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Shelton derruba Alcaraz às 3h33, o jogo mais tarde do US Open

Ben Shelton comemora a vitória sobre Carlos Alcaraz nas quartas de final do US Open de 2026

Ben Shelton entrou na quadra Arthur Ashe perto das 23h de terça-feira e só saiu de lá às 3h33 da madrugada, com a maior vitória da carreira no bolso. O americano venceu Carlos Alcaraz por 6/7, 6/1, 6/3, 1/6 e 7/6, tirou o atual campeão do US Open e colocou o próprio nome numa linha inédita do torneio: nenhuma partida na história da competição tinha terminado tão tarde.

Foram 4 horas e 28 minutos de jogo. O quinto set foi decidido no tie-break de dez pontos, 10 a 7, e o ponto final saiu de um saque a 235 km/h. Quando a bola quicou, boa parte de Nova York já estava dormindo havia horas, e o Arthur Ashe ainda tinha gente de pé.

Cinco sets, 4h28 e um tie-break para decidir

O jogo teve a estrutura de gangorra que costuma aparecer quando dois sacadores fortes se recusam a ceder. Alcaraz levou o primeiro set no tie-break. Shelton respondeu com dois sets seguidos, 6/1 e 6/3, no trecho mais limpo que produziu na noite. O espanhol devolveu com um 6/1 no quarto, e a decisão foi para o formato que os Grand Slams adotaram para não deixar o quinto set sem fim: o tie-break de dez pontos.

Carlos Alcaraz ataca na rede enquanto Ben Shelton observa ao fundo, nas quartas de final do US Open de 2026
Alcaraz e Shelton se enfrentaram por 4h28 no Arthur Ashe. Foto: Getty Images.

Ali, o saque de Shelton decidiu. O americano fechou o match point com um ace de 235 km/h, a arma que sustenta o jogo dele desde que apareceu no circuito.

Era o quarto encontro entre os dois e a primeira vitória de Shelton. O retrospecto, que estava 3 a 0 para Alcaraz, agora é 3 a 1.

“Partida épica, muito física”, disse Shelton depois do jogo. “A partida mais prazerosa que já tive na carreira, com certeza.” O americano creditou a virada a quem ficou até o fim: “Para mim é sempre sobre as pessoas na arquibancada. Sejam meus treinadores, minha equipe, meus amigos e minha família, ou a própria cidade de Nova York, que apareceu hoje e ficou até as 3 da manhã.”

Por que a partida só acabou às 3h33

O horário não foi acidente. A sessão noturna do Arthur Ashe tem dois jogos, e o duelo entre Alcaraz e Shelton era o segundo. A partida anterior, entre Jessica Pegula e Emma Navarro, se estendeu, e os dois só entraram em quadra por volta das 23h. Somados os 4h28 de jogo, o resultado foi o fim mais tarde já registrado no torneio.

O recorde anterior também tinha Alcaraz no meio: em 2022, a vitória dele sobre Jannik Sinner nas quartas de final terminou às 2h50 da manhã. Sinner, aliás, não disputou esta edição, depois de desistir do torneio por causa do joelho.

A madrugada de terça não foi um caso isolado nesta edição. Nos seis primeiros dias de competição, apenas um terminou antes da meia-noite, e três passaram das 2h da manhã. Em 31 de agosto, Venus Williams entrou em quadra às 0h13, o início mais tardio da história do US Open, superando as 0h07 de uma partida de Aryna Sabalenka contra Ekaterina Alexandrova dois anos antes.

“Não é o ideal”, disse Venus na ocasião. “Eu teria preferido outra coisa, com certeza. Não foi bom para nenhuma das duas.”

O US Open não pretende mudar o horário

A pressão dos jogadores existe e é pública. Nomes como Martina Navratilova e Boris Becker questionaram a programação, e atletas do circuito vêm repetindo que o modelo atrapalha o sono e a recuperação. A resposta da organização, até aqui, é que o formato fica como está.

Stacey Allaster, diretora do torneio, explicou a decisão. “Nós avaliamos começar a sessão noturna mais cedo, às 18h em vez das 19h, mas não é realmente possível, porque é difícil para os nova-iorquinos chegarem aqui até às 19h.”

Sobre reduzir a sessão para uma única partida, a resposta foi na mesma direção. “Nós conversamos sobre um jogo só à noite, mas achamos que isso não é justo com os nossos torcedores.” E concluiu: “No momento, mantemos o rumo com dois jogos à noite. Vamos continuar avaliando.”

O que a eliminação custa a Alcaraz

Carlos Alcaraz grita durante a derrota para Ben Shelton nas quartas de final do US Open de 2026
Alcaraz perdeu a primeira vez para Shelton em quatro encontros. Foto: Getty Images.

Para Alcaraz, a conta é pesada em três frentes. A primeira é o título: ele era o atual campeão e chegou a Nova York como um dos favoritos naturais do chaveamento. A segunda é a sequência: o espanhol vinha de 18 vitórias consecutivas em Grand Slam, uma série que morreu no tie-break do quinto set. A terceira é a régua histórica: ele vinha de quatro finais seguidas de Grand Slam, e esta é a primeira vez que cai antes da semifinal desde o Aberto da Austrália de 2025.

O contexto da temporada dá outra camada. Alcaraz voltou ao circuito nesta edição do US Open depois de quatro meses parado, e chegar às quartas com esse cartão de entrada já era resultado. Cair num jogo de quase quatro horas e meia, no quinto set, contra um adversário que ele nunca tinha perdido, é o tipo de derrota que diz mais sobre o nível do jogo do que sobre o nível dele.

Shelton chega à semifinal contra Tiafoe

Do outro lado, a vitória coloca Shelton na segunda semifinal de Grand Slam da carreira e garante um americano na decisão do torneio: o adversário é o compatriota Frances Tiafoe.

O detalhe que interessa a quem acompanha alta performance é o intervalo. Shelton saiu da quadra às 3h33, com quase quatro horas e meia de jogo nas pernas, e tem uma semifinal de Grand Slam pela frente em poucos dias. A recuperação, nesse cenário, deixa de ser rotina e vira parte da tática.

Quem quiser acompanhar o restante da chave encontra o caminho no guia de onde assistir ao US Open 2026 no Brasil.

O que isso ensina sobre alta performance

A parte fácil de contar dessa noite é o ace de 235 km/h. A parte que importa é o que aconteceu entre o quarto e o quinto set.

Shelton perdeu o quarto por 6/1. Em números frios, foi o pior set dele no jogo, contra o melhor tenista da geração, às duas e pouco da manhã, com o corpo já cobrando. Havia todo motivo para tratar aquele set como um veredito. Ele tratou como um evento isolado e entrou no quinto jogando o mesmo saque de sempre.

Esse é o ponto. Derrota, dentro de uma partida ou dentro de uma temporada, é evento, não identidade. O placar de um set não decide quem o atleta é no set seguinte, a não ser que ele decida que decide.

O segundo aprendizado é menos romântico e mais operacional. Nenhum dos dois escolheu jogar às 3h da manhã. A programação veio pronta, definida por audiência, bilheteria e a partida anterior que se estendeu. O que estava sob controle dos dois era o que fazer com aquilo: aquecer de novo, comer de novo, ajustar o plano de jogo para uma quadra mais lenta e mais fria do que às 19h.

Circunstância ruim é a regra, não a exceção, e existe uma diferença entre reconhecer que o cenário foi injusto e usar esse cenário como explicação para o resultado. O atleta pode não ser culpado pelo horário. Continua sendo responsável pela resposta que dá a ele.

E vale registrar a terceira lição, essa institucional. Os jogadores estão dizendo há anos, publicamente, que o modelo cobra caro do sono e da recuperação. O torneio respondeu que mantém o rumo. Enquanto essa conta não for renegociada, ela vai continuar sendo paga pelo corpo de quem entra em quadra.

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Foto de Diogo Moraes
Diogo Moraes

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