A primeira pergunta do episódio foi das que dividem vestiário: atleta precisa de título para conquistar patrocínio? Igor Selau respondeu antes de a frase terminar.
“Não necessariamente. Precisa ter um nome forte e uma marca pessoal forte. Não é só o resultado que manda nessa parte.”
Ele tinha a resposta vestida. No uniforme que aparece nas fotos de prova e na camisa que usou durante a gravação estão CT Bike Shop, Jam Bike, 100%, Sidi, Bergesen Agência Marítima e Camptrail Atac. Quatro anos antes, todo o patrocínio de Igor Selau eram duas camisetas por ano.
Aos 22 anos, Selau é piloto profissional de mountain bike downhill, mora em Veranópolis, na serra gaúcha, e corre pela Associação Taquarense dos Amigos Ciclistas na elite masculina. Em novembro de 2025 fechou o Campeonato Gaúcho em quarto lugar na classificação geral da elite, num circuito que reuniu mais de 140 pilotos na etapa final, em Bento Gonçalves. No ranking nacional da Confederação Brasileira de Ciclismo aparece em oitavo, com 235 pontos, e no ranking mundial da UCI é o 358º.
E ele não é atleta em tempo integral. Trabalha todo dia na empresa de frutas da família.
A objeção que travava tudo
Antes de existir método, existia uma crença. Selau descreveu a dele sem meio-termo: modalidade pequena, marca que não liga para atleta de bike, ninguém em volta vivendo do esporte.
“Tô num esporte pequeno, então não tem muita pessoa para investir, porque isso não gera engajamento. As marcas de bike não estão nem aí para os atletas e eu não conheço muitos atletas que vivem disso, então não tem como seguir. Essa era a minha linha de raciocínio.”
Ele entrou na Atleta Pro Academy entre 2021 e 2022 planejando pedir reembolso. Ficou. E o primeiro passo do processo, na descrição dele, não foi técnico, foi remover a certeza de que não daria certo.
“Se tu montar uma preparação para ter um patrocínio, mas não acreditar que vai conseguir, tu não vai conseguir. Essa objeção foi a mais difícil de quebrar, mas depois que eu quebrei ela, começou a andar o negócio e não parou mais.”

O oitavo lugar que forçou a decisão
A virada de chave não veio de um pódio. Veio de uma derrota aos 17 anos, no último ano da categoria júnior.
Até ali, ele treinava só de bicicleta, sem preparo físico, sem alimentação estruturada, e mesmo assim colecionava top 3 e top 5. Tinha vencido a categoria estreante em uma etapa do Gaúcho em 2020, em Carlos Barbosa. Chegou à primeira prova daquele ano achando que ia ganhar. Terminou em oitavo, fisicamente esgotado.
O que veio depois foi uma conta, não uma epifania. Um pneu de downhill custa cerca de R$ 700 e ele trocava quase todo mês.
“Até quando vale a pena eu continuar gastando dinheiro se não é para me esforçar de verdade? Ou eu começo a me esforçar de verdade ou eu paro.”
Ele descreveu o preço da escolha com detalhe incômodo: saiu de grupos de amigos que tinha havia cinco ou seis anos, cortou festas na transição dos 17 para os 18 anos e passou a ouvir crítica de quem ficou. Demorou meses só para conseguir sair de um grupo de WhatsApp.
“Não é só dizer não, é estar com a mente bem preparada para saber lidar com as decisões que tu está tomando, porque a decisão que tu toma hoje vai gerar uma consequência.”
Dois anos pedindo ajuda, um ano vendendo projeto
O trecho mais didático do episódio é o de uma fábrica de camisetas da cidade dele. Selau foi lá três anos seguidos. Nos dois primeiros, foi com o pai, e os dois foram pedir ajuda.
O argumento era o que quase todo atleta brasileiro já usou: o esporte é caro, a viagem é cara, a inscrição é cara. A resposta foi não nas duas vezes.
No terceiro ano ele mudou o que levava na mão. Montou um projeto, colocou preço no que estava oferecendo e apresentou a contrapartida em vez do problema.
“Eu montei o meu projeto, entendi que isso era um trabalho profissional e eu fui lá e vendi. É tanto para estar em tal lugar, na hora da camiseta eu vou divulgar tua camisa aqui, pode ser que o organizador do campeonato gaúcho venha fazer camiseta contigo.”
Fechou na mesma reunião. O valor, na lembrança dele, ficava em torno de R$ 4 mil anuais, número que ele mesmo relativiza ao contar. O pai estava na sala, calado, assistindo. Era a mesma empresa, o mesmo atleta e o mesmo resultado esportivo das duas visitas anteriores. A única variável nova foi o formato da conversa.
A comparação que um dos apresentadores usou no episódio fecha o raciocínio: um dentista que oferece serviço dizendo que o material é caro e que precisa de ajuda para pagar a luz não conquista cliente, conquista desconfiança.
O media kit é o que separa o pedido do projeto
Perguntado se tinha media kit quando entrou na Academy, Selau foi direto.
“Eu não tinha nada. Estava só na conversa. Oi, quer me patrocinar? Sou atleta de downhill. Era assim.”
O media kit é o documento de apresentação do atleta, o equivalente ao currículo em uma entrevista de emprego: trajetória, resultados, números das redes, público e as cotas de patrocínio que ele oferece. Marca grande pede esse material antes de qualquer conversa séria, e é justamente ele que a maioria dos atletas não tem.
Selau atualiza o dele três a quatro vezes por ano. E acrescentou um detalhe que raramente aparece em manual nenhum: personalizar o documento para cada marca.
“Botei a logo do patrocinador no media kit, montei um projeto exclusivo. Já coloquei a logo na camisa para ele ver onde é que ia estar, como é que ia ficar visualmente. Isso demonstra interesse genuíno na marca, não é só interesse próprio.”
O contraste apareceu logo em seguida, do outro lado do balcão. Marca recebe mensagem idêntica todo dia, com o nome da empresa trocado, e nem termina de ler. O portal já detalhou como abordar uma empresa para patrocínio e como montar a proposta sem cair nesse padrão, e mostrou como montar o media kit com inteligência artificial sem contratar designer.

O número de seguidores não é o critério
Selau lembra ter pouco mais de mil seguidores no Instagram quando fechou o primeiro patrocinador. Hoje tem 27,6 mil. O argumento dele é que nenhum dos dois números explica o que aconteceu.
“Não é o número de seguidores, é o que está sendo feito com esses seguidores.”
O raciocínio que ele desenvolveu é de audiência, não de vaidade. Uma conta pequena costuma ser formada por gente da região, que conhece o atleta e acompanha de perto. Uma conta grande, inflada por vídeo viral, junta seguidor de outro país que não sabe qual é a modalidade e nunca vai comprar do patrocinador. Para a marca regional, a primeira entrega mais. É a mesma lógica que o portal destrinchou em o que as marcas realmente procuram em um atleta patrocinado.
Quando aceitar três pares de meia, e quando dizer não
A pergunta mais espinhosa do episódio foi sobre valor: o atleta deve aceitar qualquer coisa que a marca oferece?
Selau não deu resposta de palanque. Disse que aceitaria, dependendo do momento da carreira, porque foi assim que ele começou. Duas camisetas primeiro. Depois um patrocínio em dinheiro de R$ 40 por corrida, que não cobria metade da inscrição.
“No começo não tem problema, é assim que começa. Mas isso precisa crescer junto comigo. De três passar para seis, de seis para 20, de 20 para 20 mais grana.”
O erro, na leitura dele, não é começar pequeno. É continuar pequeno depois de ter crescido, e dar à marca que paga pouco o mesmo espaço de camisa da marca que paga muito.
“Hoje já é o contrário. Eu tenho o meu valor, eu tenho o meu pacote. Sou eu que vendo o meu produto para ela, não ela que define o meu valor.”
Ele também traçou o limite do que o atleta vende, e o que não vende.
“O que o atleta tem que vender é o poder de influência dele e o espaço publicitário nos canais dele. Ele não é o vendedor do produto da empresa.”
E encerrou uma parceria em que o patrocinador só depositava. Não acompanhava resultado, não sabia como ele tinha ido nas competições, não seguia o atleta nas redes. Pelo critério dele, dinheiro sem relação não é patrocínio, é transferência. As formas de estruturar essa troca estão reunidas no guia de contrapartidas de patrocínio.
O que as marcas olham além do resultado
Questionado sobre o que as marcas buscam hoje, Selau começou por onde quase ninguém começa.
“Acima de tudo, ser uma boa pessoa, uma pessoa bem vista dentro do esporte. Não adianta ter 100, 200 mil seguidores e chegar numa competição e muitas pessoas não gostarem de ti.”
O patrocinador master da temporada dele é a Bergesen, agência marítima com sede no Rio de Janeiro que atende os portos do estado. A relação, no relato dele, virou amizade com o dono. É o mesmo padrão das marcas internacionais que ele persegue desde criança: usou os produtos da 100% muito antes de representar a 100%, e recusou oportunidades de outras empresas porque queria aquela.
Sobre rede social, ele foi taxativo, e a distinção vale para qualquer modalidade.
“Se tu é um atleta e tu é consumidor de conteúdo, a rede social te atrapalha. Tu não precisa ter Instagram. Agora, se tu é um atleta e tu é produtor de conteúdo, aí tu está no caminho certo.”
Ele documentou toda a temporada 2025 do Campeonato Gaúcho em um vídeo publicado no YouTube, no formato que pilotos de Mundial usam. Para 2026, o registro já está programado desde o começo do ano.
O que isso ensina sobre alta performance
Selau voltou de cirurgia no braço para disputar o Campeonato Brasileiro de Downhill no fim de julho, em Paraíba do Sul, no Rio de Janeiro, prova que Roger Vieira venceu na elite. O médico havia estimado seis meses de recuperação. Ele voltou em menos de dois, e não teve o resultado que queria.
A honestidade com que contou isso é o que dá liga ao resto. Não existe atalho no episódio inteiro: existe um atleta que trocou o argumento da carência pelo argumento do retorno, e repetiu isso durante quatro anos, tomando não no primeiro, não no segundo e fechando no terceiro.
“Acreditar e trabalhar duro, porque só acreditar e esperar cair do céu não funciona.”
O próximo passo dele é o downhill urbano, que cresce porque qualquer pessoa entende o grau de dificuldade de descer uma escadaria de bicicleta, e porque a prova acontece onde a transmissão é fácil. Ele cita a descida das escadas de Santos como a imagem que o público brasileiro já guarda da modalidade, e coloca o Red Bull Cerro Abajo, série que em 2026 passou por Valparaíso e Gênova e ainda para em Stuttgart, como objetivo declarado.
Perguntado sobre o que significa chegar ao topo, respondeu com a única definição que sobrevive a uma temporada ruim.
“A gente nunca chega no topo. Quando tu chega num lugar alto, tu vê que tem um lugar mais alto ainda para ir. Estar no topo é estar numa escalada constante.”
Perguntas frequentes
Quem é Igor Selau?
Igor Zardo Selau, 22 anos, é piloto profissional de mountain bike downhill de Veranópolis, no Rio Grande do Sul. Corre pela Associação Taquarense dos Amigos Ciclistas na elite masculina, terminou o Campeonato Gaúcho de 2025 em quarto lugar geral e aparece em oitavo no ranking nacional da CBC. Fora das pistas, trabalha na empresa de frutas da família.
Precisa ter títulos para conseguir patrocínio no esporte?
Segundo Igor Selau, não. Ele afirma que hoje pesam a marca pessoal e a entrega para o patrocinador, e que fechou os primeiros contratos com uma conta pequena de Instagram. O detalhamento está no guia como conseguir patrocínio esportivo.
O que é um media kit de atleta?
É o documento de apresentação que o atleta envia à marca, com trajetória, resultados, números das redes sociais, público e as cotas de patrocínio oferecidas. Selau atualiza o dele três a quatro vezes por ano e personaliza uma versão para cada empresa que pretende abordar.
Quanto valia o primeiro patrocínio de Igor Selau?
Duas camisetas por ano no começo. O primeiro patrocínio em dinheiro foi de R$ 40 por corrida, valor que, segundo ele, não cobria metade da inscrição.
Onde assistir ao episódio de Igor Selau no No Topo Podcast?
O episódio completo está no canal do No Topo Podcast no YouTube, apresentado por Diogo Moraes e Nicholas Pasqualetto, com duração de 1h22min.
Quer o passo a passo que o Igor usou para conquistar os patrocinadores?
O Método Atleta Patrocinado ensina o atleta a se posicionar, montar o media kit, abordar marcas e negociar parcerias de verdade, sem depender de fama.






