vitória encerrou um Tour de France que estava ficando vazio. Foi o primeiro triunfo da EF Education-EasyPost na corrida em 2026, num ano em que o time perdeu Ben Healy e Neilson Powless para lesões e teve de reconstruir a estratégia inteira em torno de caça a etapas, em vez de disputa de classificação geral.

Carapaz subiu para o décimo lugar da geral, a 21 minutos de Pogačar. Não é o resultado que ele planejou em janeiro. Mas é a diferença entre um Tour de France apagado e um Tour de France com uma etapa alpina no currículo, o que muda o valor do ciclista, da equipe e do contrato. A conta é conhecida por quem acompanha quanto o Tour de France distribui em premiação e como se formam os salários no pelotão.
“Estou aqui para lutar até Paris”, avisou.
Orcières-Merlette cobra o mesmo preço desde 1971
O lugar tem história. Foi ali, em 1971, que Luis Ocaña atacou a 60 km da chegada e tirou 8min42s de Eddy Merckx, no que ficou como uma das exibições mais brutais já vistas no Tour. Ocaña vestiu o amarelo naquele dia e abandonou dias depois, após uma queda na descida do Col de Menté.
Em 2020, Primož Roglič venceu no mesmo alto. A subida não é a mais longa nem a mais íngreme dos Alpes, mas tem um perfil que premia quem sabe dosar e explodir no fim. Carapaz leu isso corretamente.
Chegadas assim funcionam como filtro. Rampa constante, sem trechos de descanso, longa o bastante para punir quem forçou cedo e curta o bastante para não recompensar apenas o mais resistente. Quem ganha em Orcières-Merlette ganha porque calculou, não porque sobrou.
O que isso ensina sobre alta performance
O ponto não é a vitória. É o que veio antes dela.
Carapaz passou por uma cirurgia, perdeu o objetivo principal do ano, chegou ao Tour de France sem ritmo de competição e gastou 17 etapas tentando entrar em fugas que não vingaram. Cada uma dessas tentativas custou energia que não voltou. Do lado de fora, o placar dizia que nada estava funcionando.
O que ele fez foi continuar comprando bilhete. Fuga que não sai é custo, e é custo alto. Mas a matemática do ciclismo, como a de quase todo esporte, não paga por tentativa: paga por acerto. Quem para de tentar na décima falha nunca chega na décima primeira.
O segundo ponto é técnico. Carapaz não atacou no pé da subida, nem no meio. Esperou até 3,5 km do topo, um trecho que ele já sabia que aguentava sustentar sozinho. É o oposto do impulso. Atleta que ataca cedo por ansiedade entrega a vitória para quem tem paciência.
E o terceiro é sobre calibrar o alvo. O Giro era o objetivo. Perdido o Giro, o objetivo não virou “salvar a temporada”, frase grande demais para caber em qualquer plano de treino. Virou uma etapa. Uma subida específica, com um perfil específico, num dia em que a geral provavelmente deixaria a fuga ir. Objetivo pequeno o suficiente para ser executado, grande o suficiente para mudar o ano.
Três meses depois de uma mesa de cirurgia, isso valeu 45 segundos e uma vitória de etapa no Tour de France.
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