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Guday: de R$ 11 milhões a R$ 70 milhões com creatina em goma

Gomas de suplemento alimentar espalhadas sobre superfície bege

A creatina monoidratada é o suplemento mais estudado do planeta e um dos mais chatos de tomar. Pó branco, textura arenosa, resíduo no fundo do copo, aquela sensação de areia entre os dentes. Nenhuma marca brasileira tinha resolvido esse problema porque o problema não parecia ser um problema: quem quer resultado, engole.

Em abril de 2023, uma empresa registrada em São Paulo apostou o contrário. A Guday nasceu com R$ 30 mil de capital inicial e uma tese simples: o que trava a suplementação não é o preço nem a ciência, é a fricção do dia a dia. Dois anos e meio depois, a marca fecha 2025 na casa das dezenas de milhões de reais em receita e virou o caso mais citado da chamada creator economy brasileira.

A tese: tirar a fricção, não reinventar a molécula

A Guday não inventou nada no campo da bioquímica. Ela vende creatina monoidratada, a mesma forma barata e amplamente validada que está no pote de pó de qualquer loja de suplemento. O que ela mudou foi o formato: bala de goma, sabor definido, dose contada.

O produto carro-chefe entrega 1,5 g de creatina por goma. Duas gomas fecham 3 g, que é o piso da faixa de manutenção recomendada pela literatura (3 g a 5 g por dia). O pote tem 60 gomas, ou 30 doses, e sai por R$ 179,90 no site da marca.

Dosador cheio de creatina em pó sobre bancada preta

A conta é o ponto mais interessante do negócio. R$ 179,90 divididos por 30 doses dão R$ 6,00 por dia. Um pote de 300 g de creatina em pó da Integralmédica custa R$ 60,00 no site oficial da fabricante e rende 100 doses de 3 g, ou R$ 0,60 por dia. A Guday cobra dez vezes mais pela mesma substância.

Esse é o negócio inteiro em uma frase: a marca não vende creatina, vende a remoção do atrito. E descobriu que existe um público disposto a pagar dez vezes por isso.

Quem está atrás da marca

O rosto da Guday é o da influenciadora Manu Cit, curitibana de 22 anos com mais de 3 milhões de seguidores, que começou a produzir conteúdo aos 16 e trancou o curso de medicina na UFRJ no quarto período. A operação, porém, não é dela sozinha.

Manu Cit correndo na rua ao lado do pote de creatina em gummies da Guday
A rotina de treino de Manu Cit e o pote de creatina em gummies: o conteúdo e o produto foram construídos juntos, não em campanhas separadas.

A Guday é a primeira marca da Norte Media, holding fundada em 2023 por Enzo Moreira, Gabriel Delgado e João Leão, todos com 22 anos na época. A tese declarada dos três é virar algo como uma “P&G da creator economy”: criar marcas de consumo em parceria com influenciadores, uma por ano, sempre em categorias de saúde, bem-estar e lifestyle. A segunda do portfólio é a Soon, feita com Malu Borges.

A Norte captou R$ 1 milhão em 2024 para bancar o modelo. Em 2025, recebeu aporte da Rebels Ventures, o fundo de Rony Meisler, fundador da Reserva, com valor não divulgado. A gestora Moriah Asset também aparece entre os investidores da holding.

O modelo: creator com equity, não com cachê

O detalhe que separa a Guday de uma campanha publicitária comum está na estrutura societária. No modelo da Norte, o influenciador não recebe cachê para postar. Ele entra como sócio minoritário da marca, e a holding fica com o controle, a operação, a cadeia de suprimentos e a gestão.

A diferença é de incentivo. Um creator contratado por campanha entrega o post e vai embora. Um creator com participação societária tem motivo para aparecer na marca por anos, aguentar o período de prejuízo e defender o produto quando ele é questionado. Publicidade tradicional compra atenção por peça. Equity compra atenção por tempo indeterminado.

Foi o mesmo raciocínio que transformou Roger Federer em bilionário com 3% da On, e é a lógica que separa o atleta que é garoto-propaganda do atleta que é sócio.

A curva: R$ 11,5 milhões, depois um salto

A Guday faturou R$ 11,5 milhões em 2024. Para 2025, os fundadores projetavam R$ 80 milhões, um salto de aproximadamente sete vezes. Reportagem publicada em junho de 2026 aponta R$ 70 milhões faturados pela marca no último ano, abaixo da projeção mas dentro da mesma ordem de grandeza.

Vale registrar a diferença entre os dois números. R$ 80 milhões era projeção declarada em meados de 2025; R$ 70 milhões é o valor citado depois, já com o ano fechado. Nenhum dos dois é balanço auditado publicado, e é assim que praticamente todo número de startup brasileira circula na imprensa.

A linha se ampliou junto com a receita. Além da creatina em quatro sabores, a marca vende gomas de melatonina, GABA, B12 com vinagre de maçã, coenzima Q10 com matcha e uma fórmula para cabelo, pele e unhas. A distribuição saiu do site próprio e chegou a Amazon e Beleza na Web. É o mesmo caminho de outras marcas que entraram na categoria pelo apelo de consumo antes de disputar prateleira de suplemento tradicional.

O calcanhar da categoria: dose que evapora

Aqui está o risco real do formato, e ele não é brasileiro. Creatina em goma é um produto quimicamente delicado: calor e umidade convertem creatina em creatinina, que é o resto metabólico e não faz nada pelo desempenho. O rótulo pode dizer 5 g e o pote entregar quase zero.

Não é hipótese. Em 2024, a americana NOW Foods comprou 12 marcas de creatina em goma vendidas nos Estados Unidos e mandou analisar por cromatografia líquida de alta eficiência. Cerca de metade reprovou. Cinco produtos entregavam menos de 2% da creatina declarada, ou seja, 0,11 g ou menos por porção. Para atingir 3 g com um desses potes, o consumidor precisaria de dezenas de porções por dia.

Em 2025, a consultoria SuppCo repetiu o teste com seis marcas populares da Amazon em um laboratório acreditado pela ISO 17025. Quatro reprovaram. A NOW também apontou um problema estrutural: muitos laboratórios terceirizados não têm método validado para medir creatina em matriz de goma, o que faz fabricantes acreditarem que estão dentro da especificação quando não estão.

A Guday responde a esse ponto com laudo. A marca informa que cada lote passa por análise da Eurofins, laboratório independente, com método UPLC-PDA e referência à RDC nº 166/2017 da Anvisa. É a resposta certa para a pergunta certa, e é exatamente o que o consumidor deveria exigir de qualquer marca de creatina em goma antes de pagar dez vezes o preço do pó: laudo por lote, com nome do laboratório e método declarado. A mesma régua vale para qualquer suplemento com promessa de desempenho.

A corrida como canal de distribuição

A parte de marketing que mais interessa a quem trabalha com esporte não está no Instagram. Está no asfalto.

Pelotão de corredores amadores em prova de corrida de rua na cidade

A Guday criou a Guudrun, um circuito próprio de corrida de rua que rodou capitais brasileiras em 2025, com passagens pelo Rio de Janeiro em abril, Belo Horizonte, Maceió e Fortaleza, essa última em uma edição no Beach Park em outubro. A edição de São Paulo reuniu 4 mil participantes.

Uma corrida de rua não é ativação de marca no sentido clássico. É uma lista de milhares de pessoas que pagaram para acordar cedo e correr, ou seja, exatamente o público que compra suplemento com regularidade. A marca deixa de alugar audiência de terceiros e passa a construir a própria base, com dado de contato, presença física e experiência associada ao nome. É o mesmo movimento que marcas de material esportivo fazem há décadas, executado por uma empresa com menos de três anos de vida.

O mercado: pequeno, novo e crescendo rápido

O mercado brasileiro de suplementos em goma foi estimado em US$ 653,4 milhões em 2025, com projeção de US$ 1,19 bilhão em 2030 pela consultoria MarketsandMarkets, o que dá uma taxa composta de crescimento de 12,7% ao ano.

É um mercado ainda pequeno perto do suplemento tradicional, e essa é justamente a oportunidade. Categoria nova tem pouca marca estabelecida, pouco benchmark de preço na cabeça do consumidor e margem alta enquanto ninguém compara. O contrário também vale: categoria nova atrai concorrente rápido, e o diferencial de formato dura só até o primeiro grande fabricante decidir copiar.

Os três riscos do modelo

O primeiro é a dependência do rosto. A marca nasceu colada em uma pessoa. Crise de imagem, mudança de projeto de vida ou simples desgaste da audiência batem direto na receita. O contrato de equity reduz o risco de abandono, não o de reputação.

O segundo é o preço. Dez vezes o custo do pó é um prêmio que se sustenta enquanto a conveniência for percebida como valiosa e enquanto a concorrência não oferecer o mesmo formato mais barato. O dia em que uma marca tradicional lançar goma de creatina a R$ 80,00 o pote, a discussão muda.

O terceiro é a categoria. Se a creatina em goma acumular escândalos de subdosagem no exterior, a desconfiança respinga em todo mundo, inclusive em quem faz laudo por lote. Marca séria em categoria contaminada gasta orçamento explicando que não é igual às outras.

O que isso ensina sobre alta performance

Para o atleta que lê isso pensando na própria carreira, o caso Guday entrega três lições práticas.

A primeira é que o formato é uma decisão de produto, não um detalhe. A creatina em pó funciona e é dez vezes mais barata. Se o atleta toma todo dia sem falhar, o pó ganha com folga. Se o pote de pó fica encostado no armário porque o gosto incomoda, a goma cara que é consumida todo dia entrega mais resultado que o pó barato que não é. Aderência vence eficiência teórica.

A segunda é sobre auditoria. Rótulo não é laudo. Antes de pagar caro por um formato novo, vale pedir o certificado de análise, olhar o nome do laboratório e o método. Vale para suplemento e vale para qualquer promessa de performance.

A terceira é sobre estrutura. Manu Cit não vendeu posts, virou sócia. Igor Selau não pediu patrocínio, construiu método. O atleta que entende a diferença entre alugar a própria audiência e ser dono de parte do negócio joga um jogo diferente do colega que só cobra cachê por publicação.

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Foto de Diogo Moraes
Diogo Moraes

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